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segunda-feira, 27 de junho de 2016

A minha horta. E um gratinado de frango.

Ter uma horta é assumir um compromisso. Tomada a decisão, a opção é só uma: cuidar. Mesmo que as viagens, as festas e os afazeres diários a deixem meia abandonada, ela está lá. E o remorso também. As cenouras, semeadas com tanto carinho, são abafadas pela junça, pelas beldroegas e outras plantas que se encostam a elas, roubando-lhes o precioso alimento. Os tomateiros tombam, com falta de suporte. 
Ando há dias a recuperar os efeitos de dias de descuido. Na verdade, não foi bem descuido. Foi mesmo falta de tempo. Agora, tenho recuperado as horas perdidas. Ando um nadinha obcecada até, diz-me a família. Chego a ficar na terra até anoitecer, até me doerem as costas. Mas sabem-me bem aquelas horas de silêncio. No fim, colho flores, para enfeitar a casa. Já limpa e hidratada, faço o jantar. Ainda não com as coisas da minha terra, mas não há de faltar muito. Parece que ganharam vida, depois dos cuidados dos últimos dias. As alfaces estão redondas. Um dia destes colho a primeira. O alho francês está robusto. Os tomateiros já têm flor. Olho para a minha horta e sinto orgulho.  Podemos fazer muitas coisas importantes. Mas poucas me fazem feliz como pôr uma semente na terra e cuidar dela até que dê fruto. No sentido metafórico e neste, bem literal.
















Este foi o jantar de hoje. Um gratinado bem reconfortante. Dos pratos preferidos do Manel. A receita original, de um livro da Bimby, já foi muito modificada. Substituí o peru pelo frango e eliminei as natas. E ficou boa na mesma, dizem-me os rapazes. Fi-la no tacho, que depois de uma tarde de horta, apeteceu-me mexer nos legumes com as mãos. Deixo as duas versões.


Gratinado de frango
Ingredientes:
150 g de cebola
50 g de cebola de rama (ou spring onions)
2 dentes de alho
2 cenouras médias
1 raminho de salsa
5 colheres de sopa de azeite
150 g de cogumelos frescos (usei portobello)
500 g de bifes de frango (ou peru)
1 colher de sopa de mostarda
sal e pimenta a gosto
300 g de batata palha
150 g de queijo ralado (usei uma mistura de 4 queijos)
600 g de molho béchamel

Para o molho béchamel:
600 g de leite
60 g de farinha de trigo
30 g de manteiga
sal, pimenta e noz moscada a gosto


Preparação tradicional:
Picar a cebola, a cebola de rama, os alhos e a salsa. Ralar a cenoura grosseiramente. Num tacho largo, levar tudo a refogar com o azeite, em lume brando, cerca de 10 minutos. Juntar os bifes, cortados às tiras, a mostarda, o sal e a pimenta e deixar cozinhar mais 10 minutos, com o tacho tapado, mexendo de vez em quando.
Num pirex, colocar a batata palha, deitar o preparado e envolver.
Para preparar o béchamel, derreter a manteiga num tacho. Juntar a farinha e mexer, com uma vara de arames, até esta estar cozida. Misturar o leite, aos poucos, mexendo sempre com a vara de arames, para que não se formem grumos. Temperar com sal, pimenta e noz moscada e continuar a mexer, até obter um creme. 
Deitar o molho por cima do preparado e envolver tudo muito bem. Polvilhar com queijo ralado e levar ao forno a 180 graus durante cerca de 15 minutos para gratinar.

Preparação na Bimby:
Colocar no copo a cebola, a cebola de rama, os alhos, as cenouras, a salsa, o azeite e picar 10 segundos/ velocidade 5. Adicionar os cogumelos e picar 2 segundos/ velocidade 5. De seguida, programar 7 minutos/ 100 graus/ velocidade 1. Juntar os bifes, cortados às tiras, a mostarda, o sal e a pimenta e programar 10 minutos/ 100 graus/ velocidade colher inversa. 
Num pirex, colocar a batata palha, deitar o preparado e envolver. 
Preparar o béchamel, conforme a receita do Livro Base. Deitá-lo por cima do preparado e envolver tudo muito bem. Polvilhar com queijo ralado e levar ao forno a 180 graus durante cerca de 15 minutos para gratinar.






