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domingo, 4 de novembro de 2018

A Galiza. Os furanchos. E uma receita grega.

Para um açoriano, a fronteira é o mar. Só o mar. Falamos de fronteiras terrestres na escola, tal como falamos de rios e de outras coisas que nunca vimos. Para uma criança açoriana que nunca saiu da ilha, as fronteiras terrestres são uma abstração difícil de imaginar. Pelo menos eram, que hoje em dia, felizmente, muitas das nossas crianças já sairam de território português. 
Para um continental, atravessar a fronteira não traz grande novidade. Já para um ilhéu traz um bocadinho de impossível. Para quem vive rodeado de mar, visitar outro país de carro tem sempre um sabor a magia. Nas ilhas, não há autoestradas com placas a anunciar São Miguel ou Graciosa ou Flores. Por mais perto que estejamos, há uma barreira enorme que nos separa. Uma fronteira intransponível. Para a passarmos precisamos de planeamento, de ajuda, de transportes que não são os de todos os dias. Por isso, ainda hoje, quando vejo uma placa a anunciar PORTUGAL ou ESPANHA todo o meu ser ilhéu emerge. Sinto que atravessei um bocadinho de globo. Acho que é daquelas coisas que um continental jamais compreenderá. É estranha, a sensação de estarmos em território português, com gente portuguesa, que fala português, passar um rio e ver gente parecida, mas ler placas em galego e ver pessoas, que podiam ser portuguesas, a falar uma língua que parece a nossa mas não é bem.
Passei uma semana em Pontevedra. E conheci melhor esta região de gente calorosa, que tem muito em comum connosco. Muito mais do que a língua e a literatura que nos unem. Olhamos para as pessoas na rua e julgamos estar em Portugal. 
Pontevedra é uma cidade fresca, com uma atmosfera feliz. Muita água e muita gente. Muitas pessoas a pé, que no centro histórico os carros não são bem-vindos. O meio de transporte é as nossas pernas. E há até mapas que nos indicam quanto tempo levamos para chegar aos lugares. As casas de granito não diferem muito das do nosso Norte. Em Pontevedra (e noutros lugares da Galiza, como Santiago ou Cambados, por exemplo) são adornadas com galerias (marquises?) lindíssimas. Aquilo que normalmente associamos a algo sem graça, meramente utilitário, na Galiza tem um estatuto próprio que, ao invés de desfear, acrescenta beleza.

O gosto dos galegos pela comida é semelhante ao nosso, apesar de muitas das iguarias serem impossíveis de encontrar por cá. As vieiras,  por exemplo, símbolo das peregrinações a Santiago de Compostela. As melhores foram-me servidas num furancho, um conceito que desconhecia, mas que achei absolutamente delicioso. Na Galiza, terra de vinho Albariño, há pessoas que, aos fins de semana, abrem as portas das suas casas e vendem o excedente do vinho que produzem, acompanhado por tapas que elas próprias preparam. Comida caseira, autêntica, regada por vinho sem rótulo, feito com as uvas das redondezas. No furancho que visitei, serviram-nos vieiras, polvo, mexilhões, tortilla, cabrito assado e vinho Albariño, como não podia deixar de ser. Cantaram-se músicas tradicionais e as pessoas das mesas do lado juntaram-se a nós, curiosas com a nossa diversidade. Daquelas experiências que só se têm mesmo pela mão dos locais, parece-me. 


Da Galiza trouxe também livros, como não podia deixar de ser. Estou a ler Que me queres, amor? de Manuel Rivas, um dos escritores maiores daquela região. Comprei-o atraída por um excerto que vi do filme A Língua das Mariposas, adaptado do conto "A lingua das bolboretas", que conta a história de amizade entre um discípulo e o seu mestre, abalada pela guerra civil. Recomendo, ainda que não haja tradução para português. Todos os contos que já li são belíssimos e não é difícil ler em galego. Dá um bocadinho mais de trabalho, mas o esforço vale a pena.
Deixo o trailer do filme, que pretendo ver muito em breve.




