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quarta-feira, 10 de abril de 2013

Convidei para jantar Domingos Rebelo

As nossas reações perante uma obra de arte variam. Desilusão, quando finalmente nos encontramos face a uma obra-prima e não sentimos nada (aconteceu-me com a Mona Lisa, de Da Vinci, por exemplo). Encantamento, se estamos perante uma obra que sempre admirámos e não desilude. Como num sonho tornado real, sentimo-nos flutuar. A Arte, seja ela qual for, pode provocar reações inesperadas. Quando estive a escassos centímetros da máscara dourada de Tutankamon, senti uma espécie de transe. Não sei se pela beleza, se pela opulência, se pelo que aquele momento representava. Por causa de uma série de Picassos, entusiasmei-me, fui-me deixando levar, e perdi-me do meu marido durante alguns minutos que me pareceram horas. 
Comoção. A Arte pode provocar comoção. É comovida que fico sempre que vejo o quadro Os Emigrantes, do meu convidado. Comovida como quando leio "O Mar Português", de Pessoa, ou o episódio das "Despedidas em Belém", d'Os Lusíadas. Quer sejam as palavras escritas ou os rostos impressos na tela, as emoções são semelhantes: uma tristeza profunda por todos aqueles que se veem obrigados a deixar a sua terra, de coração destroçado e destroçando corações. 

 
Os emigrantes 
Óleo sobre tela (235 X 295 cm)

E foi sobre este quadro que falámos durante quase todo o jantar. Domingos Rebelo confessou-me que nunca pensou que, em 2013, o seu quadro estivesse tão atual. Tirando os trajes de uma época que não é a nossa e uma religiosidade que já não é vivida com a mesma intensidade, os sentimentos serão os mesmos. Os mesmos anseios, as mesmas incógnitas, as mesmas esperanças. A mesma tristeza. 
Mais do que sobre emigração, este quadro é sobre açorianidade. Estão lá os nossos símbolos mais importantes: a nossa "viola de dois corações", com todo o lirismo a ela associado, o cestinho das laranjas, o quadro do Senhor Santo Cristo dos Milagres. O Mar. Um quadro que conta uma história. Ou muitas histórias. Desde que foi pintado, em 1926, os destinos foram mudando. Brasil, Estados Unidos, Canadá, Bermudas, Angola, Mocambique. Mas os sentimentos terão sido semelhantes. Serão semelhantes. 
Enquanto saboreava um prato generoso de Boeuf Bourguignon, o meu convidado falou-me dos anos em Paris, do convívio com os grandes Amadeo de Sousa Cardoso e Santa Rita Pintor. E de como quanto mais longe da ilha estava, mais açoriano se sentia. E como eu o percebi.

Boeuf Bourguignon da escola Le Cordon Bleu
 (receita copiada integralmente do blogue Elvira's Bistrot)



Ingredientes para 4-5 pessoas


Marinada

  • 2 cenouras, cortadas em pedaços de 1 cm
  • 1 cebola grande, cortada em pedaços de 1 cm
  • 2 dentes de alho, esmagados
  • 1 ramo de cheiros*
  • 3 colheres (sopa) de conhaque - ou de aguardente velha, brandy...
  • 10 grãos inteiros de pimenta preta
  • 1 l de vinho tinto de Borgonha - ou outro vinho tinto encorpado de boa qualidade
  • 2 colheres (sopa) de óleo azeite

  • 1 kg de carne de novilho para estufar ou assar**, cortada em cubos médios
  • 1 colher (sopa) bem cheia de concentrado de tomate
  • 2 colheres (sopa) de farinha de trigo
  • 400 ml de caldo de carne forte e encorpado
  • 3-4 cebolas, cortadas em rodelas finas
  • 1 colher (sopa) de manteiga
  • 1/2 colher (sopa) de açúcar
  • 150 g de cogumelos frescos - tipo champignons de Paris, limpos e cortados em quartos
  • 2 colheres (sopa) de alho picado finamente
  • 240 g de toucinho fumado - bacon, cortado em palitos finos ou em cubos pequenos
  • salsa fresca picada q.b.
  • sal 
  • azeite & manteiga q.b.

* 1 folha de louro + 1 pedaço de pau de aipo + 1 pé de alecrim + 1 pé de tomilho + 3 pés de salsa. Tudo bem atado com fio de cozinha. ** chambão, chã de fora...



Preparação

Preparar a marinada. Colocar os cubos de carne numa tigela grande e funda. Juntar os pedaços de cenoura, a cebola, os alhos esmagados, o ramo de cheiros, o conhaque, os grãos de pimenta, o vinho tinto e o azeite.

Misturar muito bem e cobrir com filme transparente. Reservar no frigorífico de um dia para o outro.