domingo, 21 de fevereiro de 2016

Uma receita de frango para dias felizes

Ser feliz tem muito de racional. Por mais paradoxal que a afirmação possa parecer, penso nela muitas vezes. Principalmente durante a semana e os dias intermináveis de trabalho. No fim de um dia cheio, feito de coisas nem sempre agradáveis, a felicidade tem de ser buscada. As pequenas coisas de todos os dias, as tais, que nos fazem felizes, facilmente se diluem no meio da névoa que se vai formando ao longo das horas. Nestes dias, é preciso saber o que deixar à porta e desfrutar do que é importante. E dar tempo às coisas aparentemente sem importância. As coisas sem importância têm mais importância do que pensamos. São elas que nos mantêm sãos, em equilíbrio. São elas que nos dão cor, que evitam que nos tornemos demasiado sérios, cinzentões. Depois de um dia longo, de trabalho, não é difícil chegar a casa e entregarmo-nos às tarefas rotineiras, mecanicamente, sem darmos conta do que estamos a perder. É aí que entra a razão. A razão que nos diz: Abre os olhos e aprecia! Aproveita o momento e tira partido do que tens! Se a ouvirmos, o dia fica mais fácil. Neste ponto, acho que nós, os que gostamos de cozinhar, temos a tarefa facilitada. 
No dia em que fiz este frango, a vontade era pô-lo num tabuleiro e enfiá-lo no forno, com um tempero triste, "de desenrasca". Mas não cedi. Fui à estante e peguei num dos livros recebidos no Natal. E diverti-me, enquanto fazia esta receita aromática e colorida. E, no fim, recebi elogios genuínos dos meus rapazes. E o dia ficou bem melhor.





Galinha com arroz selvagem
(Ligeiramente adaptado de Simply Nigella, de Nigella Lawson)





Ingredientes para 6 pessoas:
3 colheres de sopa de azeite
1 cebola, picada
2 dentes de alho, picados
1 colher de chá de açafrão das Índias
2 colheres de chá de sementes de coentros (omiti-as, pois o meu marido não as suporta)
2 colheres de chá de sementes de cominhos (usei cominhos em pó)
1 cuvete de pernas de frango e 1 de coxas
250 g de arroz selvagem
75 g de arandos secos
1 litro de caldo de galinha
sal e pimenta a gosto
um molho de coentros, picados (não usei)

Preparação:
Aquecer o forno a 180 graus. 
Levar ao lume uma panela de ferro, com tampa, que possa ir ao forno. Refogar a cebola no azeite, em lume brando, 5 a 10 minutos, mexendo de vez em quando. Acrescentar o alho e as especiarias. Aumentar a potência do fogão e juntar o frango, deixando cozinhar cerca de 3 minutos, até a carne estar selada.  Adicionar o arroz e mexer durante 1 minuto; depois, juntar os arandos e o caldo de galinha e deixar ferver. Colocar a tampa e levar ao forno durante 1 hora.
Retirar a panela do forno, verificar se o arroz está cozido (é natural que reste algum líquido), temperar com sal e pimenta e levar novamente ao forno, sem tampa, mais 15 minutos (o arroz não fica seco, mas com um aspeto malandrinho).
Se quiserem, podem misturar metade dos coentros no arroz e reservar a outra metade para polvilhar, no momento de servir. Considero que este ingrediente tornaria o prato ainda mais saboroso, mas há que agradar à família ;)

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

"Baby, it's cold outside."

Já lusco-fusco, agasalho-me e saio à rua. Lá fora, sinto o cheiro a lenha queimada que vem da chaminé.  Aconchego o casado e o gorro, que o frio aperta. Corro à horta e colho espinafres para o jantar. Vejo as silhuetas no limoeiro embalado pelo vento. E as luzes da nossa árvore de Natal. Encantam-me mais ainda, vistas assim, ao longe. Aproximo-me e ouço a música do filme que os meus rapazes estão a ver. A saga Star Wars, a nova preferida do filho. Paro alguns segundos e vejo-os, de fora, naquela cumplicidade muito deles.  Entro em casa e sou recebida pelo calor e pelo cheiro da sopa que está a fazer. E continuo na cozinha, a preparar o jantar, ao som das músicas que me aquecem nesta altura.


