A Bretanha era um sonho antigo. Na minha imaginação, esta região sempre esteve envolta numa aura misteriosa e fascinante. O nome Bretagne e o adjetivo breton sempre me despertaram aquela vontade de ir, de mergulhar numa região singular, com costumes e tradições muito próprios. Queria muito que estas palavras deixassem de significar utopias e passassem a ter rostos, cores, cheiros, sabores.
Nestes dias em Rennes, quis encher-me de tudo. Conheci muitos bretons, todos hospitaleiros, bem dispostos, divertidos. Provei pratos deliciosos, preparados com manteiga, a gordura da cozinha bretã. E crepes, doces e salgados, acompanhados por cidra, servida em chávenas lascadas, numa maison à colombages curvada pelos séculos. E passeei por uma cidade linda, cheia de História, onde as igrejas e edifícios belíssimos se misturam com as ruas a fervilhar de estudantes que bebem cerveja ao anoitecer. E cantei canções bretãs, guiada pelos meus amigos franceses.
Na Bretanha, deixei-me deslumbrar com a paisagem singular e pitoresca de Cancale. Vi pessoas a apanhar ostras, acompanhadas pela silhueta do Mont Saint-Michel, que parecia observá-las, ao fundo. Fotografei como uma louca, na tentativa de não deixar escapar nada, de trazer tudo comigo. Sentei-me numa brasserie e comi ostras. Bebi vinho branco e diverti-me muito, com as piadas dos meus colegas franceses, gregos e polacos. This place is so beautiful. It's metaphysical., dizia a Eleni. Todos rimos com o ar maravilhado com que ela disse aquelas palavras. Mas estava certíssima. Talvez seja o adjetivo mais adequado àquele lugar, à experiência que estávamos a viver, ali, todos juntos, naquela tarde de novembro. Comer ostras em Cancale, com aquele cenário à frente foi, realmente, uma experiência muito especial.
Kouign-amann, sobremesa típica
Atravessámos campos salpicados de casas lindas, daquelas em que nem parece habitar gente de verdade, de tão pitorescas. Fotografei muito, mais uma vez. E imaginei quem habitaria aquelas casas, quem andaria a construir aquela cerca de madeira, ainda por concluir.
Um dos momentos altos desta viagem foi a visita ao Mont Saint-Michel. Num dia nublado, pontuado por alguns chuviscos. Até o tempo ajudou. Acho que o sol declarativo tiraria parte do mistério a esta abadia escura e pesada. Pelo menos no meu imaginário, o Mont Saint-Michel sempre esteve associado a tempo sombrio. Enquanto atravessávamos ruelas, visitávamos capelas, enquanto subíamos e descíamos escadas, fomo-nos separando. Cada um visitou aquele lugar à sua maneira. E em silêncio, sobretudo. Os pássaros acompanharam-nos sempre, pousando perto de nós, sem medo. As vistas deslumbram, pela paz. Um dos lugares mais especiais em que já estive.
À saída, comemos bolinhos e bebemos café quente, oferecidos pela Hélène e pelo Hervé, que nos guiaram neste dia. Enquanto saboreava aquele lanche reconfortante, olhei para a abadia e tive a noção de que, mais uma vez, estava a viver um momento especial. Daqueles que recordarei com gratidão até ao fim dos meus dias.








