Coar o líquido da marinada para dentro de um tacho; juntar o caldo de carne ao tacho. Separar os vegetais, a carne e o ramo de cheiros. Secar a carne com papel absorvente e reservar.

Ferver o líquido da marinada durante 6-8 minutos. Eliminar a espuma que se vai formando com o auxílio de uma espumadeira. Retirar do lume e reservar.

Aquecer um pouco de azeite e de manteiga numa panela de ferro fundido ou de barro. Juntar 1/3 da carne e saltear até ficar bem selada e dourada. Retirar a carne da panela e reservar. Recomeçar a operação com a carne restante, em duas vezes. Reservar a carne.

Refogar as rodelas de cebola na panela durante 5-6 minutos - ou até ficarem macias. Adicionar os vegetais da marinada e refogar mais um pouco, até ficarem ligeiramente dourados. Polvilhar com o açúcar e envolver.

Juntar os pedaços de carne, assim como o concentrado de tomate. Envolver e polvilhar com a farinha. Mexer durante aproximadamente 2 minutos.

Regar com a marinada e adicionar o ramo de cheiros. Levar a ferver e baixar o lume. Cobrir com uma tampa. Deixar cozinhar em lume brando durante 2-3 horas, ou até a carne ficar muito tenra, mexendo de vez em quando.

Entretanto, aquecer a colherada de manteiga numa frigideira. Saltear os cogumelos com uma pitada de sal e o alho picado até ficarem com uma cor acastanhada. Retirar do lume e reservar.

Grelhar os palitos de toucinho noutra frigideira, em seco, até ficarem levemente dourados. Reservar.

Juntar os cogumelos e o toucinho a panela pouco antes do final da cozedura. Rectificar os temperos. Retirar a panela do lume e deixar repousar de um dia para outro. 

Voltar a aquecer em lume brando - ou no forno. Descartar o ramo de cheiros. Polvilhar com salsa picada antes de servir - bem quente, acompanhando com puré de batata caseiro e pão torrado.

Depois de algumas edições afastada do passatempo "Convidei para Jantar...", criado pela Ana, volto a participar nesta edição, cuja anfitriã é a Guida, que nos pede para convidarmos um pintor.


domingo, 7 de outubro de 2012

Um jantar utópico

Olho pela janela e vejo passar as primeiras folhas, que anunciam a chegada do outono. O dia está nublado, com aquela bruma típica das ilhas. Ao fundo do jardim, surgem cinco vultos negros. Parecem levitar, por entre a névoa. Aproximam-se, belos e enigmáticos. As feições vão-se desenhando. Param, no meio do jardim. Olham-me e sorriem, misteriosos. Pousam os instrumentos e começam a tocar. Os acordes misturam-se com as folhas que rodopiam, numa dança etérea. O vestido preto dela esvoaça. Mistura-se com as folhas e os acordes. De olhos fechados, canta O Sonho. A música ecoa e confunde-se com o vento. Notas que pairam no ar e que tento agarrar com as mãos. Estão todos no meu jardim. Até Rodrigo Leão, com as suas teclas. Saio e contemplo-os. Mato saudades da verdadeira Essência dos Madredeus. As músicas sucedem-se. Por fim, tocam As Ilhas dos Açores

Convido-os a entrar. Acendo a lareira. Sentam-se à mesa. Serve-se comida quente e reconfortante, a contrastar com o frio que se sente lá fora. E ouço-os, comovida. E nem tento perceber o que está a acontecer. Não me interessa. Aproveito, apenas. Beneficio destas horas com aquele que considero o melhor grupo português de sempre.

Acordo, dia claro. Um dia azul e verde, de verão. Estou no sofá. Uma manta leve cobre-me o corpo. Recordo a noite anterior. Ligo o computador. Agenda cultural: Madredeus em digressão pela Europa - apresentação do novo álbum e da nova vocalista. Levanto-me, perplexa. Na mesa, ainda copos. Para além dos nossos, mais cinco. E os nossos CDs, autografados. 


Lasanha negra para os Madredeus
Ingredientes para a massa:
200 g de farinha (100 g de centeio + 100 g de trigo)
1 pacotinho de tinta de choco
2 ovos

Ingredientes para o recheio:
Recheio 1:
1 alho francês grande, cortado em rodelas
2 bolbos de funcho (pequenos), picados
250 g de bacon, cortado em tirinhas
2 colheres de sopa de azeite

Recheio 2:
400 g de cogumelos pleurothus, picados
4 dentes de alho, picados
2 colheres de sopa de azeite
tomilho fresco q.b.

Ingredientes para o molho béchamel:
600 g de leite
30 g de azeite
60 g de farinha 
sal, pimenta e noz moscada

Queijo ralado para gratinar e orégãos secos.