Rolinhos de frango com requeijão e espinafres
com molho tzatziki



Ingredientes para seis doses:
6 bifes de frango
12 fatias de bacon (cortadas finas)
1 requeijão
1 molho pequeno de espinafres
frutos secos (ameixa, alperce...) - opcional
1 raminho de salsa, picada
tomilho a gosto
sumo de 1/2 limão
sal e pimenta preta
azeite 

Preparação:
Temperar os bifes com o sumo de limão, o tomilho, o sal e a pimenta e reservar.
Escaldar os espinafres e misturá-los com o requeijão e a salsa, até obter uma pasta.
Sobre a tábua de cozinha, estender duas fatias de bacon, sobre estas, o bife de frango. Colocar uma colher de pasta de requeijão (se quisermos, podemos acrescentar os frutos secos) e enrolar, prendendo com palitos. Repetir até acabarem os ingredientes. 
Levar os rolinhos ao forno aquecido a 200 graus 35 a 40 minutos, num pirex untado com azeite.
Servi com arroz de açafrão, brócolos cozidos e o molho tzatziki:




Descascar 1/2 pepino pequeno, retirar-lhe as sementes, ralá-lo e colocá-lo numa taça. Juntar-lhe 2 dentes de alho, picados, 1 iogurte grego, 1 colher de chá de sumo de limão, uma de raspa e temperar com sal e pimenta. 









domingo, 6 de setembro de 2015

Mais figos. E um frango picante.

Este post está meio alinhavado há mais de uma semana. Pelo menos a receita. Entretanto, estive para não a publicar. Parece já não fazer muito sentido apresentar uma receita com figos nesta altura. Pelo menos, depois das chuvas torrenciais da passada sexta-feira. Apesar de estar calor, olhamos pela janela e os dias continuam cinzentos, cor de inverno. Há uma espécie de incoerência nos últimos dias. 
Não voltei aos figos depois das chuvas, mas acredito que terão perdido a doçura. Figo quer sol, e sol é coisa que não tem havido ultimamente. Mesmo assim, decidi publicar a receita. Mesmo que já não haja figos doces na minha ilha, há de havê-los em qualquer parte e pode ser que isto interesse a alguém. 
Vamos então à receita. Desta vez, fiz uma salada. Uma refeição muito rápida, depois de um dia de trabalho (as fotos apressadas comprovam-no). O tempero do frango é perfeito para dias de preguiça. Três ingredientes  apenas, e, se não tivesse estragão, teriam sido dois. E teriam ficado bons na mesma, que o iogurte e a harissa fazem a festa sozinhos. Desde que conheci este ingrediente não o largo. É muito versátil e perfeito para dias em que há pouco tempo para preparar comida. Uma colher desta pasta mágica faz milagres. Em vez de comer os bifes acompanhados com um arroz sem graça, lembrei-me de os cortar em tiras e juntar a uma salada. Umas verduras, figos e nozes, numa salada agridoce muito saborosa. A doçura dos figos a contrastar com o picante do frango foi uma combinação a repetir. Não me parece é que seja ainda este ano.

Frango com iogurte grego, harissa e estragão




Ingredientes 
para o frango:
500 g de bifes de frango
1 iogurte natural
2 colheres (de chá) de harissa
1 colher (de sopa) de estragão fresco, picado
sal q.b.

para uma salada:
Salada verde (mistura de alfaces, rúcula e agrião)
2 ou 3 figos
nozes picadas
1 bife de frango
Molho vinagrete: 1 colher (de sopa) de azeite + 1 colher (de chá) de vinagre balsâmico + 1 colher (de chá) de mel + flor de sal e pimenta preta)

Preparação
do frango:
Misturar o iogurte, a harissa, o estragão e o sal. Marinar o frango durante uma hora (se não tiver uma hora, deixe o tempo que conseguir). Grelhar os bifes, num grelhador untado com um pouco de azeite.

da salada:
Numa taça, colocar as verduras. Sobre estas, dispor os figos, descascados e cortados em 4 partes. Cortar o bife de frango em tirinhas e juntá-lo também à salada, assim como as nozes. Temperar com o molho e servir, com uma torrada e um copo de vinho branco.


Entretanto, Angra reergue-se, depois da tempestade. E não há de demorar muito. Já viu dias bem piores e sobreviveu. Deixo-vos uma foto belíssima do António Araújo, que ilustra este arregaçar de mangas e a forma como estamos habituados a encarar as adversidades e a dar a volta por cima. Uma foto leve, otimista, que diz que vai ficar tudo bem. Pena não termos essa certeza em relação a tantas outras intempéries que acontecem no mundo.



