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domingo, 6 de janeiro de 2019

Equilíbrio. E um bolo de citrinos.

Equilíbrio. É o que desejo para 2019, juntamente com a paz e o amor e a saúde e as outras coisas que se desejam quando começa um novo ano. E, quando penso nesse equilíbrio, penso, sobretudo, em Tempo. O tic tac dos dias pode ser devastador. Como aquelas máquinas ruidosas que ansiamos por que se calem. Que nos levam ao desespero. Só que não há fichas nem botões que calem o tic tac que parece devorar-nos. Para resistir ao ruído dos dias, é preciso força. E uma certa dose de sabedoria. Equilibrar os dias. Como numa receita, a dose certa de doçura, de acidez, de picante e de outros sabores que fazem daquele prato algo especial. Não deixar que a acidez se sobreponha, que abafe os outros sabores. Como numa orquestra harmoniosa, deixar que todos os instrumentos desempenhem a sua função. É isso que espero para 2019. Equilibrar os vários aspetos da minha vida. Deixar que aqueles que têm sido abafados emirjam e recuperem o seu lugar. Por isso, acho que equilíbrio é a palavra que elejo para o ano que agora começa. 

A primeira receita deste ano é do último bolo que fiz em 2018. Um bolo que também é feito do equilíbrio entre o doce e a acidez dos citrinos. Camadas de laranja cortadas pela doçura de um creme de limão e cobertas pela pureza de uma calda de açúcar. Para alguns, demasiado ácido, ainda assim. Para mim, perfeito, que sou mais acre que doce.



Bolo de laranja 
com recheio de limão


Ingredientes para o bolo:
Raspa de uma laranja
200 ml de sumo de laranja
4 ovos grandes
1 pitada de sal
120 gr. de açúcar
200 gr. de farinha
1 c. sopa de fermento em pó para bolos
Ingredientes para o recheio (lemon curd):
160 gr. de açúcar
2 limões (usei apenas um, pois com dois fica demasiado ácido)
60 gr. de manteiga
2 ovos + 1 gema
Ingredientes para a cobertura:
300 gr. de açúcar ou 1 chávena e meia de açúcar confeiteiro
1 clara
1 c. chá de sumo de limão

Preparação do bolo (sem Bimby):
Raspa-se a laranja, faz-se o sumo e reserva-se.
Bate-se as gemas com o açúcar até se obter uma massa esbranquiçada. Junta-se a raspa da laranja e o sumo e bate-se, até incorporar na massa de açúcar e ovos. Adiciona-se a farinha e o fermento e continua-se a bater, até estar tudo bem misturado.
À parte, bate-se as claras em castelo e envolve-se no preparado anterior, com uma espátula,  com movimentos suaves.
Coloca-se numa forma redonda, sem buraco (usei uma com 20 cm de diâmetro) e leva-se ao forno cerca de 25 minutos.
No final do tempo, retira-se o bolo do forno, deixa-se arrefecer e corta-se ao meio, com uma faca afiada.
Preparação do recheio:
Misturar bem os ovos, o açúcar e o sumo de limão. Levá-los ao lume, num tachinho de fundo espesso (usei um tacho de ferro). Mexer, com uma vara de arames, até engrossar (não deve ficar demasiado espesso, pois engrossará um pouco depois de arrefecer). 
Retirar o tacho do lume e juntar a manteiga, mexendo até esta estar incorporada no creme. Deixar arrefecer e rechear o bolo (se restar creme, colocar num frasco e guardar no frigorífico).

Preparação da cobertura:
Misturar o açúcar confeiteiro, a clara e o sumo de limão, até obter uma consistência pastosa. Se for necessário, acrescenta-se sumo de limão. 
Verter a cobertura sobre o bolo, espalhando com uma espátula aquecida, pois facilita o processo.
Decorar a gosto.