Comecei por fazer a massa: juntei todos os ingredientes na Bimby e programei 2 minutos, velocidade espiga. Fiz uma bola, embrulhei-a em polícula aderente e deixei repousar 15 minutos, no frigorífico.
Coloquei os rolos da máquina na posição mais larga, dividi a massa ao meio e formei duas bolas. Polvilhei com farinha e espalmei-a com as mãos. Passei a massa pela máquina. Coloquei a tira de massa sobre a mesa e dobrei-a ao meio. Passei de novo a massa dobrada pelos rolos da máquina. Coloquei os rolos nos números seguintes e repeti o processo, até atingir a espessura desejada.
Num tacho, levei ao lume o alho francês, o azeite, o bacon e o funcho. Deixei cozinhar, mexendo de vez em quando. Temperei com sal e pimenta e reservei.
Numa frigideira grande, alourei os alhos no azeite. Juntei os cogumelos e deixei cozinhar. Temperei com sal, pimenta e folhinhas de tomilho e reservei.
Coloquei na Bimby todos os ingredientes para o molho béchamel e programei 8 minutos, 90 graus, velocidade 4 (Se não tiverem Bimby e o fizerem no tacho, devem mexer, até engrossar, para que não se formem grumos).

Montagem da lasanha:
No fundo de uma assadeira, pus metade do recheio 1, cobri com uma pequena porção de molho béchamel e cobri com uma placa de massa. Seguidamente, coloquei metade do recheio 2, mais molho e outra placa de massa. Repeti o processo mais duas vezes. Terminei com molho béchamel, polvilhei com queijo ralado e orégãos e levei ao forno a gratinar.

Com este post, participo no passatempo "Convidei para jantar...", criado pela Ana, e acolhido, este mês, pela Vera, que escolheu como tema a Música. 

domingo, 8 de julho de 2012

Fingimento


          Quando li sobre o tema deste mês do desafio “Convidei para jantar…” soube logo quem seria a mente brilhante que queria ter sentada à minha mesa. Com a mão a tremer, num misto de excitação e de nervosismo, redigi o convite.
 Quando abri a porta, reconheci-o imediatamente. Uma figura esguia, vestida de forma elegante, chapéu preto e sobretudo escuro, bigodinho bem aparado. Já em relação aos amigos, tive alguma dificuldade. Afinal, só lhes conhecemos a figura pelos desenhos que o seu criador fez.
Cumprimentei, calorosamente. Nem queria acreditar que estava em frente a Fernando Pessoa e aos seus heterónimos mais conhecidos. O senhor Bernardo Soares não veio convosco?, perguntei. Infelizmente, não. Tem andado um pouco desassossegado ultimamente. E está a escrever um livro. Mas agradece o convite.
Pedi-lhes que entrassem. Caeiro preferiu dar uma volta pelo jardim, antes do jantar. E se fôssemos todos?, sugeriu Reis. Fomos ver a horta, as ervas aromáticas, as hortênsias.


Caeiro deixava-se deslumbrar, cheirava as ervas, acariciava os vegetais. Parecia ter o pasmo essencial/ Que tem uma criança se, ao nascer,/ Reparasse que nascera deveras. Reis tentava aproveitar o momento, mas de forma mais contida. Parecia haver uma sombra que o impedia de usufruir de tudo, de forma plena. Vem sentar-te comigo, Ilídia, à beira da horta. Fiz-lhe a vontade. Pessoa e Campos observavam Caeiro, com um ar triste. Como se quisessem ser como ele e não pudessem. Caminhavam devagar, cabisbaixos, como se estivessem muito longe dali. Não posso estar em parte alguma, confessou-me Campos, mais tarde. Reparei no ar enternecido de Pessoa a observar o Manel a brincar. Pediu-me um papel. Escreveu um poema. Ofereceu-lho.

Quando as crianças brincam
E eu as ouço brincar,
Qualquer coisa em minha alma
Começa a se alegrar

E toda aquela infância
Que não tive me vem,
Numa onda de alegria
Que não foi de ninguém.

Se quem fui é enigma,
E quem serei visão,
Quem sou ao menos sinta
Isto no meu coração.

Entrámos. Servi vinho. Beberam bastante. Menos Reis, bem mais comedido. Durante o jantar, pouco falei. Deixei-me deslumbrar pelas conversas dos quatro. Pessoa e Campos, dois génios atormentados. Reis, com aquela felicidade triste que o caracteriza. Caeiro, alegre e espontâneo. Tão brilhantes, todos. Enquanto os via comer, com vontade, o prato de abrótea e verduras que lhes tinha preparado, só pensava em como gostaria que aquele tivesse sido um jantar a sério. Não apenas um fingimento, criado na minha imaginação.