A receita que vos trago não é galega (qualquer dia há de aparecer alguma), pois pouco cozinhei desde o meu regresso. É uma receita grega, que já fiz inúmeras vezes. Publicá-la nesta altura pode ser considerado uma heresia. Pimentos e tomates são frutos estivais. E, não obstante o nosso outono estar bem mais ameno do que o normal, há muito que o calendário anunciou o fim da estação do sol e dos banhos de mar. 
Na Galiza, entrei em várias frutarias, à procura dos característicos pimentos padrón (os tais que unos pican y outros non). Nenhuma tinha. Não é a época, diziam-me invariavelmente. Há um respeito muito grande pelas estações. E saquinhos de pimentos com ar artificial como os que vemos nas nossas grandes superfícies não se encontram na Galiza. Tampouco os encontramos em restaurantes nesta altura. Tal como na Grécia não encontramos a típica salada grega a não ser no verão. Se os tomates não estiverem no ponto, doces e vermelhos e sumarentos, mais vale não os usar. 
Ainda assim, arrisco a partilhar esta receita. Uma vez que os tomates e os pimentos são usados mais como recipiente, não creio que a receita perca muito por a fazermos na estação errada. Ainda assim, caso queiram respeitar este preceito, podem guardá-la e testá-la no próximo verão. A minha versão mistura diferentes aspetos das várias receitas que vi. Encontrei versões vegetarianas, com e sem queijo, com carne de vaca, de borrego e com atum. Preferi uma versão sem carne, com feta e passas. Podem ser utilizadas várias ervas diferentes. Usei endro seco, uma erva de que gosto muito e que acho que fica especialmente bem aqui. 

        Pimentos e tomates recheados
(Gemista)


Ingredientes para duas pessoas:
2 tomates grandes 
2 pimentos (evito os verdes, por serem mais difíceis de digerir)
1 cebola média
2 batatas grandes
1 batata doce (opcional - nunca vi na Grécia, mas gosto muito)
2 dentes de alho
3 colheres de sopa de azeite
150 g de arroz
1 dl de vinho branco
1 colher de chá de endro seco (ou orégãos, na falta deste) + um pouco para polvilhar as batatas 
2 dl de água
sal e pimenta a gosto
passas (ou pinhões) e queijo feta (opcional)

Preparação:
Arranjar os tomates e os pimentos: cortar uma tampa em cada um e remover o interior; reservar o interior do tomate e descartar o do pimento. 
Fazer um refogado com a cebola, o alho e o azeite. Juntar a polpa do tomate e o vinho branco. Deixar apurar 5 minutos, em lume brando. Acrescentar o arroz, o endro e 2 dl de água. Deixar cozinhar 10 minutos, em lume brando (o arroz não ficará totalmente cozinhado, mas não há problema, pois o processo de cozedura terminará no forno). Retificar os temperos e juntar o queijo feta e as passas. Rechear os tomates e os pimentos com esta mistura (não deverão ficar totalmente cheios, pois o arroz incha no forno) e colocar a tampa.
Regar uma assadeira com um fio de azeite, colocar os tomates e os pimentos e, à volta destes, dispor as batatas e as batatas doces. Temperar as batatas com sal, pimenta e endro e regar tudo com um fio de azeite. Levar ao forno a 200 graus durante 35 a 40 minutos.


Desejo-vos uma boa semana!


quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Regresso e uma espécie de esparregado

Como se volta a uma casa fechada, com pó e lençóis a cobrir os móveis, volto aqui. Acredito que, nos primeiros dias, alguém terá batido à porta. Cansados de silêncio, terão desistido. E a casa ficou à espera, fechada. Hoje é dia de abrir janelas, sacudir tapetes, limpar o pó. Será para ficar? Não sei. Veremos.



Espinafres cremosos com ricotta e noz moscada
(Receita ligeiramente adaptada de Nigellissima, de Nigella Lawson)

Ingredientes para três pessoas:
manteiga para untar (usei spray de cozinha)
1 colher de sopa de azeite
1 dente de alho, descascado e ligeiramente esmagado, com o cabo da faca
300 g de folhas de espinafre, lavadas e secas
2 colheres de sopa de vinho branco ou vermute (usei Marsala)
3 colheres de sopa de parmesão ralado
2 colheres de sopa de ricotta
pimenta preta, noz moscada e sal, a gosto
2 ovos batidos 


Preaquecer o forno a 200 graus e untar uma assadeira com manteiga ou spray de cozinha. 
Num wok ou numa panela larga, aquecer o azeite com o dente de alho, até este alourar ligeiramente. Juntar os espinafres e mexê-los, em lume brando, empurrando-os com a colher (apesar de parecerem muito volumosos, diminuem bastante depois de cozinhados). Aumentar o lume, deitar o vinho e mexer suavemente até os espinafres terem murchado (cerca de 30 segundos).
Retirar do lume, juntar o parmesão e o ricotta e temperar a gosto.
Juntar os ovos, misturar bem no preparado e verter tudo para a assadeira. Levar ao forno 15 minutos (na receita original, recomenda-se 10, mas achei pouco), deixar repousar mais 5 e servir.