Preparação do bolo (na Bimby):
Raspa-se a laranja, faz-se o sumo e reserva-se.
Coloca-se a “borboleta”, as claras, 1 pitada de sal e programa-se 3 min/37 graus/ vel.3 ½. Reserva-se.
Sem a “borboleta”, coloca-se as gemas, o açúcar e programa-se 30 seg./ vel.5.
Junta-se a raspa da laranja, o sumo e programa-se 30 seg./ vel 7.
Adiciona-se a farinha, o fermento e envolve.se 15 seg./ vel.6.
Envolve-se as claras com o preparado, com uma espátula,  com movimentos suaves, e leva-se ao forno pré-aquecido a 180 graus, durante 25 minutos, numa forma redonda, sem buraco, (usei uma com 20 cm de diâmetro)
No final do tempo, retira-se o bolo do forno, deixa-se arrefecer e corta-se ao meio, com uma faca afiada.
Preparação do recheio:
Com o copo bem seco, pulveriza-se o açúcar 15 seg./ vel. 9.
Adiciona-se a casca do limão e programa-se 15 seg./vel. 9.
Acrescenta-se a manteiga, o sumo do limão e programa-se 2 min./ vel. 2.
Junta-se os ovos, a gema e mistura-se 10 seg./ vel. 4.
De seguida, programa-se 7 min./ 80 graus/ vel. 2.
Deixar arrefecer e rechear o bolo (se restar creme, colocar num frasco e guardar no frigorífico).
Preparação para a cobertura:
Com o copo bem seco, pulveriza-se o açúcar por duas vezes (150 em 150 gr.), programando 15 seg./ vel. 9.
Adiciona-se os restantes ingredientes e bate-se 10 seg./ vel.6.
Molha-se a espátula em água quente e espalha-se a cobertura por cima do bolo.
Decora-se a gosto.


 Receita do livro O Melhor das Nossas Famílias, Vorwerk
(com ligeiras adaptações)


Feliz 2019. Com a dose certa daquilo que vos faz bem. A mim, uma mesa posta à espera das pessoas que me são queridas continua a estar no topo das preferências.



sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Aconchego. E um bolo invertido de chocolate e pera rocha.


Cocooning. Hygge. Dois termos que se tornaram moda. Estrangeirismos que, no fundo, não acrescentam muito. Designam aquilo que sempre existiu: um gosto pela casa, pelas coisas quentinhas e que nos fazem bem. Uma vela perfumada (ou muitas), uma lareira a crepitar, uma manta fofa, flores numa jarra, gatos a ronronar, um livro aberto no sofá. E um bolo no forno. De preferência com fruta que carameliza lentamente e difunde aromas que tornam a casa ainda mais casa. Nesta altura, a casa sabe melhor do que nunca. E não poder usufruir dela e usá-la quase como restaurante e dormitório é algo que não me faz bem. Faz-me muito mal, até. Preciso disto. De fazer refeições sem ser a correr. De observar as coisas ao meu redor. De fazer festas aos meus gatos e deixar-me contagiar pela sua paz. De ir para a cozinha e cozinhar não apenas para alimentar, mas para mimar. Misturar farinha, chocolate, baunilha e outras coisas perfumadas. Ver o milagre que é um bolo a crescer dentro do forno. Talvez por isso goste tanto de fazer bolos. Porque o encanto de transformar farinha e ovos e mais uma outra coisa num bolo nunca se perde. 
Hoje, apeteceu-me misturar chocolate com pera rocha. Uma combinação clássica, que nunca desilude. Em vez de um bolo grande, fiz dois, mais pequenos. Um para comermos ao lanche e outro para oferecer. Nada como dar um bocadinho de carinho em forma de chocolate a alguém que contribui para aumentar a felicidade de quem vive nesta casa.

