Depois de uns anos em que os
ânimos acalmaram, a polémica voltou. A Bimby e os seus utilizadores
voltaram a ser apedrejados em praça pública. Desta vez, foi uma opinião no Wall Street Journal
a despoletar a polémica. A senhora jornalista lançou a pergunta e o povo,
portugueses incluídos (ou principalmente), apressou-se a responder: os
portugueses não resistem a uma moda, todos querem ter um gadget igual ao
do vizinho do lado. Cambada de invejosos acéfalos!
Há quase três anos, escrevi um texto sobre o tema, que não publiquei na altura, e que me apeteceu recuperar hoje, depois de ter lido tantos comentários desagradáveis por parte de gente que adora alimentar maledicências. O caso Judite já passou, a novela Bárbara / Carrilho parece que está resolvida, há que arranjar nova polémica. Desta vez, não contra uma pessoa, mas contra uma máquina e aqueles que trabalham com ela.
Um bicho chamado Bimby
Há muita gente que nutre um
odiozinho de estimação pela Bimby. Normalmente,
pessoas que não têm a máquina. Ou que nunca trabalharam com uma. Ou que nunca
viram uma.
A Bimby é só uma máquina. Uma máquina muito boa, mas uma máquina. Por isso, não compreendo um ódio tão grande por um objeto. É que nalguns casos o ódio é tão fervoroso que me leva a pensar se não será um desejo disfarçado. Nota-se uma
grande falta de respeito por parte de muita gente que não a tem, com
argumentos ocos que, mais do que atacar um eletrodoméstico, visam atacar
quem trabalha com ele:
1. É muito cara. É feita de ouro? - quanto a este, não posso contra-argumentar. É cara. No entanto, se for bem aproveitada, e impedir pizzas encomendadas, refeições pré-congeladas e almoços no restaurante da esquina, nem é assim tão cara. Será cara, se o utilizador não a rentabilizar.
2. A comida sabe mal. - A Bimby
não faz milagres. Se a comida for mal temperada, claro que sabe mal. Mas a
comida feita no fogão também, certo?
3. Eu gosto mesmo de cozinhar, logo não preciso de Bimby. – Eu gosto muito de cozinhar, mas, depois de um dia de trabalho, a
vontade por vezes não é muita. Sabe-me bem chegar a casa, pôr a sopa a fazer e,
em simultâneo, cozinhar o resto do jantar a vapor, na varoma. Simples, rápido e
saudável. Nos dias em que estou mais inspirada, aproveito a máquina para fazer
algo mais elaborado, de forma menos trabalhosa. E sei que tudo fica perfeito! Basta vermos os muitos chefs que se
renderam à máquina. Se calhar não gostam de cozinhar…
4. A Bimby limita a criatividade. - Se o cozinheiro seguir sempre cegamente as receitas, sim. Se, porém, encarar a máquina como uma ajuda para criar aqueles pratos mais elaborados, que normalmente só comeria nos melhores restaurantes, terá o efeito contrário.
Percebo quem não tem a máquina. Porque não pode ou porque não quer. Respeito a opinião de quem vê apenas um eletrodoméstico demasiado caro e prefere investir o seu dinheiro noutras coisas. Cada um sabe de si. Só não respeito quem não respeita o outro e quem faz tudo para denegrir quem está ao seu lado. Se queremos tolerância, temos de ser tolerantes.
Passados três anos, apeteceu-me recuperar este texto, que ainda ilustra bem aquilo que penso. E porque acho que o pior nem é o artigo do Wall Street Journal. Acho que o pior são as reações de alguns portugueses, sempre à espera de mostrarem a sua superioridade intelectual. As pessoas perguntam-se, incrédulas, como, num país tão pobre, a Bimby é um sucesso de vendas (preferem chamar obsessão ao fenómeno, visto que o vocábulo, por ser pejorativo, tem mais impacto). Se calhar, por isso mesmo. Se calhar, mesmo por Portugal ser um país pobre, por as pessoas cada vez terem menos dinheiro para jantar fora, por cada vez menos encomendarem comida feita, por cada vez mais levarem comida para o trabalho. Se calhar, por uma questão de poupança, as pessoas investiram numa máquina que lhes permite gastar menos em comida. No fundo, se calhar são as pessoas a serem inteligentes e a tentarem minimizar os efeitos de uma crise que lhes tira a maior parte dos prazeres. Nós, portugueses, gostamos de comida e de reunir as pessoas à mesa e a Bimby ajuda-nos a manter isso. E não vejo mal nenhum nisso. Só bem.
Mais uma opinião, que subscrevo completamente, aqui.
E, como não podia deixar de ser, uma receita Bimby, que fez sucesso este Natal:
Chutney de cebola roxa e vinho do Porto
(Adaptado de Bimby - Dicas, truques e etc., Vorwerk)
Ingredientes:
800 g de cebola roxa, cortada em rodelas (chalotas, na receita original)
500 g de açúcar
300 g de vinagre de vinho branco ou tinto
150 g de vinho do Porto
2 tiras de casca de laranja
10 grãos de pimenta preta
2 cravinhos-da-índia
Preparação na Bimby:
Coloque no copo todos os ingredientes e programe, sem o copo de medida, 35 minutos, varoma, velocidade colher inversa. Coloque o cesto sobre a tampa para evitar o perigo de salpicos. Distribua por frascos esterilizados e feche bem.
Uma tábua de queijos e este chutney e está a festa feita.
Preparação tradicional:
Numa panela alta, coloque todos os ingredientes. Deixe cozinhar, em lume brando, até atingir o ponto desejado. Mexa de vez em quando. Distribua por frascos esterilizados e feche bem.
Desejo-vos um 2014 feliz. E tolerante. E vamos concentrar-nos nas nossas vidas. Acho que seríamos todos mais felizes.