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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Ainda os citrinos. E outro romance de amor.

As receitas com citrinos continuam. Tenho evitado pôr raspas de laranja em tudo, ainda assim, pratos perfumados com os aromas da laranja e do limão têm sido frequentes cá em casa. Há dias, voltei a levar quadradinhos deste bolo para a escola, para animar uma reunião longa. E ando a pensar em curd de laranja para rechear filhoses este Carnaval. Se a experiência correr bem, aparecerá por aqui. 
No passado domingo, consegui levar o Manel ao pomar do avô, com o pretexto de estudarmos o futuro galinheiro. Parece que é desta que vamos ter galinhas. 
A receita que trago hoje é muito apreciada cá em casa. Achei que laranja e pimenta preta haviam de combinar bem, talvez inspirada pelos sabores do Leitão à Bairrada. Não me enganei. Já experimentei misturar alecrim, no entanto, a versão preferida dos meus rapazes é a mais simples, só com alho, laranja e pimenta preta. 



Esta receita é daquelas que se fazem quase sozinhas. Temperar a carne, passá-la numa frigideira bem quente e esquecê-la no forno algumas horas. Entretanto, podemos aproveitar para descansar ou ler um romance. Ando a ler Jane Eyre, da Charlotte Brontë. Um romance arrebatador, que custa largar. Durante anos, andei afastada dos clássicos do Romantismo. Depois de, na adolescência, ter devorado muito do que foi escrito naquele período, quer fossem os livros de Júlio Dinis, de Camilo ou a poesia das Folhas Caídas, de Garrett, de cujos poemas ainda sei excertos de cor, pus de parte livros de amores impossíveis, de personagens sofredoras, a quem tudo parece acontecer. 
E agora está a saber-me bem voltar a estes temas, com a experiência que décadas de leituras várias me trouxeram. O romance naquele sentido mais clássico. Uma manta, uma lareira acesa e um romance. Há lá coisa melhor! Enquanto o meu assado vai borbulhando lentamente no forno, vou-me deixando levar pela história da Jane e do caprichoso Rochester.



Entrecosto assado com laranja e pimenta preta
(com ou sem alecrim)

Ingredientes para 4 a 6 pessoas:
1 kg de entrecosto (de preferência com pouco osso)
5 dentes de alho
1 colher de sopa (rasa) de sal
2 colheres de chá de pimenta preta em grão
alecrim a gosto
3 colheres de sopa de azeite

Num almofariz, esmagar o alho, alecrim (se usarmos), o sal, a pimenta e o azeite, até obter uma pasta, com a qual se esfrega a carne.
Levar ao lume uma frigideira grande e, quando estiver bem quente, colocar a carne, segurando-a com uma pinça, para que todos os lados fiquem selados.
Colocar a carne numa assadeira e regá-la com o sumo de 2 laranjas.
Aquecer o forno a 175 graus e levar ao forno 2 horas e meia. 
As fotografias que se seguem foram tiradas por várias vezes (com e sem alecrim). Gosto de ambas as versões, mas, ultimamente, também tenho preferido a versão mais simples, sem ervas.




domingo, 3 de fevereiro de 2019

Duas versões de uma receita. E um romance de amor.

Acho que se ficar à espera da fotografia bonita para partilhar esta receita, isso nunca acontecerá. A fotografia bonita quer luz natural e este queijo é invariavelmente feito em jantares de inverno, em noites frias iluminadas pelo calor da meia-luz artificial. 
Ainda assim, mais pecaminoso do que publicar uma fotografia menos bonita seria não partilhar esta receita fácil, quase uma não-receita, que se faz num abrir e piscar de olhos, e que pode ter tantas variações quantas a nossa imaginação ditar. 
Comecei pela versão original, do livro Jantaradas com Amigos, do chef Kiko, com alho, azeite e alecrim. Entretanto, já experimentei outras combinações e parece-me que não fico por aqui. Acho que deve ficar belíssimo com frutos secos (nozes ou pistácios) e mel. Fica para a próxima. 
A primeira fotografia é da versão com alho e alecrim. A segunda é de um improviso com pimenta rosa. Ambas saborosas! 

Queijo assado no forno

Versão 1
1 queijo de Azeitão
1 embalagem de gressinos
1 dente de alho muito bem picado
alecrim a gosto
1 colher de sopa de azeite

Versão 2
1 queijo de Azeitão
1 embalagem de gressinos
1 dente de alho muito bem picado
orégãos frescos a gosto
1 colher de café de pimenta rosa
1 colher de sopa de azeite

Cortar a parte de cima do queijo e cobri-lo com todos os ingredientes. Levar ao forno a 150 graus durante 5 minutos. Servir com os gressinos e um copo de vinho tinto.