Estes espinafres acompanharam bife da vazia grelhado e ovo estrelado, uma das refeições preferidas dos meus rapazes.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

A minha horta. E flores de comer.

A horta é a minha musa. Depois de dias longe dela e do blogue, basta pôr as mãos na terra, volta a vontade de tudo. Arranco a primeira daninha e não consigo parar. Continuo. Só mais uma. E outra. E aquela ali, tão grande. E a grama, que ameaça dominar tudo. E um pé de junça que se encostou ao alho francês. Não posso deixar que se aproveite dele. E vou trabalhando, sem luvas. Mesmo de vestido. Afinal, era só uma visita rápida, depois do jantar. Mas é um vício. Colho duas curgetes e um alho francês. E mais uma alface. Chego a casa e exponho as novidades na bancada da cozinha. As minhas curgetes brilhantes, bem diferentes das do supermercado. Limpo a terra das unhas e hidrato as mãos. E penso que da próxima levarei luvas. Mas sei que continuarei a meter as mãos na terra, pois é assim que me sabe melhor.
E, subitamente, a vontade de vir aqui emerge. Uma necessidade de partilhar imagens daquilo que começo a colher. E do início do jantar de hoje, com sabores bem de verão. Mesmo que seja um verão com mau feitio como o nosso. Este ano, o verão tem passado ao largo dos Açores. Parece ter-nos abandonado, aqui, bem no meio do oceano. O que vale é que pelo menos a minha horta está feliz. E eu também, que a felicidade dela é a minha.




Flores de curgete recheadas
 com requeijão e queijo da ilha



Ingredientes:
Recheio:
10 flores de curgete (era o que havia, mas a quantidade de recheio chega para 12) - colher apenas os machos
1 requeijão (170 g)
2 colheres de sopa de queijo da ilha ralado
1 colher de sopa de manjericão picado
1 ovo batido
sal e pimenta

Polme:
3 colheres de sopa (bem cheias) de farinha
1/2 cerveja mini
óleo para fritar






Preparação:
Começar por misturar todos os ingredientes para o recheio e colocá-lo num saco de pasteleiro ou num saco com a ponta cortada.
Limpar as flores da curgete e retirar-lhes os estames. Abri-las e recheá-las, retorcendo as pontas.
Misturar a farinha e a cerveja (ajustar as quantidades, se necessário).
Passar as flores pelo polme, escorrendo bem, e fritá-las no óleo bem quente.
Servir como entrada, com salada verde e um copo de vinho branco.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Uma boa companhia: repolho salteado com salsa e cajus

Este repolho foi o acompanhamento do entrecosto do post anterior. Tem sido uma receita muito repetida cá por casa. Uma receita que mostra que os vegetais não têm de ser monótonos. E que as receitas fáceis podem ser saborosas.


Ingredientes:
1/2 repolho
4 dentes de alho, picados
4 colheres de sopa de azeite
1 ramo de salsa, picada
1 punhado de cajus
sal, pimenta preta e noz moscada

Cortar o repolho em tiras. 
Num wok ou frigideira grande, fritar ligeiramente os alhos no azeite. Juntar o repolho, cortado em tiras finas. Temperar com sal, pimenta preta e noz moscada, tapar e deixar cozinhar em lume brando, até o repolho amolecer. Juntar a salsa, envolver e deixar mais 1 ou 2 minutos. 
Entretanto, tostar os cajus. 
Servir o repolho salpicado com os cajus.


sábado, 7 de novembro de 2015

Um bolo no forno


O bolo no forno é o fim de semana que começa. Tem sempre um significado especial, aquele bolo de sexta ou sábado. Anuncia momentos de descanso, sem a correria dos dias ditos úteis. Há, portanto, muita utilidade num bolo no forno. Só a ideia de um bolo no forno apazigua. Esta semana, precisava mesmo deste bolo no forno. Mais do que o comer (às vezes, só os provo, que não sou muito de comer bolos), é mesmo fazê-lo, acender o forno e vigiá-lo que me faz bem.
O bolo deste fim de semana foi feito com as cenouras que eu e o Manel escolhemos esta amanhã na Bioazórica. A receita é da Helena, uma vegetariana com muito talento para a cozinha, que dinamiza comigo um clube de culinária na nossa escola. Qualquer dia falo um bocadinho deste novo projeto que me está a apaixonar. É um daqueles bolos mesmo fáceis, de misturar tudo e pôr na forma. E tem um pormenor importantíssimo: uma cor linda :)

