domingo, 13 de janeiro de 2019

Domingo de manhã. E uma sandes para dias apressados.

São das minhas horas preferidas da semana. Logo a seguir ao fim da tarde de sexta-feira, quando chego a casa depois de uma semana longa. Mas os sentimentos são diferentes. Na sexta, há uma certa euforia, associada ao início do fim de semana. Um sem-fim de projetos para os dois dias que se seguem, alguns dos quais não passam disso mesmo: projetos. Ao domingo de manhã, o sentimento é outro. É de calma, de uma certa resignação em relação ao que não se fez. É como se a sexta fosse uma jovem cheia de sonhos e expectativas e o domingo trouxesse a serenidade da meia-idade. Ao domingo de manhã, as horas parecem render, apesar de não haver despertador, o que parece meio paradoxal. Depois de um pequeno-almoço mais ou menos frugal, o que será ditado pela hora de acordar, dedico-me àquelas coisas para as quais normalmente não tenho tempo. E este espaço está entre elas. Durante a semana mal me lembro de que existe. Com a corrida dos dias, algo tem de ficar para trás. E o blogue fica, invariavelmente, no fim da lista. Tem de ser. Afinal, a vida em carne e osso tem sempre prioridade. 


A receita (se é que se pode chamar receita) que vos trago não costuma ser de domingo. Costuma ser comida de dia útil, de dia de quando não há muito tempo para a cozinha. Dias de ter sopa no frigorífico e nada pensado para depois. É a sandes preferida do meu filho. Pede sempre para me ajudar a prepará-la. E eu deixo, claro. Afinal, tem 10 anos e tem de ir aprendendo a desenrascar-se. Da última vez, achei que a devia partilhar. É uma sandes útil para ter no repertório. Espero que gostem.

Ingredientes para cada sandes:
1 baguete pequena (costumo comprá-las congeladas, semi-cozidas, e colocá-las no forno 5 minutos)
Molho pesto a gosto
3 fatias de queijo halloumi
1 ovo cozido
2 folhas de alface

Preparação da sandes:
Começo por cozer os ovos.
Corto o halloumi em fatias e levo-o a grelhar, com um fio de azeite, polvilhado com orégãos.
Abro a baguete, barro-a com pesto e disponho os restantes ingredientes, pela seguinte ordem: queijo, ovo e alface. Prendo-a com palitos e sirvo-a, inteira ou cortada ao meio.


Despeço-me com duas imagens dos últimos dias: as flores que estão na jarra e a Lana, ao lado do livro que ando a ler: O Jogo do Mundo (Rayuela), de Júlio Cortázar. Um livro desafiante, que nos manda andar a saltar de capítulo em capítulo. E que nos dá a possibilidade de saltar (mesmo) a leitura de alguns. Estou a gostar deste jogo da macaca literário 🙂


Uma boa semana!
Ilídia

domingo, 6 de janeiro de 2019

Equilíbrio. E um bolo de citrinos.

Equilíbrio. É o que desejo para 2019, juntamente com a paz e o amor e a saúde e as outras coisas que se desejam quando começa um novo ano. E, quando penso nesse equilíbrio, penso, sobretudo, em Tempo. O tic tac dos dias pode ser devastador. Como aquelas máquinas ruidosas que ansiamos por que se calem. Que nos levam ao desespero. Só que não há fichas nem botões que calem o tic tac que parece devorar-nos. Para resistir ao ruído dos dias, é preciso força. E uma certa dose de sabedoria. Equilibrar os dias. Como numa receita, a dose certa de doçura, de acidez, de picante e de outros sabores que fazem daquele prato algo especial. Não deixar que a acidez se sobreponha, que abafe os outros sabores. Como numa orquestra harmoniosa, deixar que todos os instrumentos desempenhem a sua função. É isso que espero para 2019. Equilibrar os vários aspetos da minha vida. Deixar que aqueles que têm sido abafados emirjam e recuperem o seu lugar. Por isso, acho que equilíbrio é a palavra que elejo para o ano que agora começa. 

A primeira receita deste ano é do último bolo que fiz em 2018. Um bolo que também é feito do equilíbrio entre o doce e a acidez dos citrinos. Camadas de laranja cortadas pela doçura de um creme de limão e cobertas pela pureza de uma calda de açúcar. Para alguns, demasiado ácido, ainda assim. Para mim, perfeito, que sou mais acre que doce.