ABRÓTEA GRELHADA COM ACELGAS SALTEADAS E BATATA DOCE FRITA
(Para 4 pessoas)

2 filetes de abrótea, grandes (frescos)
sumo de duas limas
pimenta rosa
azeite q.b.
flor de sal q.b.
folhinhas de orégãos q.b.
1 molho de acelgas (usei verdes e amarelas)
2 dentes de alho
sal, pimenta preta e noz moscada
2 batatas doces grandes

Temperei o peixe com o sumo de lima, a flor de sal e a pimenta rosa. Deixei-o repousar 1 hora. Findo este tempo, sequei-o, com papel absorvente. Aqueci um grelhador, com um pouco de azeite e grelhei o peixe, pincelando-o com azeite e folhinhas de orégãos.
Entretanto, descasquei as batatas doces, cortei-as em palitos e pu-las na actifry, com um pouco de azeite.
Cortei as acelgas grosseiramente, piquei os dentes de alho e levei-os ao lume, com um pouco de azeite. Juntei as acelgas, temperei com pimenta preta, moída na hora, sal e noz moscada.
Em cada prato, coloquei uma porção de acelgas, sobre estas, metade de um filete e, à volta, os palitos de batata doce.

Com este post, participo no desafio "Convidei para jantar...", criado pela Ana e recebido, este mês, no Reino da Prússia.

domingo, 20 de maio de 2012

Uma flor branca para um escritor tatuado

Tinha de ser ele o meu convidado. Por todas estas razões, não podia ser mais nenhum.
Quando o convidei, aceitou prontamente. Com a simplicidade e humildade que o caracterizam. Atrasou-se um pouco. Desculpe o atraso. Encontrei leitores, ficámos na conversa. Claro que ficaram. Ele é mesmo assim. Longe da imagem de escritor inacessível, que fica a escrever e a fumar cachimbo no alto do seu pedestal, José Luís Peixoto abraça os leitores. Ouve-os. Comove-se com eles. Dá-se. 
Ao vê-lo, todo vestido de preto, tatuagens e piercings, quase consegui adivinhar as conversas dos vizinhos, ao verem-no entrar:  Aquela casa está cada vez mais mal frequentada :)
Durante o jantar, conversámos muito. Falou-me sobre a infância em Galveias, sobre os filhos, sobre a época em que deu aulas. Nos gostos musicais, divergimos. Apesar de me considerar uma pessoa com gostos bastante ecléticos, metal pesado não faz parte da minha cultura musical. Ele, por sua vez, adora. Falou-me dos Moonspell e tentou fazer-me perceber a beleza da sua música. Não me convenceu. Curiosamente, pouco falámos dos seus livros. Falámos de livros de outros. Recordou a emoção que sentiu quando conheceu Saramago, depois de ganhar o prémio com o seu nome. Falámos da nova geração de escritores portugueses: Valter Hugo Mãe, Gonçalo M. Tavares, João Tordo... Elogiou-os. Genuinamente. Nem uma pontinha de competição, algo a que escritores de outras gerações nos habituaram. E ouviu-me. Quis conhecer-me. Muito longe do escritor que acha que só ele tem interesse. Enterneceu-se quando se apercebeu de que o Manel já conhece A mãe que chovia, a sua estreia na literatura infantil. 
Como sobremesa, servi-lhe uma flor de chocolate branco. Nada me pareceu mais adequado a José Luís Peixoto. Uma flor delicada, a contrastar com o negro do fundo. Se bem que, no caso dele, será mais o contrário: um fundo delicado, mascarado numa aparência negra.

Pudim de chocolate branco com cuajada
600 ml de leite
2 pacotes de cuajada
120 g de chocolate branco
1 pacote de açúcar baunilhado

Preparação (Bimby):
Colocar todos os ingredientes no copo da Bimby e programar 10 minutos, 90 graus, velocidade 3. Verter para a forma e levar ao frigorífico para solidificar.

Preparação tradicional (não testada):
Partir o chocolate em pedaços e levar ao lume (brando), juntamente com os restantes ingredientes, mexendo, até obter um creme homogéneo. Verter para a forma e levar ao frigorífico para solidificar.


Partilho convosco mais um dos seus textos sublimes. Daqueles escritos com o coração. Daqueles que nos deixam com um nó na garganta e a pensar que deve ser mesmo isto que se sente.