Por aqui, o dia está chuvoso. Perfeito para uma tarde dedicada à leitura. Ando a ler Resistencia, de Rosa Aneiros, que trouxe da Galiza. Uma história de amor passada em Portugal, na altura do Estado Novo. Sabe bem ler um romance de amor à antiga, daqueles amores impossíveis, que resistem a tudo. Já não se escrevem muitos. Que eu saiba, não há tradução em português. Ainda assim, o galego é tão próximo do português que não é muito difícil seguir a história, mesmo que, inevitavelmente, um ou outro sentido fiquem por decifrar. 

A todos os que por aqui passam, desejo um bom domingo e uma boa semana. De preferência com um livro por perto.




domingo, 13 de janeiro de 2019

Domingo de manhã. E uma sandes para dias apressados.

São das minhas horas preferidas da semana. Logo a seguir ao fim da tarde de sexta-feira, quando chego a casa depois de uma semana longa. Mas os sentimentos são diferentes. Na sexta, há uma certa euforia, associada ao início do fim de semana. Um sem-fim de projetos para os dois dias que se seguem, alguns dos quais não passam disso mesmo: projetos. Ao domingo de manhã, o sentimento é outro. É de calma, de uma certa resignação em relação ao que não se fez. É como se a sexta fosse uma jovem cheia de sonhos e expectativas e o domingo trouxesse a serenidade da meia-idade. Ao domingo de manhã, as horas parecem render, apesar de não haver despertador, o que parece meio paradoxal. Depois de um pequeno-almoço mais ou menos frugal, o que será ditado pela hora de acordar, dedico-me àquelas coisas para as quais normalmente não tenho tempo. E este espaço está entre elas. Durante a semana mal me lembro de que existe. Com a corrida dos dias, algo tem de ficar para trás. E o blogue fica, invariavelmente, no fim da lista. Tem de ser. Afinal, a vida em carne e osso tem sempre prioridade. 


A receita (se é que se pode chamar receita) que vos trago não costuma ser de domingo. Costuma ser comida de dia útil, de dia de quando não há muito tempo para a cozinha. Dias de ter sopa no frigorífico e nada pensado para depois. É a sandes preferida do meu filho. Pede sempre para me ajudar a prepará-la. E eu deixo, claro. Afinal, tem 10 anos e tem de ir aprendendo a desenrascar-se. Da última vez, achei que a devia partilhar. É uma sandes útil para ter no repertório. Espero que gostem.

Ingredientes para cada sandes:
1 baguete pequena (costumo comprá-las congeladas, semi-cozidas, e colocá-las no forno 5 minutos)
Molho pesto a gosto
3 fatias de queijo halloumi
1 ovo cozido
2 folhas de alface

Preparação da sandes:
Começo por cozer os ovos.
Corto o halloumi em fatias e levo-o a grelhar, com um fio de azeite, polvilhado com orégãos.
Abro a baguete, barro-a com pesto e disponho os restantes ingredientes, pela seguinte ordem: queijo, ovo e alface. Prendo-a com palitos e sirvo-a, inteira ou cortada ao meio.


Despeço-me com duas imagens dos últimos dias: as flores que estão na jarra e a Lana, ao lado do livro que ando a ler: O Jogo do Mundo (Rayuela), de Júlio Cortázar. Um livro desafiante, que nos manda andar a saltar de capítulo em capítulo. E que nos dá a possibilidade de saltar (mesmo) a leitura de alguns. Estou a gostar deste jogo da macaca literário 🙂


Uma boa semana!
Ilídia

domingo, 11 de setembro de 2016

Setembro. E uma receita de lulas.