Bolo de cenoura


Ingredientes:
3 cenouras grandes
2 chávenas de açúcar
1/2 chávena de óleo
1 pitada de sal
1 colher de sopa de fermento para bolos
1 chávena de água
3 chávenas de farinha de trigo

Preparação:
Aquecer o forno a 180 graus.
Colocar todos os ingredientes no liquidificador,  menos a farinha. Triturar. Verter a massa para uma tigela e misturar a farinha, sem bater.
Forrar uma forma com papel vegetal (usei uma de bolo inglês, mas podem usar uma redonda, sem buraco) e levar o bolo ao forno, cerca de 35 minutos (fazer o teste do palito).
Quando o bolo estiver quase cozido, fazer a cobertura: numa panela pequena, misturar 6 colheres de sopa de açúcar, 3 de chocolate em pó, uma de creme vegetal (se não fizerem, como eu, questão que o bolo seja vegan, podem usar manteiga) e 2 de água.
Com um garfo, perfurar o bolo e cobrir com o creme de chocolate.




sábado, 30 de agosto de 2014

Beringelas

O texto de hoje poderia ser igual a esteapenas substituindo courgettes por beringelas. Os sentimentos são semelhantes, embora ainda ache as beringelas mais encantadoras.
As beringelas são daqueles legumes que têm tudo: são bonitas, saborosas, nutritivas e pouco calóricas. 
Este ano, cultivei-as pela primeira vez. Encomendei uma mistura de sementes. Semeei-as e cuidei delas, com carinho. Todos os dias as punha ao sol, de manhã, e as recolhia, ao final da tarde. Quando chegou a altura, transplantei-as. Apesar de tudo, devido à sementeira tardia, as esperanças de ter beringelas este ano eram poucas. 
Quando cheguei de férias, na primeira visita à horta, vi a primeira, quase no ponto. Esperei pacientemente até que estivesse pronta. Usei-a nesta receita, juntamente com uma da horta da minha cunhada. E agora há mais, pequeninas. De três espécies diferentes. Duas delas, apenas decorativas, pelo que percebi. Um dia destes, hão de aparecer por aqui a enfeitar uma mesa.




Esparguete com beringelas - Pasta alla norma
(Ligeiramente adaptado de Jamie's Italy, de Jamie Oliver)


Ingredientes para duas pessoas:
1 beringela grande (usei duas, pequenas)
azeite virgem extra
1/2 colher (de sopa) de orégãos secos
1/2 malagueta, picada
4 dentes de alho, descascados e cortados em rodelas finas
1 raminho de manjericão (os talos picados e as folhas reservadas)
1/2 colher de chá de vinagre de vinho branco
1 lata de tomate pelado (400 g)
200 g de esparguete
75 g de requejião


Preparação:
Cortar as beringelas em quartos, no sentido longitudinal. Depois, cortá-las em fatias da largura de um dedo.
Numa frigideira larga, não aderente, com um pouco de azeite, fritar os pedaços de beringela, até que fiquem dourados de todos os lados, e polvilhá-los com um pouco de orégãos. Juntar a malagueta, um pouco de azeite, o alho e os caules de manjericão. Mexer, em lume brando, 3-4 minutos, juntar o vinagre e o tomate pelado (mais ou menos picado, conforme o gosto). Deixar cozinhar, em lume brando, 10 a 15 minutos, e temperar com sal e pimenta. Juntar ao molho metade das folhas de manjericão e mexer. 
Cozer o esparguete, segundo as instruções do pacote. Quando estiver al dente, escorrer a água (reservar um pouco) e levar de novo ao lume. Juntar o molho e a água reservada e mexer um pouco, sobre o lume. Retificar os temperos. Dividir por dois pratos e finalizar com requeijão esfarelado e folhas de manjericão. 




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O Acre e Doce é um blogue que celebra a vida de casa, principalmente os momentos passados à volta da mesa. É um blogue de coisas que nos fazem felizes, sejam uma refeição, um filme, um livro ou um ramo de flores frescas.