Desmantelamento de um rio
Arranco os autocolantes da parede do quarto do nosso filho,
como se a faca eléctrica da cozinha me atravessasse o braço.
Sou eu que apago os seus desenhos na parede. Não são riscos,
são desenhos. Há lápis de cera espalhados e partidos pelo chão.
Depois de nós, esta morada terá outros nomes e chegarão cartas
pacientes à caixa do correio. Agora, são impossíveis de imaginar,
como o nosso ontem será impossível de imaginar. Foi aos poucos
que ficou apenas o sofá e as recusas e os armários esventrados.
Foi muito demoradamente que chegaram as noites em que durmo
no sofá, sob um cobertor oferecido pela minha mãe ou pela tua.
Por fim, tenho tempo para habituar os olhos às sombras e avaliar
a devastação, acordar com o frio da madrugada, o esquecimento,
e assistir àquela hora azul em que já não é de noite, mas em que
ainda falta tanto para ser de dia. Despejo no fundo de um saco
tudo o que está naquela gaveta que nunca ninguém arrumou.
À minha volta, há caixotes que servem para guardar os livros,
já estão divididos. Escolho o lugar para pousar os pés. Fizemos
coisas nesta sala vazia, tivemos pensamentos, aprendemos
alfabetos. Resta-me agora o que sempre tive e, como se caísse
desamparado na banheira, prossigo e continuo o meu trabalho,
como se batesse com a cabeça na esquina de uma gaveta,
prossigo e continuo o meu trabalho.

       José Luís Peixoto, in Gaveta de Papéis

Com esta receita, participo em mais uma edição do passatempo "Convidei para jantar...", a decorrer, desta vez, no  blogue De cozinha em cozinha passando pela minha

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Uma Quiche Lorraine para o mestre do suspense

Desde manhã que os pássaros andavam diferentes. Para além de me parecerem em maior quantidade do que o habitual, estavam todos alinhados nos fios de eletricidade, com um ar ameaçador. 

                                                         Imagem retirada daqui

Acordara apreensiva, com uma sensação estranha. E aqueles pássaros pareciam estar a agoirar qualquer coisa. Oxalá este jantar corra bem, pensei. O meu marido não achou muita graça ao facto de ter uma personagem tão sombria em casa: Aquele homem causa-me arrepios. E sabes da fama dele com as mulheres. Respondi-lhe que não se preocupasse. Só as loiras corriam perigo.
Mal ouvi o toque da campainha, dirigi-me à porta. Através do vidro, pude perceber a silhueta inconfundível do meu convidado.

                                                Imagem retirada daqui 

Pedi-lhe que entrasse. Seguiu-me, em silêncio. Apesar de nervosa, eu estava fascinada por ter em casa o mestre do suspense, um dos realizadores mais importantes do século XX, de cujo trabalho sou uma admiradora fervorosa. Servi-lhe uma Quiche Lorraine, um dos pratos preferidos do homem que um dia declarou "I am not a heavy eater. I'm just heavy, and I eat".
Durante o jantar, falámos dos primeiros anos em Inglaterra, da mudança para os Estados Unidos, recordámos filmes, personagens, atores... Perguntou-me qual o meu filme preferido. Depois de uns segundos de reflexão, respondi:  A corda. Pareceu-me ter gostado da minha escolha. Em termos técnicos, foi dos mais difíceis de filmar. E muito inovador para a época, declarou, com orgulho. Entusiasmou-se quando falou de Grace Kelly. Quando mencionei Tippi Hedren, desconversou. Afinal o que se diz deve ser verdade, pensei.
No fim do jantar, mostrei-lhe a minha coleção de filmes e de livros sobre a sua obra. Pareceu-me impressionado e reconhecido.


O ar sombrio raramente o abandonou. Mesmo quando dizia uma piada, fazia-o num tom sinistro. E até quando me agradeceu o jantar, fê-lo com um sorriso ambíguo, difícil de decifrar.
Depois de nos despedirmos, pensei que nunca tivera um jantar tão estranho. E enquanto atravessava o corredor, em direção ao quarto, arrepiei-me. A sensação de que alguém me seguia. Vou tomar um duche, a ver se acalmo. Inexplicavelmente, decidi tomar um banho. Ainda bem. Talvez tenha sido a minha salvação.


Quiche Lorraine (sem crosta)

Ingredientes para 6 pessoas
- 3 ovos grandes
- 120 g de farinha de trigo
- 500 ml de leite
- 100 g de queijo ralado em fios (emmental, gruyère...)
- 100 g de fiambre cortado em cubos pequenos
- 100 g de bacon cortado em palitos finos
- pimenta preta moída no momento

Preparação

Pré-aquecer o forno a 180ºC. Forrar uma tarteira com papel vegetal e reservar.

Numa tigela grande, misturar muito bem os ovos e a farinha com o auxílio de uma vara de arames. Juntar o leite aos poucos, mexendo constantemente.

Temperar com pimenta. Adicionar o queijo ralado, o fiambre e o bacon. Misturar novamente.

Espalhar o preparado na tarteira e levar ao forno por 40 minutos, a 180ºC.

Retirar a quiche do forno. Deixar repousar por 10 minutos antes de desenformar e fatiar. Servir a quiche quente, morna ou fria. Acompanhar com salada mista.