Setembro chegou, com a sua luz e doçura especiais. Damos as boas-vindas às beladonas, ainda de olho nas coisas de verão. Voltámos ao trabalho e, não tarda nada, o Manuel regressa à escola. Aí sim, começam as rotinas a sério. Tentamos esticar o verão o mais possível. Se o tempo o permite, um mergulho ao final da tarde. Depois, jantar no jardim. Os gatos aproveitam para passear muito e para se rebolarem na relva. No inverno, hão de preferir esticar-se nos sofás. A horta anda abandonada. Quando colho o pouco que resta, fico triste por ver a invasão da junça e das beldroegas. Mas tem-me apetecido outras coisas. Praia e livros. 
Os livros escolares começam a misturar-se com os outros. A tetralogia da Elena Ferrante está quase no fim. Vou ter saudades daquela gente. Bem que andava meio mundo apaixonado por estes livros. Impossível não gostar, parece-me. Livros destes são raros. 
As refeições são simples, com muitos grelhados, pensados quase na hora. Daí a escassez de receitas novas por estes lados. Ainda assim, de vez em quando apetece-me experimentar uma coisa diferente. Desta vez, uma massa, com sabores e cheiros de verão. 








Espaguete com lulas 
alcaparras e azeitonas
(Adaptada de Nigellissima, de Nigella Lawson)



Ingredientes para quatro pessoas:
3 colheres de sopa de azeite
1 chalota, descascada e picada
sal a gosto
1 dente de alho, descascado
3 colheres de sopa de salsa fresca picada, mais um pouco para servir
1/2 colher de chá de flocos de malagueta seca
1 lata de 400 g de tomate em pedaços
125 ml de vinho branco seco
300 g de esparguete
450 g de lulas limpas, cortadas em anéis
azeitonas e alcaparras a gosto (opcional)


Preparação:
Começar por pôr a água ao lume para cozer a massa, numa panela grande, com água temperada com sal. Quando ferver, juntar o esparguete e cozê-lo al dente, seguindo as instruções da embalagem. Escorrer e reservar 1 chávena de água da cozedura. 
Entretanto, numa panela larga, aquecer o azeite, adicionar a chalota picada e uma pitada de sal. Deixar cozinhar, mexendo sempre, em lume médio, alguns minutos.
Baixar um pouco o lume, adicionar o alho picado (costumo usar um esmagador - é bem mais prático), as 3 colheres de salsa e os flocos de malagueta. Mexer cerca de 30 segundos e juntar a lata de tomate.
Juntar o vinho, deixar ferver, baixar o lume e deixar engrossar, em lume brando, cerca de 10 minutos.
Adicionar as lulas e, quando o molho tornar a ferver, elas devem estar tenras e bem cozinhadas (costumo verificar com um garfo, só para ter a certeza). Juntar 2 colheres de sopa da água da cozedura ao molho, as alcaparras e as azeitonas e, finalmente, o esparguete. Se for necessário, pode juntar-se mais alguma água da cozedura. Polvilhar com mais um pouco de salsa no momento de servir.


Continuação de bom domingo! Terceirenses, aproveitem bem a tolerância de ponto de amanhã ;)





quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Meu querido mês de agosto

Agosto foi um mês pleno. Com muito mar e muito sol. Este ano, usufruí da minha ilha como nunca. Saímos de casa sem destino, com farnel. E passámos dias inteiros por fora, de poça em poça. Este ano, saí da areia e fui para o calhau. Entrei em águas cristalinas e deixei-me ficar. E agradeci o privilégio de viver num lugar como este. Tanta diversidade numa ilha tão pequena. Sairmos do mar e almoçarmos no campo, entre árvores refrescantes. Atravessarmos a ilha e estarmos novamente na água.  Este ano, chegámos a encerrar a praia. Só nós, a jantar num lugar lindo. Não foi preciso muito, depois de um dia de mar. A imagem das crianças a comer com vontade sandes de atum, enquanto um barco passava em direção à Graciosa, foi daqueles momentos que apeteceu congelar. 

Uma das leituras deste verão foi o novo livro do Mário Cabral. Desta vez, um romance com a ilha do Pico como cenário. Um livro que saiu de forma silenciosa, sem alarido, mas que merece muito ser lido.

Este agosto fiz 40 anos. Foi um dia bonito, vivido com muita tranquilidade. Nada como quando fiz 30. O dia dos meus 40 não foi assombrado por pensamentos obscuros relacionados com a passagem do Tempo. Só pensei no que tenho de bom e em como estou grata por tudo o que a vida me deu. Fica a foto do bolo lindo com que a minha amiga Lídia me presenteou. O bolo dos meus 40 ficar-me-á para sempre na memória.

Hoje, voltei à escola. Revi colegas, conheci outros, delineámos projetos. É bom quando se gosta de regressar ao trabalho. Afinal, convivemos com ele 11 meses.  No fim de um dia de muito calor, ainda deu tempo de ir à Salga, para duas horas de mar. Assim, a transição não custa. 