Bolo invertido de chocolate e pera rocha




Ingredientes:
1 chávena* de farinha para bolos, com fermento
1/3 de chávena de cacau em pó
1 pitada de sal
1/4 de chávena de manteiga
100 g de chocolate negro (70% cacau), partido em pedaços
3/4 de chávena de açúcar amarelo
3 ovos
1 colher de chá de extrato de baunilha 
1/2 chávena de leite gordo
3 peras rocha, descascadas, cortadas em fatias grossas

Começar por forrar, com papel vegetal, uma forma redonda ou de bolo inglês (fiz dois bolos pequenos, em duas formas de bolo inglês).
Numa tigela de tamanho médio, misturar a farinha, o cacau em pó e o sal. 
Derreter a manteiga e o chocolate (em banho maria ou no micro-ondas). Depois de derretida, verter a mistura para uma taça grande, adicionar o açúcar e bater, com a batedeira, cerca de 3-4 minutos. Juntar os ovos e a baunilha e continuar a bater, até estar tudo bem misturado. Com a batedeira em funcionamento, misturar, alternadamente, o leite e a mistura de farinha e cacau.
Polvilhar o fundo da(s) forma(s) com açúcar e, sobre este, colocar a pera. Cobrir com a massa e levar ao forno, aquecido a 180 graus, durante cerca de 25 minutos (se optarem por fazer um único bolo, maior, deverão aumentar o tempo de cozedura para cerca de 45 minutos - para verificar se está cozido, a melhor forma é fazer o teste do palito).
Desenformar o bolo, com cuidado, e polvilhar com açúcar confeiteiro.

*240 ml




domingo, 30 de setembro de 2018

Ainda os figos. E um bolo invertido a quatro mãos.

As primeiras chuvas do outono anunciam o fim dos figos. Começam a abrir e perdem a doçura. Por isso, creio que este bolo encerrará a época.
No passado domingo, fui aos figos. Não com o meu pai, que costuma tratar de toda a logística necessária: arredar o taipal que dá acesso ao terreno, remover as pedras que impedem a entrada das vacas e outras tarefas que só quem mora no campo e está habituado a ir às terras conhece. No domingo, sabendo da impossibilidade de o meu pai me acompanhar, fiz-me ao caminho, na companhia da minha amiga Lídia, que apareceu para uma visita. Armadas em mulheres confiantes e emancipadas, munimo-nos de baldes, preparadas para os encher de figos. Infelizmente, a colheita não correu como eu esperava. Depois de algumas peripécias que envolvem muros de pedra e arame farpado, que não vos conto por serem demasiado humilhantes, lá fui eu em direção à figueira (com os dois baldes - um para os figos mais maduros e outro para os mais durinhos, destinados a esta conserva). 
O terreno da nossa figueira está arrendado. E o meu pai tinha-me dito que havia lá vacas (ele chama-lhes bezerros, mas com aquele tamanho pareceram-me vacas). Não achei que isso fosse um problema. Passei pelas três anfitriãs, com um balde em cada mão, e dirigi-me à figueira. Comecei a colher. De longe, elas observavam-me. Olhei para elas e segui o meu caminho. Entretanto, começaram a caminhar em direção a mim. Mau! Mas continuei. Não são três vaquinhas inofensivas que me vão intimidar. Continuei a colher figos. Tapei o fundo de um balde. Quando me virei, estavam as três ao pé de mim. Grandes e intimidantes. Tentei decifrar-lhes as intenções. Não consegui, que não tenho muita experiência em psicologia bovina. Aquele olhar seria de meiguice ou de fome ou de quem me ia dar uma marrada? Muito calma e digna, agarrei nos meus baldes, um vazio e o outro com meia dúzia de figos e dirigi-me à estrada. Devagar, Ilídia, devagar, que é melhor. E caminhei calmamente até à Lídia que, quando se apercebeu dos meus receios, desatou a rir de mim, claro. Só depois pensei como havia sido ridícula. A fugir de vacas, como se fossem cães. As desgraçadas, afinal, viram-me com baldes e devem ter pensado que lhes ia dar o jantar. Ainda olhei para a figueira, ao longe. Mas já não voltei lá. Não sei se com medo das vacas, se com vergonha da triste figura que tinha acabado de fazer.