Fonte: http://elvirabistrot.blogspot.pt/2009/04/quiche-lorraine-sem-crosta.html

Com esta receita, participo na 4ª edição do passatempo "Convidei para jantar...", promovido pela Ana, a decorrer, este mês, no  blogue Menu Verde

sexta-feira, 23 de março de 2012

Um lombo fingido para um jantar a fingir

Reconheci-os logo. Nem queria acreditar que estava em frente a D'Artagnan e aos seus amigos Mosqueteiros. Na versão canina, é certo, mas eram eles, os meus heróis. 
Mal abri a porta, desmontaram imediatamente dos cavalos e tiraram os chapéus, fazendo uma vénia. Pareceram-me um tanto ou quanto fora de moda, com as suas capas, chapéus emplumados e espadas à cintura. 
Dartacão apresentou-se e os amigos seguiram-no:
- Eu sou o Athos.
- Eu chamo-me Porthos.
- E eu sou o Aramis.
Após as apresentações, perguntaram-me se lhes podia indicar uma estalagem onde pudessem passar a noite. Depois de refletir uns segundos, sugeri-lhes que entrassem:
- Tenho muito gosto em oferecer-vos jantar e estadia.
- Minha senhora, não queremos incomodar. - disse Athos, cerimonioso.
- Não incomodam nada - respondi-lhes - é um prazer receber-vos. Não fazem ideia dos momentos felizes que já me proporcionaram, durante a minha infância. E, na adolescência, os vossos alter egos, quando li o romance de Dumas. É o mínimo que posso fazer para vos agradecer.
- Nesse caso, aceitamos. 
À entrada, depositaram as espadas. E entregaram-me os chapéus e as capas. Sugeri-lhes que tomassem um banho antes do jantar: 
- Só não vos posso emprestar roupa, pois o estilo do meu marido é ligeiramente diferente do vosso :)
Enquanto tomavam banho, improvisei um jantar. Visto os meus convidados pertencerem à espécie canina, peixe estava fora de questão. Decidi-me por um lombo fingido, com o cheirinho do chouriço. Os cães ficam malucos com chouriço:)
Apareceram ao pé de mim com o pelo ainda molhado. Ofereci-lhes um secador, mas recusaram:
- Apesar de não parecermos, somos cães. Não usamos essas coisas.
 Enquanto a carne estava no forno, ofereci-lhes um aperitivo. Um não, vários. Como podem imaginar, foi um jantar bem animado:)
Durante o jantar, foram-me contando as suas aventuras ao serviço do rei. Gostei especialmente das que envolviam o malvado cardeal Richelieu e a traiçoeira Milady. Ao pronunciar o nome Julieta, os olhinhos de Dartacão brilharam. Os companheiros, já embalados pelo vinho, gozaram-no:
- Julieta... ai...ai...
Sob a pelagem do seu focinho, consegui perceber um rubor. 
No fim do jantar, agradeceram-me e pediram licença para se retirarem:
-  Estamos cansados. E amanhã esperam-nos novas aventuras.
Minutos depois, enquanto arrumava a cozinha, ouvi, vindo do piso de cima: Um por todos e todos por um!




Lombo fingido


Ingredientes:
750 g de carne moída
150 g de chouriço, moído
1 pão embebido em leite
1 cebola
3 dentes de alho
4 colheres de sopa de azeite
1/2 dl de vinho branco
4 ovos
pão ralado q.b.

Pica-se os alhos e a cebola e levam-se a refogar, com o azeite. Acrescenta-se o vinho e deixa-se cozinhar.
Numa tigela, mistura-se o pão, a carne, o chouriço, os ovos, ligeiramente batidos, e o refogado. Tempera-se com sal e pimenta.
Molda-se a carne como se fosse uma peça do lombo e envolve-se em pão ralado. Rega-se com um fio de azeite e refresca-se com mais um pouco de vinho branco. Leva-se ao forno, a 180 graus, numa assadeira, até estar com um aspeto dourado.

Servi com puré de batata e espinafres salteados. Os meus convidados comeram só a carne, claro :)


Com esta receita, participo na 3ª edição do passatempo "Convidei para jantar...", a decorrer, desta vez, no  blogue Suvelle Cuisine. Obrigada, Su e Ana. Tenho-me divertido tanto a criar estes jantares :)