Se desejarem conhecer um pouco melhor o trabalho deste fotógrafo, cliquem aqui.

quinta-feira, 5 de março de 2015

Antecipação

Depois de um dia de trabalho, mais uma caminhada à beira-mar. Não obstante as limitações da insularidade, gosto mesmo de morar aqui. Saio do trabalho e em sete minutos estou em casa. Troco de roupa e calço as sapatilhas. Mais dois minutos e estou a caminhar, junto ao mar. E posso escolher o cenário: se me apetecer areia e gente, viro à direita, em direção à Praia da Vitória. Se preferir silêncio e o negro austero do basalto, viro à esquerda e dali a pouco estaciono no Porto Martins. 
Chego a casa e preparo este jantar. Nem todos os dias há paciência para moldar massas. Em dias como o de ontem, em que entro em casa já noite cerrada, só há tempo para pousar a chave e a mala, pôr esparguete a cozer e engendrar uns acessórios para lhe juntar. Hoje não. Hoje houve tempo. E vontade. Sempre que o jantar implica tirar o rolo do armário, é sinal de que há vontade de passar algum tempo na cozinha. Perto de mim, o Manel vai fazendo o trabalho de casa. E vai tagarelando. Ó mãe, detesto as tartatugas. Vivem mais do que nós e não trabalham! Não deixa de ter razão, o rapaz. Por outro lado, do que nos serviria uma vida longa de tédio? É o trabalho que nos permite valorizar os momentos de lazer. Para mim, são os dias longos e cheios que me fazem apreciar tanto o fim de semana. É já amanhã. Por falar em fim de semana, vou fazer o meu gelado de baunilha. Adeus :)


Folhado de frango e cogumelos


Ingredientes:
1 peito de frango, cozido (ou aproveitamentos de frango assado)
2 alhos-franceses grandes (apenas a parte branca)
200 g de cogumelos brancos + 150 g de cogumelos shiitake, laminados
3 colheres (de sopa) de azeite
brócolos q.b., em floretes
1 embalagem de massa folhada (usei da marca Continente, com 5 placas)
200 ml de natas magras
sal e pimenta preta a gosto
1 gema, para pincelar
sementes de sésamo (facultativo)

Cortar o alho-francês em rodelas e lavá-lo bem. Levá-lo ao lume, com o azeite, e deixá-lo refogar, até que amoleça. Juntar o frango, desfiado ou cortado em pedaços pequenos, os cogumelos e os brócolos. Deixar cozinhar cerca de 10 minutos, em lume brando. Juntar as natas, temperar com sal e pimenta e deixar apurar cerca de 5 minutos.
Entretanto, esticar a massa, formando 2 retângulos. Num tabuleiro de forno, forrado com papel vegetal, colocar um retângulo e, no centro deste, o recheio. Cobri-lo com o outro retângulo e aconchegar bem as beiras. Se houver tempo (e paciência), com a massa que sobrar, cortar tirinhas e decorar a empada. Pincelar com ovo batido, polvilhar com sementes de sésamo e levar ao forno a 180-190 graus, até dourar. Servir com salada verde. 




domingo, 23 de março de 2014

Mais do mesmo

Não é possível contornar as repetições. Não num blogue que tem a comida como tema central. Não se esse blogue mostrar, de forma natural, aquilo que cozinhamos no nosso dia a dia e não o que é feito apenas a pensar em mais um post. Há pratos que repetimos e pronto. E há dias em que apetece regressar a esses pratos de sempre, que conhecemos tão bem. E, se temos um blogue e apetece fotografá-los, fazemo-lo. Mesmo arriscando-nos a fazer mais do mesmo.
Mais um post de frango assado. Mais um post a falar do quanto a cozinha é relaxante. E do quanto um assado conforta em dias frios (ainda) de inverno. E de como nos sentimos bem só de olhar para um forno iluminado por um frango. É assim. Por mais que a cozinha às vezes possa ser uma aventura, há dias em que apetece o assado clássico, parecido com aquele que já fizemos tantas e tantas vezes. 
No fundo, é como a vida. Às vezes, apetece aventura, conhecer lugares e pessoas novas, de preferência bem longe de casa. Outras, apetece o aconchego da nossa mesa, o convívio com a nossa família e os amigos de sempre. Em ambos os casos, é uma questão de segurança. É que as aventuras nem sempre correm bem. As da cozinha e as outras.

Frango assado com paprika fumada


Ingredientes:
1 frango do campo
1 colher (de sopa) de paprika fumada (se não conseguir arranjar esta, pode usar a mais comum.)
2 colheres (de chá) de puré de alho assado (se não conseguir arranjar, substitua por dentes de alho triturados ou, se preferir, asse os dentes com a casca e reduza-os a puré)
2 colheres (de sopa) de manteiga amolecida
sal
1 raminho de tomilho

Preparação:
Sequei o frango, com papel de cozinha. Separei a pele e coloquei raminhos de tomilho entre a pele e a carne.
Num almofariz, misturei a parika, o puré de alho, a manteiga e o sal. Esfreguei o frango, incluido o interior, com esta mistura. Atei as pernas com fio de cozinha.
Coloquei uma cebola, cortada em rodelas, no fundo do tabuleiro e reguei-a com azeite. Sobre esta cama, coloquei o fango e levei-o ao forno a 190 graus, durante 90 minutos.