Amanhã, esperamos mais um furacão. Desta vez, chama-se Gaston. Já ninguém os leva muito a sério - de vez em quando lembro-me da história do Pedro e o Lobo. Ainda assim, não me parece que haja mar. Haverá casa e filmes. E compotas, que está na altura delas. E os três últimos volumes da tetralogia da Elena Ferrante finalmente chegaram. Tenho entretenimento para os próximos tempos.

Agora, fotos do meu/ nosso agosto. No próximo post, haverá receita. Prometo!















domingo, 29 de maio de 2016

A vida no campo


O último livro do Joel Neto tem um título com um quê de romântico. A mim fez-me pensar nos cenários dos romances de Júlio Dinis, d'A Cidade e as Serras ou dos poemas de Cesário Verde. Um livro de homenagem à terra do autor, que também é a minha. Aos lugares, aos costumes, ao falar, às pessoas. Um livro que, sem qualquer sombra de cinismo, é um hino à Terceira. A visão é idílica, o olhar tem o encantamento próprio de quem está de volta ao fim de muitos anos, mas não deixa de, simultaneamente, ser bastante realista. Não é fácil viver numa ilha pequena como a nossa. Principalmente no inverno. É nesta estação que a nossa resiliência é posta à prova. Podemos queixar-nos, dizer que nesta terra não se passa nada ou aproveitar o silêncio e as chuvas para nos recolhermos e fazermos aquilo de que gostamos. Ler, passar serões à lareira, jantar com amigos, cozinhar. Ou aproveitar os eventos culturais que vão surgindo e que, afinal, não são assim tão poucos. É esta capacidade que distingue as pessoas felizes das outras, as amargas, cínicas, que desdenham da felicidade dos outros, da capacidade que têm de se contentar com as coisas pequenas.
Nem sempre gostei de ler o Joel. Não é segredo. Já lho disse e tudo. E ele percebeu e admitiu que ele próprio não se revê em coisas que disse. Mas é muito fácil um açoriano que chega à cidade grande deixar-se levar por um cosmopolitismo por vezes forçado. No fundo, queremos pertencer à tribo, ser iguais aos outros. Universais. Acho que é isso. Só com a idade nos damos conta de que a nossa riqueza está na nossa individualidade. Aí, o orgulho na nossa terra emerge. Começamos a dizer, deliberadamente, Queres enriciá? ou Bota sentido!*
Ao ler os livros do Joel (os últimos) penso na minha própria mudança. Em como há uns anos nem me passaria pela cabeça ter uma horta, arrancar ervas daninhas, estar atenta às luas e pedir chuva a S. Pedro depois de muitos dias de sol. Lembro-me de o meu avô o fazer e de eu sorrir, achando esses pensamentos demasiado rurais para mim. E tenho pena de não ter tido tempo de trocar com o meu avô dicas de agricultura e de não ter compreendido melhor essa sua faceta de homem do campo. Mas tinha vinte e poucos anos, lá está. Estava demasiado ocupada a ser uma menina cosmopolita, que, apesar de ter nascido numa ilha, queria provar que pouco ou nada tinha a ver com ela e com os seus hábitos. 
Este A vida no campo tem-me feito pensar nisto tudo. Tem sido com prazer que tenho (re)lido estes textos do Joel, desta vez agrupados por estações. Aquelas que, nos Açores, coexistem todas num dia.

* Queres causar problemas? ou Presta atenção!



Partilho convosco um excerto do texto de abertura, Anúncio, uma homenagem ao Ti José Nogueira, um homem rural que poderia ser o meu avô:


       O Ti José Nogueira enterrou-se ontem. Perguntei o horário do funeral na venda e fui despedir-me. Leu-se o Êxodo, de Primeira a Coríntios e do Evangelho Segundo São João. A igreja estava cheia e eu era o único que não sabia quando levantar sentar e cantar.
        Do Ti José Nogueira não rezará a História. Quem mudou o mundo não foram os camponeses honestos, que pagaram os seus impostos e encheram a igreja na freguesia no dia em que foram a enterrar. Dos aventureiros, dos inventores e dos facínoras - deles, sim, reza a História. 
        Por isso se inventou a literatura.



                     

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Os melhores ovos mexidos

Ainda que fosse só por esta dica, já teria valido a pena comprar o livro Brunch, da Joana Limão. De facto, estes são os melhores ovos mexidos que já provámos. E o truque é simples: separar as claras das gemas e juntar estas apenas no fim. Assim, consegue-se uns ovos húmidos e cremosos, perfeitos para um pequeno-almoço preguiçoso ou para um jantar leve, quando há pouco tempo ou pouca vontade para a cozinha.