terça-feira, 13 de março de 2012

Uma refeição minimalista para um convidado especial

Abri o Diário Insular. Encontro Internacional de Gastronomia, no Centro Cultural e de Congressos de Angra do Heroísmo. Comecei a ler a notícia. Entre chefs e críticos nacionais e internacionais, li o nome dele. E, qual adolescente que sabe que vem à terra a sua banda preferida, pensei: Tenho de o conhecer
Confesso que estava nervosa. Não é todos os dias que convidamos um autor e food writer do New York Times para almoçar. Porém, os nervos dissiparam-se mal abri a porta. Sorriu-me de forma simpática e afetuosa. Chegou cedo, vestido de forma informal. Cumprimentou-me com tamanho à-vontade que tive a sensação de já nos conhecermos.
Seguiu-me até à cozinha, onde lhe servi um vinho do Pico e queijo de S. Jorge. Elogiou ambos. E repetiu. A conversa foi fluindo. Elogiou as paisagens açorianas e falou-me da sua vida em Nova Iorque. Saltámos de assunto em assunto. Acabámos a falar de comida. Falei-lhe das açordas da minha mãe e de como me faziam lembrar o seu Boiled Water. E ficou feliz por saber que o seu Meatloaf é muito apreciado cá em casa.
Finalmente, o peixe ficou pronto. Fomos para a mesa. Servi-lhe um Caldo de peixe à moda do Pico. Afinal, o prato não podia ser muito complicado. Tinha de ser minimalista. Não é essa a imagem de marca do senhor Mark Bittman?
Esta receita foi trazida do Pico, nos anos 40 do século passado, pelo meu avô paterno, natural da ilha-montanha. Comi muitos, feitos por ele, que, apesar de ter nascido numa época em que os homens raramente se aproximavam da cozinha, cozinhava. E bem. A receita de caldo de peixe tem sofrido muitas alterações ao longo dos anos. Já comi várias versões, muitas delas, com polpa de tomate. Esta é uma versão muito depurada, pois o meu avô fê-la sempre como aprendeu, no "seu" Pico. Segundo ele, os "jovens" estavam a adulterá-la, incluindo ingredientes novos. Ele sempre fez como a mãe lhe ensinara. E nós, sempre gostámos. E continuamos a fazê-la assim, como ele fazia.
O meu convidado achou curioso o facto de se beber o caldo em que o peixe é cozido, numa tigela. E deliciou-se com o peixe fresco do nosso mar, regado com o molho cru.
A sobremesa foi ananás de São Miguel. Também minimalista.

Caldo de peixe à moda do Pico
Ingredientes para o caldo:
1 cabeça de alho grande
2 cebolas, cortadas em meias luas
1 folha de louro
4 bolinhas de pimenta da Jamaica
4 colheres de sopa de azeite
1 ramo de salsa
1 colher de sopa de sal
2,5 l de água
6 peixes, de preferência variados (ex: cântaro, boca-negra, garoupa, goraz, bodião vermelho...)

Ingredientes para o molho cru:
1 ramo de salsa (grande)
3 colheres de sopa de vinagre branco
5 colheres de sopa de água (se necessário, acrescentar mais um pouco)
1 cabeça de alho
1 colher de café de sal

Preparação:
Tempere o peixe com sal e reserve.


Numa panela grande, coloquei todos os ingredientes para o caldo, exceto os peixes. Deixei ferver mais ou menos 1/2 hora. Juntei o peixe e deixei cozer.
Entretanto, fiz o molho cru: Coloquei todos os ingredientes num robot de cozinha ou na Bimby e triturei, até obter um molho fluído. Se o achar muito espesso, acrescente água. Tradicionalmente, o molho era feito num almofariz. Tentei fazer segundo este método, mas é, realmente, um processo difícil. Pus tudo na Bimby e em segundos estava o molho pronto :)

Numa travessa, dispus o peixe. Sobre este, o meu avô costumava pôr a cebola e a salsa cozidas e eu imitei-o (esta receita, por ser do meu avô por ser um pouco a história dele, é quase sagrada. Não consigo fazer nenhum tipo de alteração. Faço-a religiosamente, tal como ele a fazia.). Acompanhei com batatas cozidas. Reguei ambos com o molho cru. Coei o caldo de cozer o peixe, coloquei numa tigela e servi, a acompanhar a refeição. Tradicionalmente, bebia-se apenas o caldo, no entanto, acompanho também com  vinho branco. Servi Frei Gigante, também da ilha do Pico.

Com esta receita participo no passatempo "Convidei para jantar...", promovido pela Ana e acolhido, este mês, pela Suzana.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Um convidado muito chic