 

Entretanto, preparei as batatas:
Para três pessoas, lavei 9 batatas pequenas. No almofariz, misturei 1 colher (de chá) de pimenta rosa em grao, 4 dentes de alho, 1 colher (de sopa) de salsa, 2 colheres (de sopa) de parmesão ralado na hora, 2 colheres (de sopa) de azeite e sal. Envolvi as batatas neste molho e coloquei-as no forno, juntamente com o frango. 
 

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Nós

É muito fácil perdermos o foco. É muito fácil desviarmo-nos do que mais importa. É a reunião que acaba tarde, a roupa que tem de ser passada, o jantar que tem de ser feito, a cozinha que tem de ser arrumada, o saco da natação que tem de ser preparado para o dia seguinte. No meio de tudo isto, há que fazer um esforço para ver. Um esforço para não nos perdermos no meio do acessório e deixarmos passar o mais importante. Os mais velhos, alguns dos que se deixaram devorar pelo Tempo, dizem, com ar saudosista, enquanto olham para os cinco anos do Manel: É o melhor tempo. Passa num instante. Aproveita. E eu penso que não vou deixar que o Tempo nos devore. E penso que quero apreciar cada abraço, cada conversa, cada pergunta, cada canção. E delicio-me com cada conquista do meu Manel de cinco anos. Ó mãe, já sei atar os sapatos. Já consigo mergulhar de cabeça. E orgulho-me quando já diz a palavra difícil que há um mês não conseguia pronunciar. 

A carta ao Pai Natal está concluída. Foi feita no colégio, mas, entretanto, surgiram mais umas coisinhas. Uma tela, tintas e pincéis. Escrevemos no verso da folha, digo-lhe eu. Ó mãe, mas assim o Pai Natal não vai ver. Ele não sabe que há mais coisas escritas atrás. E eu lá argumento, como posso: Ó Manel, tu achas que o Pai Natal, que vê tudo o que os meninos fazem, não vê o que está escrito no verso da folha? Lá se convence e acrescenta: Ó pai, não te esqueças de pôr a carta no correio amanhã, para dar tempo de o Pai Natal comprar os presentes. E eu faço muita força para guardar estes momentos, estes diálogos. E faço por que o cansaço dos dias não me faça perder a capacidade de valorizar aquilo que é o mais importante: Ele. Eles. Nós. 

E agora, um jantar rápido. Um jantar que pode ser de dias cheios, de tão simples de preparar. Em menos de meia hora, estamos os três sentados à mesa, a saborear uma refeição que é tudo menos monótona.

Espetadas de frango com limão
(adaptado de O pequeno grande livro das refeições rápidas, Carla Bardi, Porto Editora)
  
Ingredientes:
2 peitos de frango, grandes, sem pele e sem osso, cortados em bocados pequenos
100 g de pão ralado fino
6 colheres (de sopa) de leite
1 dente de alho, finamente picado
1 colher (de sopa) de salsa, finamente picada
1 ovo grande, batido levemente
sal e pimenta preta, moída na altura
2 limões, cortados em fatias finas
4 colheres (de sopa) de azeite virgem extra

Preparação:
Pré-aquecer o grelhador a alta temperatura. 
Picar o frango, num robot de cozinha, até se obter uma pasta macia. Envolver na carne o pão ralado, o leite, o alho, a salsa e o ovo e temperar com sal e pimenta. 
Moldar com a mistura pequenas bolas do tamanho de uma noz. 
Espetar as bolinhas em palitos compridos de madeira, alternando com fatias de limão.
Salpicar com azeite. Grelhar 15 minutos, virando com frequência, até as bolinhas de frango estarem bem cozinhadas e ligeiramente douradas.
Servir quente.





terça-feira, 19 de novembro de 2013

Já cheira a Natal.

