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segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Um doce 2015

Este ano, quis o Natal em branco e verde. Sobre uma toalha branca, o trigo tradicional, ramos de pinheiro e muitas velas. Não foi preciso muito mais. Família reunida e comida saborosa, com influência de muitas paragens. Novamente o fiambre de Natal, bacalhau cozido e peru, recheado pela minha mãe. 




A juntar às sobremesas de sempre, o Pudim Abade de Priscos, uma receita desta minha amiga de longe. Um pudim belíssimo, com uma textura untuosa, densa e luxuosa. A receita pode ser lida aqui, pela mão da Mar. Reproduzi-a sem alterar absolutamente nada. Apenas um caramelo mais escuro, a julgar pelas fotografias. Quanto ao resto, tudo igual: as mesmas vinte e cinco gemas, a mesma quantidade de açúcar, as mesmas lascas de presunto, com a gordura a distribuir um sabor cuja origem não se consegue identificar.  E, creio, o mesmo sabor de um doce tão delicado que parece não ser feito neste mundo.



Com esta mesa branca e verde e este doce muito rico, desejo a todos quantos por aqui passam um ano muito feliz. Que a doçura, a serenidade e a esperança nunca nos abandonem.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

13

Gosto de observar as fotografias daquele dia. Folheio o álbum e revejo pessoas, recordo momentos, mato saudades. Ao longo do dia, vamos relembrando os passos que demos. Naquele dia e nos outros, depois dele.
Passaram-se treze anos. Mais de uma década. Aconteceu tanto, nestes anos. Andámos por vários lugares. Conhecemos pessoas. Perdemos outras importantes. Vejo os meus avós, na fotografia. Três deixaram-nos, entretanto. Mas estiveram lá, naquele dia. Vejo os nossos rostos mais jovens. Nós, os pais do Manel a haver. Tão felizes que estávamos. E continuamos. O essencial permanece. Enquanto o essencial permanecer, há que celebrar.

Depois de umas férias a comer muitas vezes fora de casa, optámos por celebrar com um jantar caseiro, preparado por mim. Um jantar no jardim, sob um céu muito estrelado e o espetáculo de chuva de estrelas que acontece todos os anos nesta data, como se fosse um presente para nós.
Para sobremesa, um pudim de requeijão. Depois de o ter provado num restaurante madeirense, aquando da Feira Gastronómica da Praia da Vitória, o meu marido pediu-me que o tentasse reproduzir. Uma busca na Internet mostrou-me várias receitas. Optei por esta, por ter sido aprovada por duas cozinheiras de confiança: a Margarida e a Mané. Omiti o limão, pois pretendia um sabor depurado, o mais parecido possível com o que prováramos. Não desiludiu. Talvez o melhor pudim que já comemos.

Pudim de requeijão

Ingredientes:
400g de requeijão;
6 ovos;
1 lata de leite condensado;
200 ml de natas frescas;
50 gr açúcar;
raspa de limão q.b. (não usei);
caramelo, para barrar a forma.

Preparação:
Bate-se muito bem os ovos com o açúcar, até duplicarem de volume (na Bimby, 6 minutos, velocidade 3).
Colocam-se os restantes ingredientes num recipiente e batem-se muito bem, até se obter uma massa homogénea (se tiverem liquidificador, podem utilizá-lo; se tiverem Bimby, batam durante 1 minuto, na velocidade 3).
Juntam-se os dois preparados e envolvem-se bem.
Unta-se uma forma com caramelo e verte-se o preparado.
Aquece-se o forno a 180 graus e coloca-se água num tabuleiro. Leva-se o pudim ao forno a cozer, em banho maria, durante aproximadamente uma hora (utilize a técnica do palito, se tiver dúvidas quanto à cozedura).
Deixa-se arrefecer dentro do forno. Desenforma-se e leva-se ao frigorífico.


