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domingo, 27 de janeiro de 2019

Citrinos. E uma receita de ervilhas.




Tu agora pões laranja em tudo?, perguntou o meu marido, depois de ter levado com comida temperada com laranja pela terceira ou quarta vez numa semana. De facto, tenho abusado um bocadinho. Laranjas, tangerinas, limões. Para além do sabor, são lindos! Na árvore ou numa taça, como decoração. Não há nada mais bonito no centro de uma mesa. 
Há dias li que o cheiro dos citrinos tem propriedades calmantes, que basta uma inalação rápida para despertar em nós sensações de bem-estar. Acho até que vou começar a levar taças com limões para aquelas reuniões demoradas. De vez em quando, uma snifadela no limão. Não me parece mal. Quando alguém se exaltasse, oferecíamos-lhe delicadamente uma rodelinha de limão. Olha, cheira lá isso um bocadinho que passa! Ou quando fôssemos nós os exaltados. Quando nos sentíssemos à beira do ataque de nervos, recorreríamos à fiel rodelinha de limão. Pensando bem, talvez seja meio estranho andarmos a cheirar limão. Mas podemos sempre recorrer ao correto chá. Acho que vou experimentar um destes dias.
O que trago hoje é daquelas receitas simples, que faço imensas vezes, à qual acrescentei ontem o twist da laranja. Gostei imenso do contraste. Convém irmos provando, à medida que vamos raspando, para adaptarmos a quantidade ao nosso gosto. É um acompanhamento fácil e muito rápido. Havendo um saco de ervilhas no congelador, em 15 minutos, está feito. Estas acompanharam uma coxa de pato confitado, juntamente com puré de batata. 

Ervilhas com laranja


1 kg de ervilhas congeladas
3 colheres de sopa de azeite
1 cebola média, picada
2 dentes de alho, picados
1 colher de sopa de pasta de tomate
1 colher de sopa de molho inglês
1/2 dl de vinho branco
sal e pimenta preta a gosto
raspas de laranja (opcional) - quando não uso, tempero com uma folha de louro

Refogar a cebola e o alho no azeite até a cebola estar translúcida. Juntar a pasta de tomate e o molho inglês. Mexer e deixar apurar cerca de 1 a 2 minutos (dependendo da pressa). Acrescentar as ervilhas,  o louro (se usarmos), regar com o vinho, tapar o tacho e deixar cozinhar cerca de 10 minutos, em lume brando. Temperar com sal e pimenta. No fim, acrescentar as raspas de laranja e servir.




Ficam ainda fotografias do meu fim de semana. Um sábado de sol, que me pôs a sonhar com a primavera. Um dia dedicado aos pequenos prazeres. Portas abertas, gatos na relva, flores frescas na jarra e comida boa na mesa. What else? 









Desejo uma boa semana a quem por aqui passa!


domingo, 14 de outubro de 2018

Todos os dias. E umas espetadas em pau de loureiro.