Bolo de laranja 
com recheio de limão


Ingredientes para o bolo:
Raspa de uma laranja
200 ml de sumo de laranja
4 ovos grandes
1 pitada de sal
120 gr. de açúcar
200 gr. de farinha
1 c. sopa de fermento em pó para bolos
Ingredientes para o recheio (lemon curd):
160 gr. de açúcar
2 limões (usei apenas um, pois com dois fica demasiado ácido)
60 gr. de manteiga
2 ovos + 1 gema
Ingredientes para a cobertura:
300 gr. de açúcar ou 1 chávena e meia de açúcar confeiteiro
1 clara
1 c. chá de sumo de limão

Preparação do bolo (sem Bimby):
Raspa-se a laranja, faz-se o sumo e reserva-se.
Bate-se as gemas com o açúcar até se obter uma massa esbranquiçada. Junta-se a raspa da laranja e o sumo e bate-se, até incorporar na massa de açúcar e ovos. Adiciona-se a farinha e o fermento e continua-se a bater, até estar tudo bem misturado.
À parte, bate-se as claras em castelo e envolve-se no preparado anterior, com uma espátula,  com movimentos suaves.
Coloca-se numa forma redonda, sem buraco (usei uma com 20 cm de diâmetro) e leva-se ao forno cerca de 25 minutos.
No final do tempo, retira-se o bolo do forno, deixa-se arrefecer e corta-se ao meio, com uma faca afiada.
Preparação do recheio:
Misturar bem os ovos, o açúcar e o sumo de limão. Levá-los ao lume, num tachinho de fundo espesso (usei um tacho de ferro). Mexer, com uma vara de arames, até engrossar (não deve ficar demasiado espesso, pois engrossará um pouco depois de arrefecer). 
Retirar o tacho do lume e juntar a manteiga, mexendo até esta estar incorporada no creme. Deixar arrefecer e rechear o bolo (se restar creme, colocar num frasco e guardar no frigorífico).

Preparação da cobertura:
Misturar o açúcar confeiteiro, a clara e o sumo de limão, até obter uma consistência pastosa. Se for necessário, acrescenta-se sumo de limão. 
Verter a cobertura sobre o bolo, espalhando com uma espátula aquecida, pois facilita o processo.
Decorar a gosto.

Preparação do bolo (na Bimby):
Raspa-se a laranja, faz-se o sumo e reserva-se.
Coloca-se a “borboleta”, as claras, 1 pitada de sal e programa-se 3 min/37 graus/ vel.3 ½. Reserva-se.
Sem a “borboleta”, coloca-se as gemas, o açúcar e programa-se 30 seg./ vel.5.
Junta-se a raspa da laranja, o sumo e programa-se 30 seg./ vel 7.
Adiciona-se a farinha, o fermento e envolve.se 15 seg./ vel.6.
Envolve-se as claras com o preparado, com uma espátula,  com movimentos suaves, e leva-se ao forno pré-aquecido a 180 graus, durante 25 minutos, numa forma redonda, sem buraco, (usei uma com 20 cm de diâmetro)
No final do tempo, retira-se o bolo do forno, deixa-se arrefecer e corta-se ao meio, com uma faca afiada.
Preparação do recheio:
Com o copo bem seco, pulveriza-se o açúcar 15 seg./ vel. 9.
Adiciona-se a casca do limão e programa-se 15 seg./vel. 9.
Acrescenta-se a manteiga, o sumo do limão e programa-se 2 min./ vel. 2.
Junta-se os ovos, a gema e mistura-se 10 seg./ vel. 4.
De seguida, programa-se 7 min./ 80 graus/ vel. 2.
Deixar arrefecer e rechear o bolo (se restar creme, colocar num frasco e guardar no frigorífico).
Preparação para a cobertura:
Com o copo bem seco, pulveriza-se o açúcar por duas vezes (150 em 150 gr.), programando 15 seg./ vel. 9.
Adiciona-se os restantes ingredientes e bate-se 10 seg./ vel.6.
Molha-se a espátula em água quente e espalha-se a cobertura por cima do bolo.
Decora-se a gosto.


 Receita do livro O Melhor das Nossas Famílias, Vorwerk
(com ligeiras adaptações)


Feliz 2019. Com a dose certa daquilo que vos faz bem. A mim, uma mesa posta à espera das pessoas que me são queridas continua a estar no topo das preferências.



domingo, 16 de dezembro de 2018

Para a mesa. Uma refeição de raclette.