É um dos sinais de que o Natal está à porta. Começam a aparecer os saquinhos de trigo que embelezarão as casas nesta época. Depois de anos de renúncia a estas tradições, parece que recomeçamos a dar importância ao que é nosso. Bolas, árvores, Pais Natal há-os por todo o lado. Em todas as regiões, em muitos países. Depois de anos a ter como objetivo principal o ser-se apenas universal, cosmopolita, do mundo, igual a toda a gente, parece que recomeçamos a orgulhar-nos de ser (também) regionais. O sentimento de pertença à nossa terra começa a ganhar terreno, mesmo por parte dos mais novos. Aquilo que antes era motivo de vergonha está, aos poucos, a transformar-se em orgulho. Ainda bem. Afinal, o maior mérito é ser-se do mundo sem nunca deixar de se ser da terra onde se nasceu. Tenho esperança que, um dia, os jovens da província que chegam às universidades da capital sejam seguros o suficiente para não se deixarem intimidar por colegas que se acham superiores só porque creem que falam melhor. É triste ouvir um jovem terceirense que foi estudar para o Porto vir de férias, no Natal, a falar à moda de Lisboa. Triste e ridículo. Há poucas coisas que me mexam tanto com os nervos como ver um terceirense ou micaelense ou bragantino ou alentejano a tentar apagar todo o seu passado linguístico só porque alguém lhe meteu na cabeça que falar bem, mais do que cumprir as regras gramaticais, é falar sem deixar adivinhar a terra onde foi criado. Tomemos como exemplo o nosso Nemésio, que até à morte conservou o seu falar terceirense bem mastigadinho, o que, em vez de o diminuir, ainda lhe acrescentava mais carisma.
Mas deixemos os assuntos linguísticos para outra ocasião e retomemos o assunto do trigo, que iniciou este post. Hoje, o meu marido chegou a casa com dois saquinhos de trigo, trazidos por alunos, que porei a germinar e que, à semelhança do ano passado, hão de embelezar a nossa mesa de Natal. Tal como a minha avó embelezava a dela, numa altura em que os ornamentos não eram muitos. Com a chegada deste  trigo, já demolhado, à espera que germine, está aberta aquela que é para mim a época mais bonita de todas. 

E acentua-se o desejo de aconchego, aquele aconchego natalício que não é igual em mais nenhuma época do ano. Aquele aconchego que cheira a lenha queimada, velas pela casa, forno aceso e especiarias.
E agora, bem enquadrado neste espírito, o nosso jantar de ontem: um frango a cheirar a Índia, retirado de um site inglês. Um frango do mundo, portanto :)

Frango assado masala com batatas
(adaptado daqui) 
 
Ingredientes para a marinada:
4 colheres (de sopa) de sumo de limão
2 colheres (de sopa) de gengibre, descascado e depois ralado
2 colheres (de sopa) de alho ralado
3 malaguetas verdes, picadinhas (usei apenas duas)
1 colher (de chá) de sal
1 colher (de chá) de coentros moídos
1 colher (de chá) de garam masala

Ingredientes para o frango:
1 frango inteiro, arranjado e sem pele
1/2 colher (de café) de paprika fumada (usei desta)
1/2 colher (de chá) de pimenta preta, moída na hora

Ingredientes para as batatas masala:
6 colheres (de sopa) de azeite
5 batatas médias, cortadas em pedaços
3/4 colher (de chá) de sal
3/4 colher (de chá) de pimenta preta
1 colher (de chá) de cominhos
1/2 colher (de chá) de açafrão das Índias
1/2 colher de café de paprika fumada

Pré-aqueça o forno a 200 graus.
Num robot de cozinha, faça uma pasta com todos os ingredientes da marinada.
Com uma faca afiada, faça golpes profundos no peito do frango, nas coxas e nas asas.
Coloque o frango, com o peito para cima, sobre uma folha de papel de alumínio com tamanho suficiente para o embrulhar todo. Espalhe sobre o frango a mistura de especiarias e polvilhe-o com a paprika fumada e a pimenta. Embrulhe-o e leve-o ao forno cerca de 1 hora. Findo esse tempo, destape o frango e deixe-o alourar 15 minutos, destapado, regando-o duas ou três vezes com os sucos que se formaram.
Entretanto, trate das batatas
Numa tigela grande, coloque o azeite. Junte as batatas e tempere com sal e pimenta. Assegure-se que as batatas estão bem cobertas, transfira-as para um tabuleiro, numa única camada, e leve-as a assar, a 180 graus, durante 20 minutos.
Misture bem os coentros, o açafrão, os cominhos e a paprika. 
Retire as batatas do forno, envolva-as nas especiarias, certificando-se de que todos os lados estão cobertos, e leve-as ao forno mais 20 minutos.

Se tiver actifry, faça como eu: coloque as batatas na actifry, polvilhe-as com as especiarias (fiz apenas metade da receita) e 1 colher de azeite e programe 30 minutos. Simples, não? Para além das batatas, acompanhámos com couve roxa salteada em azeite e alho.
 