domingo, 20 de maio de 2012

Uma flor branca para um escritor tatuado

Tinha de ser ele o meu convidado. Por todas estas razões, não podia ser mais nenhum.
Quando o convidei, aceitou prontamente. Com a simplicidade e humildade que o caracterizam. Atrasou-se um pouco. Desculpe o atraso. Encontrei leitores, ficámos na conversa. Claro que ficaram. Ele é mesmo assim. Longe da imagem de escritor inacessível, que fica a escrever e a fumar cachimbo no alto do seu pedestal, José Luís Peixoto abraça os leitores. Ouve-os. Comove-se com eles. Dá-se. 
Ao vê-lo, todo vestido de preto, tatuagens e piercings, quase consegui adivinhar as conversas dos vizinhos, ao verem-no entrar:  Aquela casa está cada vez mais mal frequentada :)
Durante o jantar, conversámos muito. Falou-me sobre a infância em Galveias, sobre os filhos, sobre a época em que deu aulas. Nos gostos musicais, divergimos. Apesar de me considerar uma pessoa com gostos bastante ecléticos, metal pesado não faz parte da minha cultura musical. Ele, por sua vez, adora. Falou-me dos Moonspell e tentou fazer-me perceber a beleza da sua música. Não me convenceu. Curiosamente, pouco falámos dos seus livros. Falámos de livros de outros. Recordou a emoção que sentiu quando conheceu Saramago, depois de ganhar o prémio com o seu nome. Falámos da nova geração de escritores portugueses: Valter Hugo Mãe, Gonçalo M. Tavares, João Tordo... Elogiou-os. Genuinamente. Nem uma pontinha de competição, algo a que escritores de outras gerações nos habituaram. E ouviu-me. Quis conhecer-me. Muito longe do escritor que acha que só ele tem interesse. Enterneceu-se quando se apercebeu de que o Manel já conhece A mãe que chovia, a sua estreia na literatura infantil. 
Como sobremesa, servi-lhe uma flor de chocolate branco. Nada me pareceu mais adequado a José Luís Peixoto. Uma flor delicada, a contrastar com o negro do fundo. Se bem que, no caso dele, será mais o contrário: um fundo delicado, mascarado numa aparência negra.

Pudim de chocolate branco com cuajada
600 ml de leite
2 pacotes de cuajada
120 g de chocolate branco
1 pacote de açúcar baunilhado

Preparação (Bimby):
Colocar todos os ingredientes no copo da Bimby e programar 10 minutos, 90 graus, velocidade 3. Verter para a forma e levar ao frigorífico para solidificar.

Preparação tradicional (não testada):
Partir o chocolate em pedaços e levar ao lume (brando), juntamente com os restantes ingredientes, mexendo, até obter um creme homogéneo. Verter para a forma e levar ao frigorífico para solidificar.


Partilho convosco mais um dos seus textos sublimes. Daqueles escritos com o coração. Daqueles que nos deixam com um nó na garganta e a pensar que deve ser mesmo isto que se sente.

Desmantelamento de um rio
Arranco os autocolantes da parede do quarto do nosso filho,
como se a faca eléctrica da cozinha me atravessasse o braço.
Sou eu que apago os seus desenhos na parede. Não são riscos,
são desenhos. Há lápis de cera espalhados e partidos pelo chão.
Depois de nós, esta morada terá outros nomes e chegarão cartas
pacientes à caixa do correio. Agora, são impossíveis de imaginar,
como o nosso ontem será impossível de imaginar. Foi aos poucos
que ficou apenas o sofá e as recusas e os armários esventrados.
Foi muito demoradamente que chegaram as noites em que durmo
no sofá, sob um cobertor oferecido pela minha mãe ou pela tua.
Por fim, tenho tempo para habituar os olhos às sombras e avaliar
a devastação, acordar com o frio da madrugada, o esquecimento,
e assistir àquela hora azul em que já não é de noite, mas em que
ainda falta tanto para ser de dia. Despejo no fundo de um saco
tudo o que está naquela gaveta que nunca ninguém arrumou.
À minha volta, há caixotes que servem para guardar os livros,
já estão divididos. Escolho o lugar para pousar os pés. Fizemos
coisas nesta sala vazia, tivemos pensamentos, aprendemos
alfabetos. Resta-me agora o que sempre tive e, como se caísse
desamparado na banheira, prossigo e continuo o meu trabalho,
como se batesse com a cabeça na esquina de uma gaveta,
prossigo e continuo o meu trabalho.

       José Luís Peixoto, in Gaveta de Papéis

Com esta receita, participo em mais uma edição do passatempo "Convidei para jantar...", a decorrer, desta vez, no  blogue De cozinha em cozinha passando pela minha
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O Acre e Doce é um blogue que celebra a vida de casa, principalmente os momentos passados à volta da mesa. É um blogue de coisas que nos fazem felizes, sejam uma refeição, um filme, um livro ou um ramo de flores frescas.