Apesar de tudo, a colheita valeu a pena. A caminho de casa, fomos engendrando um bolo. À receita da massa da Lídia, lembrei-me de juntar extrato de amêndoa, um sabor que vai bem com figo. E se adicionássemos figos picados à massa? O resultado foi este. Um bolo húmido e bem aromático, que foi muito apreciado por todos quantos os provaram e que alegrou uma manhã de segunda-feira na minha escola.


Bolo invertido de figos

Ingredientes:
Para o fundo da forma: 6 a 8 figos + açúcar amarelo q.b.
4 ovos
1 chávena de açúcar amarelo
180 ml de óleo
120 ml de leite
1/2 colher de café de extrato de amêndoa
1 chávena e meia de farinha + 1 colher de sopa (rasa) de fermento para bolos
1 chávena de figos picados

Preparação:
Começar por polvilhar abundantemente o fundo de uma forma (sem buraco e de fundo fixo) com açúcar amarelo. Cortar alguns figos em quartos (deixando-os unidos na base) e colocá-los sobre o açúcar, com a polpa voltada para baixo.
Bater bem ovos com o açúcar.
À parte, bater o óleo, o leite e o extrato de amêndoa.
Noutra taça, misturar a farinha e o fermento. 
Com a batedeira em funcionamento, intercalar a mistura de farinha e fermento com a de óleo e leite, até estar tudo bem incorporado. No fim, adicionar os figos picados. 
Verter tudo na forma e levar ao forno cerca de 35 minutos (fazer o teste do palito para verificar a cozedura).



Uma boa semana de outono!

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Outras rotinas. E o regresso à cozinha, com um bolo de Nutella.

Estive fora duas semanas. Dias muito diferentes dos meus, experiências muito diversas. Duas semanas de aprendizagem permanente, de desafios constantes, noutros lugares, com outras pessoas. Duas semanas a ouvir línguas estranhas, a falar uma língua que não era a minha. Duas semanas com rotinas diferentes daquela a que estou habituada. 
Primeiro, uma das cidades mais belas que já visitei. Durante uma semana, andei por Praga. Quase sempre a pé. A pé, visitei monumentos, fui a concertos, ao teatro, à padaria, à florista. A pé, deslocava-me do "meu" apartamento até ao instituto onde, durante uma semana, fui aluna. A pé, ia todos os dias almoçar a este lugar especial, onde se falava português, checo e inglês com sotaque irlandês. Improvável descobrir em Praga, por acaso, um restaurante cujo proprietário se chama João.















De Praga, uma viagem de comboio até à Alemanha. Sozinha, num comboio cheio de checos e alemães. Depois de uma breve paragem em Dresden, continuei, até Braunschweig, uma cidade que me é querida. Lá, esperavam-me outras pessoas, outras rotinas. Depois de uma semana a conviver com checos, italianos, um francês e um espanhol, passei a andar na companhia de alemães, romenas, gregas e duas espanholas, a única nacionalidade repetida.
Em Braunschweig, fiquei em casa do meu amigo Martin e da companheira, uma americana simpática da Carolina do Sul. Mais um projeto a começar, com parceiros antigos e um monte de gente nova. Dias de muito trabalho e muita diversão. Visitas à Alemanha profunda, a lugares de postal. Caminhadas entre montanhas, com direito a dicas do meu amigo Harald sobre como colher cogumelos em segurança. Desta vez, não cozinhámos juntos, mas tinha de haver conversas sobre comida e dicas de culinária. Na bagagem, trouxe cogumelos secos, colhidos por ele. Qualquer dia, é possível que apareça por aqui um prato com cogumelos alemães.
Também em termos gastronómicos, as duas últimas semanas foram atípicas. Se, fisicamente, atravessei parte da Europa, no que diz respeito a comida, dei quase a volta ao mundo.  Cozinha afegã, turca, indiana, italiana, checa e alemã. Sempre em restaurantes muito típicos, frequentados por locais, ou não fosse esta a melhor forma de percebemos a qualidade da comida de um lugar. Felizmente, os meus amigos alemães respeitam aqueles que escolheram o seu país para viver e valorizam aquilo que têm para lhes oferecer.





