Tocam à campainha. Deve ser o meu convidado. Abro a porta e encontro-o, no seu colete branco e relógio de ouro, cabelinho impecável e ridiculamente penteado. Também o bigodinho foi moldado com brio. Nas mãos, um ramo de rosas. Demasiado grande, com uns salpicos dourados e um laço vistoso, também cor de ouro. 
Tudo no Dâmaso grita opulência e mau gosto. O meu marido cumprimenta-o, contrariado.
- Vais convidar esse tipo? É um pedante. Convida antes o Ega. Esse ao menos é divertido.– discordou, quando lhe falei do jantar, uns dias antes. Respondi-lhe que até achava graça ao Dâmaso e que pretendia ensinar-lhe uma lição. Vai ser divertido, vais ver.
Sabendo do desprezo que o Dâmaso tem por tudo o que é português, achei que seria engraçado pregar-lhe uma partida.
Quando viu o prato que lhe servi, olhou-o com curiosidade e desconfiança:
- Que prato tão interessante...
- É uma novidade francesa. Está a fazer furor nos melhores restaurantes parisienses. Chama-se Croque-Monsieur au velouté lusitanien. Não conhece, Dâmaso?
Olhou-me, impressionado pelo título em francês e envergonhado pela sua ignorância.
- Creio… creio que já ouvi falar. Muito chic!
Consegui perceber um rubor a formar-se nas faces rechonchudas. Troquei um olhar cúmplice com o meu marido. O nosso convidado não percebeu, felizmente.
Para acompanhar a refeição, servi cerveja. Olhou-me de soslaio ao aperceber-se da falta de nobreza da bebida. Ao notar, porém, que se tratava de uma marca alemã, mudou imediatamente de atitude, enveredando por uma conversa acerca das qualidades do povo alemão e da superioridade civilizacional deste em relação ao português. O que ele não imaginava é que estava a beber a genuína cerveja lusa, que poderia encontrar em qualquer humilde taberna.
No fim, elogiou o jantar, a finesse da ementa:
- É uma pena, mas em Portugal nunca se inventarão pratos deste nível.
Com o meu ar mais sério, concordei e despedi-me. Olhei para o meu marido e sorri.
Consigo imaginar o Dâmaso a comentar, com os seus amigos burgueses:
- Vim agora de casa de uma gente muito chic. E comi um prato muito requintado, francês, cuja receita a dona da casa trouxe de Paris. Chic a valer!

Quando li sobre o desafio da Ana, pensei logo no Dâmaso, uma das personagens mais divertidas da literatura portuguesa. O Dâmaso, que continua tão atual. Pensei nos muitos Dâmasos deste país a quem me apetecia pregar partidas. Hoje em dia, esta não funcionaria, pois já toda a gente conhece a famosa francesinha. Mas o princípio seria o mesmo.

Francesinhas
(Receita do meu marido, nortenho)

Ingredientes para cada francesinha:
3 fatias de pão de forma
1 bife de porco
2 salsichas ou linguiças (daquelas muito fininhas)
2 fatias de chourição
1 fatia de fiambre
2 fatias de queijo(flamengo, por exemplo)
1 ovo estrelado (opcional) – não costumo pôr, acho que já há proteína que chegue, não vos parece?

Ingredientes para o molho – para 6 francesinhas bem regadas (e algum molho de reserva na molheira):
½ litro de água
100 g de polpa de tomate
50 g de manteiga
Piri-piri (a quantidade depende do gosto e resistência de cada um)
2 cervejas de 25 cl
1 caldo de galinha
Sal a gosto
50 g de amido de milho (maizena)

Preparação do molho (Método tradicional):
Num tacho, mistura-se todos os ingredientes, exceto o amido de milho. Vai-se mexendo, em lume brando, com cuidado para não pegar. Quando ferver, adiciona-se o amido de milho, diluído num pouco de água (apenas o suficiente para diluir bem – 5 a 6 colheres). Vai-se mexendo sempre, até engrossar (este processo demora bastante tempo, por isso algumas receitas levam sopa de rabo de boi, para ajudar a engrossar. No entanto, na minha opinião, o sabor desta sopa de pacote adultera completamente o sabor do molho).
Dica: Caso seja necessário, passar a varinha mágica, para desfazer eventuais grumos e deixar o molho homogéneo.

Preparação do molho (Na Bimby):
Colocar no copo todos os ingredientes, exceto o amido de milho, e programar 20 minutos, 100 graus, velocidade 1. Adicionar o amido de milho, diluído num pouco de água (apenas o suficiente para diluir bem – 5 a 6 colheres). Programar mais 5 minutos, à mesma temperatura e velocidade. Se for necessário, programar mais algum tempo, até que engrosse. No fim, programar 30 segundos, velocidade 7.

Montagem da francesinha:
Grelhar os bifes, previamente temperados com alho, sal, um pouco de vinho branco e pimenta, as salsichas, cortadas a meio, e as fatias de chourição, apenas até adquirirem um aspeto “enrugadinho”.
Colocar num tabuleiro 1 fatia de pão por pessoa, sobre cada uma, colocar um bife e uma fatia de fiambre, outra fatia de pão, as salsichas e uma fatia de chourição. Cobrir com uma última fatia de pão e duas fatias de queijo.
Regar generosamente com molho. Levar ao forno até que o queijo esteja derretido.
Transferir para um prato e servir, simples ou acompanhadas com batatas.

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