Ingredientes para três:
6 ovos
1 colher de sopa de azeite
sal e pimenta preta a gosto
cebolinho e salsa a gosto

Separar as gemas das claras e reservar as gemas, tapadas. 
Aquecer o azeite numa frigideira. Bater as claras ligeiramente (na receita original, não é pedido, mas pareceu-me melhor) e começar a mexer, envolvendo-as com uma espátula até estarem cozinhadas. Reservar até 5 minutos antes de servir.
No último minuto, juntar as gemas, mexendo, deixando-as ao lume apenas o tempo suficiente para cozerem ligeiramente, mantendo-se húmidas e cremosas. Temperar com sal e pimenta. 
Servir sobre fatias de pão torrado e finalizar com ervas frescas (cebolinho ou salsa, por exemplo).

A foto não é de um pequeno-almoço nem brunch, mas sim de um jantar tardio de domingo, por isso enriqueci o prato com cogumelos salteados.



Continuação de um bom feriado!

domingo, 31 de janeiro de 2016

Uma receita para um livro

Não conheço a Figueira da Foz assim tão bem. Apenas de passagem, com pouca demora. O mesmo posso dizer dos hábitos gastronómicos da cidade. Tinha conhecimento de um doce com o nome poético de Brisa da Figueira e pouco mais. E habituei-me a ver as publicações de receitas com salicórnia da Guida. Foi com o Panela Sem Depressão desta minha amiga que fui aprendendo alguma coisa sobre os hábitos alimentares da zona. Mas estava longe de imaginar uma receita minha publicada num livro sobre gastronomia da Figueira da Foz. Ainda assim, foi com muito orgulho que vi o meu prato incluído n' A nossa mesa: receituário gastronómico da Figueira da Foz. Este é um daqueles livros que nem todas as regiões se orgulham de ter. Um trabalho de recolha de um património que acredito se perderia se não fossem pessoas persistentes como a Guida. Uma obra que impõe respeito, a começar pela dimensão. Um número respeitável de receitas, organizadas por temas e por ingredientes como o porco, a raia, o arroz ou a salicórnia. 




Apesar de algumas peripécias com a viagem da salicórnia até aos Açores, que, pela demora e o estado em que  chegou, parece ter dado a volta ao mundo, ainda consegui aproveitar alguma e incluí-la na minha receita de raia.


"Esta receita junta a salicórnia da zona da Figueira ao inhame dos Açores. A estes ingredientes, um peixe que é de ambas as regiões: raia. A salicórnia é aqui utilizada juntamente com o pão e o atrevimento do piripíri para formar uma crosta saborosa, que envolve este peixe de sabor delicado." (p.322)  

Raia com crosta picante de salicórnia





Ingredientes para duas pessoas:
4 pedaços de raia
4 dentes de alho, esmagados
sal a gosto
sumo de meio limão
um ovo batido
um inhame pequeno por pessoa
tomate groselha e planta do gelo para guarnecer

Para a crosta picante:
1 pedaço de pão duro
salicórnia a gosto
piripíri seco a gosto (não exagerar, caso contrário, o sabor dominará)

Preparação:
Começa-se por temperar a raia com o alho, o sal e o sumo de limão. Reserva-se, de preferência  não menos de duas horas. Entretanto, coze-se o inhame. Num robot de cozinha, coloca-se o pão, a salicórnia e o piripíri e tritura-se tudo. Escorre-se a raia, passa-se por ovo e, depois, pela mistura de pão ralado. Unta-se com azeite uma assadeira, onde se colocam os pedaços de raia. Regam-se com mais azeite e levam-se ao forno, a 200 graus, 15 a 20 minutos. Caso a raia seja muito alta, pode haver necessidade de a deixar no forno mais algum tempo.
Enquanto o peixe assa, descasca-se o inhame e corta-se em rodelas finas, com as quais se cobre o fundo do prato. Sobre estas, dispõe-se a raia e finaliza-se com o tomate e a planta do gelo (ou salada).



Parabéns, Guida, pela qualidade deste trabalho e pela persistência. E obrigada pelo convite. É uma honra :)


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O Acre e Doce é um blogue que celebra a vida de casa, principalmente os momentos passados à volta da mesa. É um blogue de coisas que nos fazem felizes, sejam uma refeição, um filme, um livro ou um ramo de flores frescas.