Todos os dias, notícias devastadoras. As de longe, que passam nas televisões e que lemos nos jornais. E as outras, que chegam de perto. As que vamos sabendo por amigos e conhecidos. Mais um divórcio, mais alguém com uma doença grave, mais um suicídio. E depois ouvimos as pessoas a queixarem-se da vidinha. Da vida de todos os dias. Com mais ou menos argumentos, que quem sou eu para julgar as razões dos outros. Mas, no meio de tudo, a certeza: cada vez mais, há que aproveitar todos os dias. À medida que os anos passam, mais ainda. Não passar a vida à espera. À espera do fim de semana. À espera das férias. À espera do feriado que há de vir. Há que tornar bonitas as coisas de todos os dias. Mesmo que nem sempre o sejam. Fazer o que temos ao nosso alcance para tornar agradáveis os lugares onde permanecemos. Pode ser uma jarra com flores e uma vela no local de trabalho, uma coisa doce partilhada com colegas, uma piada entre trabalho sério e por vezes maçador. Há situações em que é preciso misturar as coisas. Se houver boa disposição, a produção é maior. Penso assim. Nas aulas, o mesmo. Não é por haver música e gargalhadas que os alunos não aprendem. Se calhar aprendem melhor, com mais gosto. E assim não nos arrastamos todos os dias. Deve ser triste, passar cinco dias à espera de dois. E onze meses à espera de um. Tenho tentado encher os meus dias com coisas que me fazem bem. Com aquelas coisas que faço só porque sim, porque apetece, porque limpam a cabeça, porque eliminam a sensação de que se vive  só para o trabalho. Pode ser colher maçãs no jardim ou agarrar nas agulhas esquecidas e recomeçar a tricotar ou beber uma Brianda com os meus pais depois do trabalho ou rir ao telefone com a minha amiga mais antiga e perceber que continuamos iguais ou ir ao cinema com o meu marido ou conversar sobre pequenos nadas com o Manel ou ficar simplesmente a ouvir os meus gatos a ronronar. 
Mesmo que o trabalho seja muito, há sempre tempo livre. O que fazemos com ele é escolha nossa. E eu escolho aproveitá-lo o melhor que posso. Muito dele é passado na cozinha. Ontem, depois de uma caminhada por Angra, seguida de um café acompanhado de conversas sérias e gargalhadas com amigas, cheguei a casa e preparei estas espetadas, inspiradas nas férias da Madeira do ano passado. Se há forma de prolongarmos as nossas viagens é através da comida. Há sempre qualquer coisa que vem connosco. O meu pai deu-me louro e lembrei-me de o usar TODO. O resultado foi uma refeição muito saborosa, bastante elogiada pelos meus rapazes.


Espetadas de vaca 
em pau de loureiro

Ingredientes para três:
3 bifes da alcatra, cortados ao meio, no sentido longitudinal (prefiro assim, em vez dos tradicionais cubos de carne)
6 dentes de alho
sal a gosto
3 folhas de louro grandes, sem o veio central e cortadas em pedacinhos
azeite para regar as espetadas

Preparação:
Com uma faca, aparar os veios dos ramos do loureiro e cortar as pontas, de modo a que fiquem mais aguçadas, logo, mais fáceis de usar.
Num almofariz, esmagar o alho, o sal e o louro. Barrar os bifes com esta pasta e espetá-los nos paus de loureiro, dobrando-os em forma de S (gostava de ser mais precisa, mas foi a melhor descrição que consegui). Regá-los com azeite e grelhá-los, num grelhador a carvão, bem quente, para caramelizarem por fora e ficarem tenros por dentro.
Acompanhei não com os tradicionais fritos de milho madeirenses, mas com batatas assadas e salada verde.





Boa semana! Que seja cheia de pequenos prazeres.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

A Grécia. E uma receita de moussaka.

Uma parte importante das viagens é o que trazemos connosco. Não falo dos souvenirs que vêm na mala. Falo de outra coisa. Daquelas coisas que não se podem comprar, que incorporam os nossos dias, a nossa maneira de estar e de ver o mundo. Falo daquelas coisas que não encontramos em resorts de pulseira, iguais em toda a parte, quer seja na Ásia ou nas Caraíbas. Falo de experiências que só se podem ter naquele lugar. Mais ou menos lúdicas. Mais ou menos dolorosas. Viagens que, por razões diferentes, nos acompanham para sempre e que, se a memória não nos atraiçoar pelo caminho, farão parte de nós até ao fim dos nossos dias. 
Uma das viagens que fiz enquanto esta casa esteve fechada foi à Grécia. E apaixonei-me por este país. Para começar, pisar toda aquela História que estudámos na escola é uma experiência difícil de descrever. Passear pela Acrópole, tocar no lugar onde começou a democracia, caminhar pelo estádio dos primeiros Jogos Olímpicos são daquelas coisas que ficam guardadas, que não se esgotam no momento em que as vivemos. Ainda assim, quando penso na Grécia, não é a parte histórica a primeira que me ocorre. São as pessoas, a comida e aquela forma alegre de estar, não tão diferente da nossa. Somos do Sul, com tudo o que isso implica. E a identificação é imediata. É a gargalhada sonora, são as horas passadas à mesa, a comer com tempo, a apreciar os alimentos. Não é a refeição rápida, em meia hora, como nos países mais acima, onde não se perde tempo, seja lá isso o que for. Na Grécia, como em Portugal, ganha-se tempo à mesa. (Cá diz-se que à mesa não se envelhece. Ainda hei de perguntar aos meus amigos gregos se têm um ditado semelhante.) As iguarias vão desfilando. Pão, vinho, azeitonas, azeite, tomates muito vermelhos e saborosos. É o cheiro dos orégãos, do endro e da canela. Uma festa para quem gosta de comer e de fazer comida. 
































