Berlim não é uma cidade fácil. Talvez os anos aligeirem um bocadinho o peso da História. Por enquanto, é tudo muito recente. E quando se visita a cidade pela mão de alemães, que nos vão narrando as suas vivências na primeira pessoa, custa ainda mais. Se tivesse ido enquanto turista, acredito que não me teria sido tão penoso. Mas é diferente visitar Berlim guiada por quem viveu a História e nos conta como foi viver numa cidade dividida. Gelámos ao ouvir a história do jovem Peter Fechter, abatido ao tentar atravessar o muro, pela boca do nosso colega Harald, que se recorda de ser criança e ficar impressionado com a violência daquela morte exibida nas televisões. E as recordações do Martin, de apenas 29 anos, que viveu do lado Leste e se lembra vagamente de ir perto do muro receber presentes dos tios que viviam do outro lado.
Mais difícil ainda é o Memorial do Holocausto. À primeira vista, apenas um monumento moderno, feito para homenagear as vítimas daquele que ficou na História como o ato mais tirano de sempre. Muito mais do que isso. Lá dentro, cai-nos a História em cima. Um efeito avassalador, o daquele monumento. O Harald aconselhou-me, no seu inglês cheio de sotaque: Go inside. Go alone. And feel it. Lá dentro, chora-se por aquela gente. No meio daquelas lajes de betão, sentimos (ou imaginamos o que terão sentido) um bocadinho da perplexidade, da solidão, da impotência daqueles que viveram o pior que se pode viver. Depois de sairmos, continuámos em silêncio. Com um nó na garganta, visitámos o Reichtag, o portão de Brandemburgo e outros pontos emblemáticos da cidade. E fomos ouvindo mais relatos. Desta vez, das nossas colegas polacas, que nos falavam das suas infâncias difíceis e de como as mães tudo faziam para que elas sentissem o menos possível o peso do regime. Comparadas com as suas experiências, os relatos dos meus pais sobre o tempo de Salazar soam a contos de fadas.
Berlim é uma cidade cosmopolita e moderna, especialmente bonita nesta altura, com o colorido outonal característico dos países do Norte. Ainda assim, há uma sombra que paira. Só se dissipou quando entrámos no calor deste pub e pedimos uma refeição típica, acompanhada de uma cerveja preta artesanal. Aí a angústia deu lugar à alegria e à boa disposição. Talvez tenha de voltar a Berlim um dia e conhecer melhor o lado mais descontraído da cidade.
Berlim é uma cidade cosmopolita e moderna, especialmente bonita nesta altura, com o colorido outonal característico dos países do Norte. Ainda assim, há uma sombra que paira. Só se dissipou quando entrámos no calor deste pub e pedimos uma refeição típica, acompanhada de uma cerveja preta artesanal. Aí a angústia deu lugar à alegria e à boa disposição. Talvez tenha de voltar a Berlim um dia e conhecer melhor o lado mais descontraído da cidade.





