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domingo, 30 de novembro de 2014

O Nosso Presépio

Não há Natal como o da infância. Por mais gasta que a frase esteja, penso nela todos os Natais, ao olhar para o meu filho. Mesmo quando se gosta muito, há névoas que desbotam as cores vibrantes da época. Aquele Natal pleno de quando somos crianças não volta mais. Aquele Natal de euforia ao decorar a árvore e ao acender as luzes pela primeira vez. Aquele Natal de estar tudo bem, sem que falte nada e, principalmente, ninguém.
Ontem, fizemos o presépio. Não fazia um presépio há mais de vinte anos. Pelo menos, não um presépio a sério, com uma gruta de pedra e farelo e leivas*. Mal acordámos e tomámos um pequeno-almoço de panquecas, agasalhámo-nos e fomos os três à nossa horta semiabandonada, recolher os materiais necessários para recriar a nossa Belém. Enquanto o fazia, as memórias inevitáveis da minha avó, que vivia o Natal como ninguém. 
Quase todas as memórias dos Natais da minha infância estão ligadas à minha avó. Ela que, semanas antes, começava a pensar no presépio daquele ano. Juntas, subíamos ao sotão, à procura das caixas que continham as figuras da Natividade, as ovelhas, os pastores e demais personagens que enriqueciam as vivências aldeãs que (re)criávamos. Em conjunto, construíamos casinhas de cartão, pintávamos telhados, cortávamos portas e janelas e cosíamos cortinas. Casas típicas dos Açores, que encaixávamos nas areias de Belém. Era uma rotina de depois das minhas aulas. Chegado o grande dia, ela aparecia, sorridente, com o seu cachecol de crochet, cor de tijolo, e o seu cabelo, já prateado. E, qual arquitetas paisagistas, fazíamos nascer montes e cerrados** e abríamos estradas, umas de areia, outras de farelo, tudo dividido, ao estilo açoriano, por muros de pedrinhas de basalto. O nosso presépio era sempre construído sob a árvore de Natal, que havia sido enfeitada antes, por mim e pelo meu irmão, com a ajuda dos meus pais. 
O nosso presépio de 2014 é menor e tem menos pormenores do que os que fazia, nos anos 80, com a minha avó. É um presépio mais apressado, com menos horas de trabalho, sinal dos dias azafamados que vivemos. Mas é um presépio. O nosso presépio, construído por nós, com o nosso filho. O presépio que o Manel, vigilante, protege das patas curiosas de gatos que achariam graça a destruir a estrada que leva os Reis Magos ao Menino. Acho que a minha avó o aprovaria. A minha avó, que morreu faz hoje 14 anos.

* Designação dada por cá ao musgo.
** Pastagens típicas açorianas, divididas por muros de pedra.







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O Acre e Doce é um blogue que celebra a vida de casa, principalmente os momentos passados à volta da mesa. É um blogue de coisas que nos fazem felizes, sejam uma refeição, um filme, um livro ou um ramo de flores frescas.