Apesar de já ter passado algum tempo desde que visitei a Grécia, os efeitos na minha cozinha mantêm-se. Não falo só das azeitonas e de outros produtos que trouxe na bagagem. Falo da minha forma de cozinhar. Apaixonei-me pela comida grega, pela sua simplicidade e produtos frescos.
Se para qualquer pessoa visitar Kalamata é uma viagem de sonho, para quem gosta de fazer comida, mais ainda. Em Kalamata, as oliveiras convivem com as águas transparentes em tons de azul. Adornam jardins, praias e ruas. Estão por todo o lado. E isso contagia-nos. Azeitonas, feta e tomate  já faziam parte das minhas listas de compras. Ainda assim, não eram daqueles ingredientes permanentes, com o estatuto dos ovos e do leite. Agora são. A salada grega (que aparecerá por aqui em breve) passou a fazer parte dos nossos dias. O molho tzatziki tornou-se presença ainda mais assídua. 
A receita que hoje partilho convosco faz parte de um dos livros que habitam a minha estante. Muito aromática, é uma receita com influência do país vizinho, a Turquia. Estava ali há anos e nunca lhe tinha prestado atenção. Foi preciso ir à Grécia e comer Moussaka (que aprendi que se acentua na última sílaba e não na penúltima, como pensava) para experimentar. A minha versão leva carne de vaca, em vez de borrego. Gostei imenso. Pode parecer presunçoso, mas acho que ainda ficou mais saborosa do que a que comi lá :)


Moussaka

Ingredientes para 6 pessoas:
3-4 colheres de sopa de azeite + um pouco para untar a assadeira e regar a beringela
3 cebolas grandes, picadas
4 dentes de alho, picados
1 kg de carne moída (borrego, na receita original)
sal e pimenta preta
200 ml de vinho tinto
4 colheres de sopa de pasta de tomate
2 latas de 400 g de tomate pelado
2 paus de canela
1/2 colher de chá de pimenta da Jamaica, moída
1 colher de sopa de orégãos secos
2 beringelas grandes

Para o molho de queijo:
75 g de manteiga
75 g de farinha de trigo
150 g de cheddar ralado (usei 75 g de mozzarella e 75 g de parmesão)
600 ml de leite magro
2 ovos, batidos

Preparação:
Num tacho largo, aquecer o óleo, em lume brando, juntar as cebolas e os alhos e deixar cozinhar, até amolecerem e alourarem ligeiramente.
Aumentar ligeiramente o lume, juntar a carne e deixar cozinhar até que esteja acastanhada, mexendo de vez em quando. Adicionar o vinho e deixar ferver até que este esteja quase todo evaporado. Juntar a pasta de tomate, o tomate pelado, a canela, a pimenta da Jamaica e os orégãos. Deixar cozinhar, em lume brando, 30 a 35 minutos, mexendo de vez em quando.
Entretanto, cortar as beringelas em rodelas de 1 a 1,5 cm de espessura. Regá-las generosamente com azeite e temperá-las com um pouco de sal e pimenta.
Numa frigideira grande, fritar a beringela, em lume forte, 2 minutos de cada lado, até alourarem (será necessário repetir a operação, pois as fatias não devem ficar sobrepostas).
Aquecer o forno a 200 graus. 
Entretanto, preparar o molho: derreter a manteiga numa panela não aderente, juntar a farinha e deixar cozinhar 1 ou dois minutos, mexendo com uma vara de arames. Baixar o lume e juntar o leite, aos poucos, mexendo sempre, para não criar grumos. Deixar ferver 8 a 10 minutos, em lume brando, e juntar 100 g da mistura de queijos. Retirar do lume, deixar arrefecer um pouco e misturar os ovos batidos, mexendo sempre, para incorporar bem. 
Montagem da moussaka: untar uma assadeira com um pouco de azeite; colocar no fundo um terço da beringela; retirar os paus de canela da carne e colocar metade sobre a beringela; regar com um terço do molho; repetir as camadas, terminando com uma de beringela e o resto do molho. Polvilhar com o restante queijo e levar ao forno 35 a 45 minutos, até estar com um aspeto acastanhado. Deixar repousar 5 minutos antes de servir.