Depois destes dias longe, sem as minhas rotinas, melhor dizendo, sem as minhas rotinas habituais, estou de volta. À minha casa, aos meus rapazes, aos meus gatos. Estou de volta à minha cozinha. Soube-me bem voltar a acender o forno para um bolo. Faz qualquer coisa com Nutella. O resultado foi este bolo, uma receita sem glúten da Nigella Lawson, do livro Prazeres Divinos.
Fica a seleção possível das fotos das viagens. E a receita do bolo. 
Uma boa semana.



Bolo de avelã


Ingredientes para o bolo:
6 ovos grandes, separados
1 pitada de sal
125 g de manteiga
400 g de Nutella (1 frasco grande)
1 colher de sopa de Frangelico, rum ou água (usei Frangelico)
100 g de avelãs moídas
100 g de chocolate negro, derretido

Ingredientes para a cobertura:
100 g de avelãs (descascadas)*
100 ml de natas para bater
1 colher de sopa de Frangelico, rum ou água (usei Frangelico)
100 g de chocolate negro

Numa tigela grande, bater as claras com o sal, até ficarem firmes, mas não secas. 
Noutro recipiente, bater a manteiga com a Nutella. Depois, envolver o Frangelico, as gemas e as avelãs moídas. Envolver o chocolate derretido, misturado com uma colher de natas batidas, no preparado. Juntar as claras batidas, envolvendo com cuidado, para não tirar o ar.
Levar ao forno, pré-aquecido a 180 graus, numa forma de fundo amovível de 23 cm, untada e polvilhada com farinha (costumo forrar o fundo com papel vegetal e depois untar e enfarinhar, para não correr riscos), cerca de 40 minutos. Deixar a arrefecer e preparar a cobertura.
Numa frigideira, tostar as avelãs, de modo a que os aromas se libertem e os frutos estejam castanho-dourados em algumas partes. Transferir para um prato e deixar arrefecer (Muito importante não colocar as avelãs quentes sobre a cobertura de chocolate, para que esta não fique oleosa!).
Numa caçarola de fundo grosso, aquecer, em lume brando, as natas, o licor e o chocolate picado. Quando o chocolate tiver derretido, retirar a caçarola do lume e deixar arrefecer.
Colocar a cobertura sobre o bolo e decorar com as avelãs tostadas, inteiras.

*Para descascar as avelãs, costumo levá-las ao forno e deixá-las tostar ligeiramente. Depois, coloco-as num pano e esfrego-as, para que a casca se solte.


domingo, 5 de fevereiro de 2017

Sol. Flores. Ondas. E o bolo Floresta Negra do Harald.

A inconstância do tempo é uma das principais características das nossas ilhas. Nos Açores, temos as 4 estações num só dia é uma frase que se ouve com frequência. Talvez seja exagero, mas a verdade é que nem sempre é fácil escolher o guarda-roupa ou pensar com segurança em atividades ao ar livre. 
Janeiro foi um mês bom. Dias lindos, não diria de verão, mas de uma primavera suave e amena. Arco-íris belíssimos, de cores bem definidas. Nasceres e pores do sol quentes e dourados. No meio da azáfama dos dias, os espetáculos da natureza tinham ainda um sabor mais especial. Janeiro foi um mês cheio, muito cheio. E a visão da lua refletida no mar a caminho da escola ou de um arco-íris a emoldurar a nossa casa ao chegarmos do trabalho tinha um sabor a tréguas. Um bálsamo que nos acalmava antes ou depois de um dia de trabalho nem sempre prazeroso.
Já fevereiro anda indeciso. Depois de alertas vermelhos e ondas altas que ameaçam entrar pela terra, dias soalheiros de quase verão. Ontem, aproveitámos para andar lá fora a fotografar, bem dispostos.  Cada vez mais me deixo influenciar pelo tempo, pela cor do céu. Em dias cinzentos, também eu tendo a acinzentar-me. Por mais que tente resistir, recorrendo a todas as coisas que me fazem bem, em dias como o de hoje, há uma melancoliazinha que não me larga. Os rapazes riem-se de mim. Com razão, devo admitir. E eu calo-me e recolho-me. Afinal não têm culpa de o tempo e eu andarmos cinzentos. Enquanto veem um filme antigo, de astronautas, eu venho aqui. Há muito que não vinha e estava com saudades. 
Ficam imagens do sol e da lua. E das ondas agrestes de há uma semana.  Do Vicente e da Leia. E das flores. Das do jardim e das de casa. Das que estão na jarra e de outras, ainda de janeiro. 
