E agora, um cheirinho de "Se bem me lembro". Recordo-me, muito vagamente, de ver este senhor no televisor a preto e branco dos meus pais e de ver toda a gente embevecida a ouvi-lo falar. 


quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Uma refeição perfumada

O meu gosto pela cozinha indiana não é de agora. E se vejo este prato num menu de restaurante, dificilmente escolho outro. Já fiz várias tentativas de o reproduzir, mas nenhuma me agradou. Faltava sempre qualquer coisa, o tal sabor que o torna no meu prato de eleição. 
Nos últimos dias, andava com vontade de comida quente e perfumada. E lembrei-me de voltar a tentar um frango Tikka Masala. Encontrei esta receita, do Jamie Oliver, e guardei-a, à espera de ter tempo. Não tempo para confecionar a receita, que até é relativamente rápida, mas tempo para fazer o pão naan, que associo sempre a este molho quente e aromático. 
No sábado, fui para a cozinha, não ao som da banda sonora de um filme de Bollywood, mas ao som de Ben Howard. Apesar do ambiente pouco bollywoodesco da minha cozinha, os aromas que emanavam da frigideira onde cozia o pão e o borbulhar do molho do frango fizeram-me recuar mais de uma década. E vi-nos, sentados a uma mesa carmim e animada, a comer chamuças, no extinto restaurante O Citar, no princípio de mais uma noite de sábado. Despertei e chamei-os para a mesa, não sem antes tirar as fotografias da praxe. Não é o Chicken Tikka Masala d' O Citar, mas anda lá perto. E pode ser que o Chicken Tikka Masala d' O Citar que existe na minha cabeça nunca tenha existido na realidade. Pode ser que o ingrediente que o torna especial só exista na minha imaginação. Só posso dizer que, de todas as receitas que já experimentei, esta foi a que melhor matou as saudades que sentia. Infelizmente, o Manel só gostou do pão. Com o tempo, chega lá. Filho meu tem de gostar de comida indiana :) 

A receita do frango pode ser consultada no Receitas ao Desafio. Ficam as fotos.



Pão naan
(ligeiramente adaptado daqui)

Ingredientes:
150 g de água
5 g de fermento de padeiro fresco
250 g de farinha T65
50 g de iogurte natural 
3/4 de colher de chá de fermento para bolos
1/2 colher de chá de sal marinho 
Oléo de girassol para amassar 
2 colheres de sopa de salsa picada + alho em pó q.b. (facutativo, mas muito bom :)

Preparação:
Deitar a água numa tigela, adicionar o fermento de padeiro e misturar bem. Juntar metade da farinha e bater tudo com um garfo. Cobrir a tigela e deixar descansar num local quente durante 30 minutos. 
Adicionar o iogurte e, em seguida, o resto da farinha, o sal e o fermento em pó. Misturar bem, com as mãos, até obter uma bola de massa macia e bem ligada. Deitar 2 colheres (de chá) de óleo na tigela e esfregar o lado superior da bola de massa. Retirar a bola da tigela e amassar grosseiramente umas duas vezes. Voltar a colocar a bola na tigela, cobrir e deixar descansar durante 15 minutos.
Esfregar a massa com mais uma colher de óleo e, em seguida, colocar a bola em cima de uma superfície untada. Trabalhar a massa com as mãos durante 30 segundos. Depois, voltar a colocar a bola na tigela, tapar e deixar descansar durante 15 minutos (a esta altura, a massa deve estar muito macia). Trabalhar ligeiramente a massa mais um minuto sobre a superfície untada e esperar 5 minutos. Entretanto, aquecer a frigideira a uma temperatura média.
Pegar num dos quartos de massa e estender, enfarinhando bem, à medida que se trabalha. É importante que a massa fique bem fina, com cerca de 3 mm de espessura. 
Quando a figideira estiver quente, colocar a massa,  pincelar a superfície com óleo, misturando-lhe as ervas e o alho em pó. Tapar a frigideira e deixar cozer 1 minuto. Verificar o pão. Nesta altura, deve estar um pouco crescido e aparentar bolhas de ar à superfície. Com o auxílio de uma pinça, deve-se levantar cuidadosamente uma ponta de massa e ver se o pão está dourado por baixo. Se sim, voltá-lo ao contrário e deixar cozer mais 1 minuto. Quando estiver cozinhado de ambos os lados, retirar da frigideira.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Praia, piqueniques e o "doce fazer nada"

