quinta-feira, 11 de julho de 2013

Ervilhas e memórias

Enquanto debulho ervilhas com o meu filho, recordo a minha avó. Era uma tarefa nossa. Passávamos tardes inteiras naquilo. Tardes de um trabalho saboroso, feito de cumplicidades. Tardes de histórias e de versos que ela sabia de cor. Falava-me da sua infância, de como no tempo dela é que era, dos namoros tão diferentes dos de hoje em dia, das coisas que aprendera nos quatro anos de escola primária. E das outras que a vida lhe ensinara. Ouvia-a, embevecida. Enquanto ela falava, eu visualizava as estradas de terra batida do tempo dela, com grupos de meninos descalços e calças de cotim, a jogar à bola. E ouvia os pregões dos amoladores de tesouras e dos buzinas*. E dos vendedores de décimas. O que é uma décima, vó? E ela explicava-me que décimas eram poemas, agrupados em conjuntos de dez versos (desconhecia o termo estrofe), que contavam histórias tristes e que eram vendidos porta a porta (nunca falo de décimas aos meus alunos sem que me lembre da minha avó). E falava-me dos amores de D. Pedro e D. Inês, uma das histórias mais comoventes que já lera. E eu deixava-me embalar, enquanto íamos enchendo a pana** de ervilhas. Assim custava menos. Era uma boa contadora de histórias, a minha avó. Contou-me como, aos seis anos, escapara por milagre à peste, que vim a perceber, anos mais tarde, tratar-se da gripe espanhola, doença que vitimara o meu bisavô paterno e deixara o meu avô sem pai aos dois anos. E contou-me como a minha bisavó enviuvara aos 28 anos e não voltara a vestir outra cor que não preto e como nunca mais conhecera qualquer tipo de diversão. Naquele tempo era assim. Uma viúva morria para o mundo. E lembro-me de ter muita pena da minha bisavó, que morreu quando eu tinha três anos, e de quem apenas tenho uma recordação muito desfocada. 
Nessas tardes quentes de verão, a minha avó dava-me conselhos, que eu nem sempre recebia bem. Ó vó, agora as coisas são diferentes!  Como pode achar isso, vó? E desentendíamo-nos, às vezes. Na minha adolescência, deixei de achar piada a debulhar ervilhas com a minha avó. E os seus conselhos pareciam-me despropositados e desajustados do tempo. Alguns eram, de facto. Outros, não. Agora vejo que, em muitas das coisas que dizia, a minha avó tinha razão. Descobri com os meus erros, que confirmaram que ela estava certa. Faz parte. Faz parte da adolescência ignorar conselhos dos mais velhos para se descobrir mais tarde que estavam cobertos de razão.
Ao debulhar ervilhas com o meu filho, recordei a minha avó. A minha avó que, ao invés de mim, que puxo o fiozinho da vagem antes de a abrir e retiro os grãozinhos a eito, partia a dela a meio, e deixava os grãos cair, de forma aleatória. Enquanto via o Manel partir a vagem segundo a técnica da bisavó que nunca conheceu, falei-lhe dela. Ele ouviu-me, atentamente. E quis saber coisas sobre a avó da mãe. Tens muitas saudades dela, mãe? E eu respondi-lhe que sim. Muitas.


* Segundo a minha avó, os buzinas eram homens que percorriam a ilha e compravam produtos hortícolas, ovos, aves, etc. O nome deve-se ao facto de tocarem uma buzina, para se fazerem anunciar.
** pana - deturpação da palavra pan (inglês), que significa bacia. Esta é uma das muitas palavras importadas do inglês e integrada pelos habitantes da Terceira.

Com as ervilhas novas e tenras, acabadas de debulhar, a minha avó faria uma sopa, aromatizada com rodelas de linguiça e servi-la-ia numa terrina cheia de fatias de pão. Demasiado pesada para mim. Fiz um creme leve e juntei-lhe um ingrediente de que ela nunca ouviu falar: pastinaca. Ela teria gostado de o conhecer. A minha avó gostava de conhecer coisas novas. Acho que herdei isso dela. E muito mais.

Creme de ervilhas e pastinacas
150 g de pastinacas
250 g de ervilhas
1 nabo pequeno
1 curgete pequena, descascada
1 cebola grande
1 alho francês
30 g de azeite
1 raminho de hortelã
caldo de galinha q,b, (cerca de 1 litro)
sal
natas magras q.b. (facultativo)


Preparação:
Fazer um refogado com a cebola, o alho francês e o alho, cortados em rodelas, e o azeite. Juntar as  ervilhas, as pastinacas, a curgete e o nabo, cortados em pedaços pequenos. Cobrir com o caldo de galinha, juntar a hortelã e o sal, e deixar cozer. No fim, triturar com a varinha mágica ou com um robot de cozinha. Servir com uma colher de chá de natas magras (opcional).

11 comentários:

  1. e como sempre cá estou eu... deliciada a ler e a ver as imagens e a ler de novo... gosto da escrita, das descrições e das fotos maravilhosas (quase quase que se consegue sentir o cheirinho daqui ...)

    boa noite ;)

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  2. Que maravilha de cremesinho e que delicia de fotos.
    Bom fim de semana
    Kiss, Susana
    Nota: Ver o passatempo a decorrer no meu blog:
    http://tertuliadasusy.blogspot.pt/2013/07/4-edicao-do-projeto-escolha-do.html

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  3. adoro pastinagas e tenho pena de nem sempre as conseguir encontrar. Tenhos que experimentar este creme :)

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  4. Um creme delicioso assim como todo o teu post

    beijinho e bom fim de semana!

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  5. Belas e doces memórias :)
    Adoro descascar ervilhas com a minha avó, se bem que ela tem uma paciência maior que eu para as coisas.
    Gosto de ler os teus textos, e identifico-me com tanto que falas.
    Adoro sopa de ervilhas e adorava provar pastinacas! :)
    Um beijinho.

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  6. Querida Ilídia
    Invariavelmente, quando escreves sobre a tua avó, os textos são tão emotivos e poéticos que eu esqueço-me que este é, essencialmente,um blog de culinária.
    Um abraço de boa semana.
    Guida

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  7. Muito obrigada a todas pelos vossos comentários.
    Beijinhos para todas,
    Ilídia

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  8. É um dos rituais. Parece cansativo e repetitivo. Mas é tão denso. Enquanto fazemos uma coisa com as mãos, o nosso espírito eleva-se. Ou volta para trás nas memórias. Como aconteceu contigo. Que regressaste à tua avó. Às palavras. Ao colo. Com o teu filho. Muito lindo, minha Ilídia. Muito cheio.

    Um beijo.

    Mar

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    Respostas
    1. Nada cansativo, este ritual. Não para mim. Naquele sábado, soube-me particularmente bem. Depois de uma semana longa, com muito trabalho. E recordo a minha avó sempre com muita doçura. E gosto de falar dela ao Manel, para que conheça um bocadinho a avó que nunca conheceu.

      Um beijo,
      Ilídia

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