Hoje, a receita não é minha. É do meu amigo alemão, que nos visitou na passada semana. No meio de muito trabalho, ainda houve tempo para irmos para a cozinha. Este é um bolo demorado, feito por etapas. Acompanhei o processo, observando as mãos experientes do Harald, que diz já ter feito mais de cem bolos destes. Perante tamanha perícia, limitei-me a fotografar os vários momentos e a escrever a receita para a poder partilhar convosco. Qualquer dia aventuro-me sozinha. Se o experimentarem antes de mim, contem tudo, sim?


Bolo Floresta Negra


1.º Bolo:
160 g de farinha
80 g de açúcar
1/2 colher de chá de fermento
80 g de manteiga sem sal
1 ovo
1 pacote de açúcar baunilhado
raspa de limão a gosto
25 g de cacau 

Bater tudo com a batedeira. Colocar numa forma de mola, pressionando com as mãos,  e levar ao forno a 200 graus, cerca de 20 minutos. (Este bolo deve ser feito no mínimo dois dias antes da montagem do bolo final, pois fica mais macio.)


2.º Bolo:
4 ovos
175 g de açúcar
1 pacote de açúcar baunilhado
raspa de limão a gosto
75 g de farinha
75 g de Maizena
30 g de cacau
1 colher de chá (rasa) de fermento

Bater os 4 ovos. Adicionar açúcar, aos poucos, até obter um creme. Acrescentar o açúcar baunilhado e a raspa de limão. Aos poucos, sem mexer muito, misturar 75 g de farinha, a Maizena, o cacau e o fermento.
Colocar a mistura na forma de mola, forrada com papel vegetal, e levar ao forno a 175 graus, durante 20 a 25 minutos (fazer o teste do palito para verificar a cozedura).

Recheio de cerejas:
Descaroçar 600/700 g de cerejas pretas (segundo o Harald, TÊM de ser pretas, caso contrário, não é black forrest.). Juntar-lhes 60 g de açúcar e levar ao lume a ferver. Deixar de infusão até arrefecer. Coar o sumo e cozinhá-lo com 250 ml de água. Deixar ferver e adicionar 30 g de Maizena, dissolvida num pouco de água. Deixar engrossar um pouco e juntar as cerejas. Acrescentar 4 colheres de sopa de Kirchwasser (aguardente de cereja). Deixar no frigorífico de um dia para o outro.

Montagem do bolo:
Começar por bater 750 g de natas com 3 pacotes de açúcar baunilhado e 3 pacotes de fix chantilly (bater por duas vezes, pois são muitas natas).
Cortar o 2.º bolo ao meio.
No prato de servir, colocar o 1.º bolo e regá-lo com um pouco de Kirchwasser. Sobre este, colocar metade das cerejas e um pouco de natas batidas, como se pode ver na foto. Colocar a primeira parte do segundo bolo, mais uma camada de cerejas e natas e cobrir com a segunda parte do bolo.
Cobrir tudo com a segunda porção de natas. Decorar com chocolate em lascas. Com um saco de pasteleiro, fazer flores no topo do bolo e decorá-las com cerejas cristalizadas.

 






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