Estas férias têm sido diferentes. Estas férias têm sido feitas de dias sem planos. Faz-se o que apetece, às horas que apetece. As refeições são pensadas quase na hora. Enquanto esperamos que o sol amanse, vou à horta, colher. Em casa, faço sopas. E saladas. E coisas saudáveis, que ando a portar-me muito bem. Depois do lanche, um saltinho à praia, mesmo aqui ao lado. Têm sido assim, a maior parte dos dias. 
Ou então, piqueniques, no meio da natureza. Estas férias, ando a descobrir lugares que sempre estiveram lá sem eu os ver. E surpreendo-me a gostar de coisas de que nunca gostei. E consigo dormir uma sesta, numa manta, debaixo de uma árvore, sem estar a pensar em bichos. E consigo gostar de uma refeição partilhada nessa mesma manta, com pratos e talheres de plástico. E gosto, acima de tudo, de ficar deitada na manta, a ler um livro, enquanto ouço as vozes deles, a fazer o nosso churrasco. A voz curiosa do Manel, que questiona tudo, e a voz paciente do pai, que não se esquiva a nenhuma pergunta. E gosto de os ver a jogar à bola, num campo só deles. E sorrio ao ver o pai, que não gosta de bola, rematar com vontade :) Mudámos tanto, nós, por causa dele. 

 


Hoje, ficámos por casa. Uma noite longa de sono. Refeições tomadas a horas tardias. Para o almoço, uma receita com sabores fortes e exóticos. E outra leve, feita à minha medida. E agora dedicamo-nos à preguiça, que é uma atividade muito menosprezada. Nem sempre temos de estar a fazer coisas. Fazer nada também é muito bom :) 

Caril de frango com laranja
(adaptado de O pequeno grande livro das refeições rápidas, Carla Bardi, Porto Editora)
 
Ingredientes para 4 pessoas:
1 laranja grande e madura
2 colheres de sopa de azeite virgem extra (usei apenas uma)
sal e pimenta preta
1 colher (de sopa) de farinha
1 colher (de sopa) de caril em pó
3 colheres (de sopa) de caldo de galinha (o meu foi feito com knorr natura
sumo de uma laranja
2 peitos de frango, grandes, sem pele, sem osso, e cortados em pedaços pequenos
4 colheres (de sopa) de manteiga (usei 2 colheres de manteiga aromatizada - receita aqui
1 colher (de sopa) de brandy

 Preparação:
Descascar a laranja e cortar em gomos. Colocar numa taça e adicionar o azeite. Temperar com sal e pimenta e reservar. 
Misturar a farinha com o caril, o caldo e o sumo de laranja. Temperar com sal e pimenta. 
Numa frigideira grande, saltear o frango na manteiga, em lume médio-alto, durante 3 a 4 minutos, ou até os pedaços de frango estarem dourados. Acrescentar o molho de caril e o brandy. Tapar e cozinhar em lume brando 15 minutos ou até o frango estar bem cozinhado e o molho engrossar. 
Guarnecer com a laranja e servir quente.


Acompanhei o frango com esta salada quente de quinoa e legumes salteados. Podem consultar a receita aqui.


quarta-feira, 3 de julho de 2013

Libertação e umas espetadas de frango

Nunca as tarefas domésticas têm tanto encanto como depois de dias a corrigir exames. Poder parar e dedicar-me às coisas de casa soa a libertação. Nestes dias, até as tarefas de que gosto menos, como fazer arrumações e limpezas, me parecem estimulantes. 
No fim de um dia dedicado a roupas, o jantar. Simples e bem estival, a contrastar com a constipação que ainda não me abandonou. Espetadas de frango e uma salada com produtos da horta biológica da minha cunhada. Na mesa, rosas e lavanda do jardim. No ar, Melody Gardot, que me acompanhou durante todo o dia. E a certeza de sempre: são mesmo as pequenas coisas que me fazem feliz.


Espetadas de frango com salva
Ingredientes para três espetadas:
400 g de bifes de frango
1 cebola grande
1/2 pimento vermelho
algumas folhas de salva
4 dentes de alho
sal e pimenta q.b.
sumo de 1/2 limão

Cortei o frango em tiras grossas e temperei-o com os alhos, picados, sumo de limão, sal, pimenta e folhas de salva. Deixei marinar durante uma hora. 
Demolhei os palitos para espetadas (enquanto o frango marinou). 
Cortei as cebolas e os pimentos em pedaços. Fui colocando nos palitos, alternadamente, pedaços de frango, de pimento e cebola. Entre cada um, coloquei folhinhas de salva. 
Grelhei as espetadas, virando-as de vez em quando, para que ficassem uniformes. 

 
Acompanhei as espetadas com salada de alface (verde e roxa) e chicória, temperada com creme balsâmico de tomate seco e folhinhas de manjericão canela, uma variante com um aroma a canela que muito me agradou.



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O Acre e Doce é um blogue que celebra a vida de casa, principalmente os momentos passados à volta da mesa. É um blogue de coisas que nos fazem felizes, sejam uma refeição, um filme, um livro ou um ramo de flores frescas.