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domingo, 19 de agosto de 2012

Dias de tempestade

O jardim está deserto. Mesa, cadeiras, almofadas e brinquedos, tudo recolhido. Há uma brisa, mas nada de invulgar nas nossas ilhas. Esperamos a chegada de mais uma tempestade. E protegemo-nos. Habituados às intempéries, aprendemos a esperá-las com serenidade. Tomamos as precauções, mas sem grandes sobressaltos. 
Enquanto esperamos, vou à horta. Colho tomates e malaguetas. E açaflor. Habituada a comprar o açaflor em lojas gourmet, este ano, pela primeira vez, o meu pai pôs umas sementinhas na terra. E, diariamente, acompanhámos o seu crescimento, curiosos por ver a planta que daria o desejado pozinho alaranjado. Quando regressámos de férias, na quinta-feira, vi as flores, que entretanto nasceram. E agora a apanha das pequenas pétalas que me tingem os dedos é uma das minhas atividades de final de tarde.  Enquanto não estão secas, costumam pernoitar na rua, na churrasqueira, para, durante o dia, secarem ao sol. Hoje, porém, ficarão cá dentro. Não vá o Gordon levá-las:)
"Tirar" açaflor é uma tarefa demorada, que exige paciência. E alguma perícia, para que os dedos evitem os espinhos que cobrem a planta. E descubro que, afinal, também eu sou capaz de tarefas desta natureza. Eu, que me julgo incapaz de desembaraçar as luzes da árvore de Natal ou os meus colares emaranhados, consigo ficar, durante bastante tempo, concentrada numa tarefa tão manual e monótona. E descubro que até gosto. Enquanto, pacientemente, arranco as pequenas pétalas e as vou colocando num vaso, os pensamentos sucedem-se. Hoje, recordei a última vez que o Gordon passou pelos Açores. Estávamos em 2006, eu morava na Graciosa e a minha amiga Emília ofereceu-me guarida, visto eu morar numa zona de perigo. Nesse ano, o Gordon desviou-se. Apenas chuva e umas rajadas de vento mais fortes. E duas amigas que conversaram até às tantas, enquanto esperavam pelo furacão que nunca chegou. Ainda hoje recordamos com carinho essa noite de espera, confidências e gargalhadas. Só espero que desta vez o Gordon também nos deixe em paz, como há seis anos.

 

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O Acre e Doce é um blogue que celebra a vida de casa, principalmente os momentos passados à volta da mesa. É um blogue de coisas que nos fazem felizes, sejam uma refeição, um filme, um livro ou um ramo de flores frescas.