Boa semana! Bom regresso ao trabalho, se for o caso :)


quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Vamos aos figos?

As minhas idas aos figos, com o meu pai, requerem tempo. Acabamos sempre por nos perder no pomar. Os figos são o pretexto para uma visita às outras árvores. Gosto de ver a fruta nas suas várias fases. Quase madura ou ainda jovem, à espera do outono ou do inverno. O ritmo das estações impressiona-me sempre. Olhar para os ouriços que guardam as castanhas até fins de outubro. E ver as laranjas e as tangerinas pequenas e verdes, que havemos de colher lá para o inverno. Há coisas que ainda estão certas. Por enquanto. Lemos as notícias sobre os efeitos das alterações climáticas e apercebemo-nos de que, não tarda muito, começaremos a senti-los. Por isso, os figos, nesta altura, as castanhas, no outono, e os citrinos, no inverno, são uma forma de apaziguar os nossos receios. É como se esta normalidade nos dissesse que ainda está tudo bem. Vamos fazendo a nossa parte, que sabemos que de pouco vale, e esperamos que quem manda no planeta ganhe juízo e faça alguma coisa por nós. 

Este ano, os figos estão atrasados. Ainda estão duros e enfezaditos. Pelo menos os nossos. Ainda assim, ontem, eu e o meu pai fomos tentar a nossa sorte. Entre duas figueiras, colhemos os primeiros. A safra não foi abundante, mas deu para matar o desconsolo. O primeiro foi comido ao pé da figueira, descascado à mão, tradição de que não prescindo. Alguns foram partilhados com amigas, à beira-mar, onde sabem ainda melhor. Os que restaram serão transformados em bolo. Nunca fiz bolo de figo fresco e pretendo experimentar. 











Entretanto, lembrei-me de pôr figos a adornar uma salada de fim de verão. O contraste entre o doce do figo e o salgado do queijo halloumi resultou na perfeição. Para um pouco de proteína e de cor, dois ovos cozidos, com a gema encruada. A acompanhar, um copo de vinho branco. 


Salada de verão 
com figos grelhados, ovo e queijo halloumi

Ingredientes para uma pessoa:
Alface ou mistura de folhas (usei alface roxa + folhas de manjericão)
2 ovos
3 fatias finas de queijo halloumi
2 figos 
nozes a gosto
orégãos e azeite q.b.

Para o vinagrete de mel: 1 colher de sopa de azeite; 1 colher de chá de vinagre balsâmico; 1 colher de chá de mel de rosmaninho; flor de sal e pimenta preta q.b.; cebolinho picado (opcional).





Preparação:
Comecei por cozer os ovos, segundo o seguinte método: cobri os ovos com água e deixei ferver; desliguei o fogão, tapei o tacho e deixei que os ovos cozessem durante 4 minutos (cf.  imagem abaixo); por fim, transferi-os para uma taça com água gelada, para parar a cozedura.
Entretanto, coloquei a alface e o manjericão numa taça.
Levei ao lume um grelhador, com um fio de azeite. Cortei os figos ao meio e coloquei-os no grelhador, com a parte cortada voltada para baixo. Grelhei ainda o queijo halloumi, polvilhado com um pouco de orégãos. Virei tanto os figos como o queijo e deixei que grelhassem do outro lado. 
Descasquei os ovos, cortei-os ao meio, e coloquei-os sobre a salada, bem como os figos e o queijo. Polvilhei com um pouco de nozes e verti com o molho vinagrete (para o fazer, é apenas misturar num frasco todos os ingredientes e agitá-lo bem). Finalizei com um pouco de pimenta preta, moída sobre os ovos. Simples, não?


                                                                                                           Imagem daqui
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