Este ano, pedi-lhe alcatra de peixe, um prato que ela faz como ninguém. Apesar do calor e humidade que se têm feito sentir por estes dias, a minha mãe aqueceu o forno a lenha e satisfez o meu desejo.
A alcatra é o prato mais característico da Terceira. A de vaca é a mais comum e a que está na origem das outras. Entretanto, a receita alargou-se e, neste momento, há alcatras de outros tipos de carne, como galinha, coelho e cabrito, e até de polvo e de peixe, a minha preferida.
Segundo a minha mãe, há diferentes formas de fazer alcatra de peixe (o mesmo acontece com a de vaca, cuja confeção varia de freguesia para freguesia). Há quem ponha todos os ingredientes crus no alguidar e leve ao forno. A alcatra da minha mãe (e antes, da minha avó) é feita com o peixe frito e com a cebola refogada. Menos saudável, é certo, mas quando se come alcatra não se pensa na saúde, pensa-se no sabor. Para além disso, o peixe previamente frito "aguenta-se" melhor, não se desfazendo no alguidar.
Quanto a mim, tenho de aprender a fazer os pratos tradicionais, de família. Como a minha mãe os faz como ninguém, nunca me intrometo. Mas ando com vontade de aprender a fazer a alcatra dela, a feijoada dela, o arroz doce dela, a
açorda dela, a sopa de peixe dela (que será sempre a "sopa de peixe da avó"). A minha mãe tem de me passar este legado, que não pode perder-se. Se há tradições que não me dizem nada (as touradas, por exemplo), as boas, como estas, têm de ser perpetuadas.
Para a alcatra típica, vão precisar de um alguidar próprio (roubei
esta reportagem à Elvira :) - caso não tenham, podem experimentar num tabuleiro ou caçarola, de barro, mas o sabor não será exatamente o mesmo).
Ingredientes (para um alguidar grande):
Uma mão bem cheia de banha + 1 colher de sopa
4 cebolas, picadas
1 cabeça de alho, picada
9 bolinhas de pimenta da Jamaica
2 folhas de louro
150 g de manteiga
5 colheres de sopa de polpa de tomate
1/2 litro de vinho branco
Um naco de toucinho fumado com cerca de 10 cm, cortado em cubos pequeninos
salsa q.b.
sal q.b.
Peixes variados (congro, bicuda, veja, boca negra, imperador...) - a quantidade depende do tamanho do alguidar, que tem de estar cheio de peixe, só com espaço para o molho que se acrescenta.
Unta-se abundantemente o alguidar com a banha.
Frita-se o peixe (não muito, só até que esteja douradinho) e reserva-se.
Leva-se ao lume a cebola, o alho, o louro, a pimenta da Jamaica, a manteiga e a colher de banha. Deixa-se refogar, até a cebola começar a quebrar. Junta-se o vinho branco e a polpa de tomate, tempera-se com sal e deixa-se cozinhar mais um pouco.
No fundo do alguidar, coloca-se metade do toucinho e metade do refogado. Enche-se o alguidar com o peixe. Sobre este, põe-se o resto do toucinho e do refogado. Distribuem-se raminhos de salsa, como podem ver na foto, e leva-se ao forno (de preferência, a lenha), até que tenha um aspeto tostado. No forno a lenha, a minha mãe começa por cobrir o alguidar com papel de alumínio e só o retira a meio da cozedura. Caso façam a alcatra no forno elétrico ou a gás, podem começar com uma temperatura mais alta e, quando a alcatra ferver, reduzi-la. Em ambos os casos, esta alcatra não fica no forno muito tempo, uma vez que o peixe já está semi-cozinhado. Fica apenas o tempo necessário para adquirir um tom dourado e cozer o vinho (caso o acrescentem).
Notas:
1 - Antes de pôr a alcatra no forno, se acharem que tem pouco molho, podem acrescentar vinho branco, até cobrir o peixe. É difícil precisar as quantidades exatas, pois estas dependem de vários fatores, como o tamanho dos peixes e do alguidar, por exemplo.
2 - Tradicionalmente, a alcatra é acompanhada apenas com pão. No entanto, pode ser acompanhada com batatas cozidas ou até arroz branco.