Este domingo, houve raclette para o almoço. Ao som dos Queen, ainda no rescaldo do Bohemian Rhapsody, que vimos ontem à noite, preparei tudo. 
Gosto destas refeições livres. Ingredientes pela mesa, em tábuas e taças. Cada um compõe o seu prato, conforme o que preferir. É assim com os churrascos, no verão. E com o fondue e a raclette, no inverno. São a solução para dias de preguiça ou de cansaço, quando não se quer perder horas na cozinha. Temperar a carne, descascar as batatas, fazer um ou outro molho (que até se podiam comprar feitos) e abrir frascos. Nada que saber. 
Hoje apeteceu-me inovar um pouco. Para além do queijo próprio para raclette, usei também outros como cheddarmozzarella e roquefort. Muito bom, este último, misturado com nozes e arandos secos, sobre a batata cozida. Quanto a molhos, usei tzatziki, maionese de alho e pesto. Numa taça, coloquei ainda mostarda à antiga. Dispostos pela mesa, frutos secos (nozes, arandos e tâmaras), cornichons e cebolinhas em conserva. Apeteceu-me ainda dar um ar mediterrânico (e mais saudável) à refeição, e pus na mesa tomates, cebolas e beringelas, tudo cortado às rodelas. Carne, pão quentinho, azeite, orégãos e flor de sal na mesa. 
Durante o almoço, aquela animação própria das refeições ruidosas, com muita gente a servir-se e a pedir passa-me o tomate ou passa-me o pão ou serves-me mais vinho? Aquela alegria boa de comida saborosa e descomplicada, de conversas que se esticam pela tarde, sem pressas. 

 
 

O que deixo não é bem uma receita. É mais uma lista do que havia sobre a mesa, e que foi combinado ao gosto de cada um:

Vazia, cortada em bifes finos e pequenos, temperada com flor de sal e pimenta preta
Enchidos a gosto
Batatas cozidas
Baguetes, cortadas em pedaços
Queijos próprios para derreter 
Manteiga aromatizada com cebolinho e pimenta
Cornichons
Cebolinhas em conserva
Frutos secos: tâmaras, nozes e arandos
Molhos variados: tzatziki, maionese caseira com alho, pesto, mostarda à antiga
Rodelas de tomate, cebola roxa e beringela (depois de meia hora polvilhada com sal, para perder humidade)
azeite, flor de sal e orégãos

Depois de aquecer a pedra da raclette e de a untar com papel de cozinha embebido em óleo neutro, a festa pode começar! 

Fica o trailer do filme. Um filme-concerto que me soube especialmente bem nesta altura. A música intemporal dos Queen e uma interpretação belíssima do Rami Malek. 




sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Aconchego. E um bolo invertido de chocolate e pera rocha.


Cocooning. Hygge. Dois termos que se tornaram moda. Estrangeirismos que, no fundo, não acrescentam muito. Designam aquilo que sempre existiu: um gosto pela casa, pelas coisas quentinhas e que nos fazem bem. Uma vela perfumada (ou muitas), uma lareira a crepitar, uma manta fofa, flores numa jarra, gatos a ronronar, um livro aberto no sofá. E um bolo no forno. De preferência com fruta que carameliza lentamente e difunde aromas que tornam a casa ainda mais casa. Nesta altura, a casa sabe melhor do que nunca. E não poder usufruir dela e usá-la quase como restaurante e dormitório é algo que não me faz bem. Faz-me muito mal, até. Preciso disto. De fazer refeições sem ser a correr. De observar as coisas ao meu redor. De fazer festas aos meus gatos e deixar-me contagiar pela sua paz. De ir para a cozinha e cozinhar não apenas para alimentar, mas para mimar. Misturar farinha, chocolate, baunilha e outras coisas perfumadas. Ver o milagre que é um bolo a crescer dentro do forno. Talvez por isso goste tanto de fazer bolos. Porque o encanto de transformar farinha e ovos e mais uma outra coisa num bolo nunca se perde. 
Hoje, apeteceu-me misturar chocolate com pera rocha. Uma combinação clássica, que nunca desilude. Em vez de um bolo grande, fiz dois, mais pequenos. Um para comermos ao lanche e outro para oferecer. Nada como dar um bocadinho de carinho em forma de chocolate a alguém que contribui para aumentar a felicidade de quem vive nesta casa.

Bolo invertido de chocolate e pera rocha




Ingredientes:
1 chávena* de farinha para bolos, com fermento
1/3 de chávena de cacau em pó
1 pitada de sal
1/4 de chávena de manteiga
100 g de chocolate negro (70% cacau), partido em pedaços
3/4 de chávena de açúcar amarelo
3 ovos
1 colher de chá de extrato de baunilha 
1/2 chávena de leite gordo
3 peras rocha, descascadas, cortadas em fatias grossas

Começar por forrar, com papel vegetal, uma forma redonda ou de bolo inglês (fiz dois bolos pequenos, em duas formas de bolo inglês).
Numa tigela de tamanho médio, misturar a farinha, o cacau em pó e o sal. 
Derreter a manteiga e o chocolate (em banho maria ou no micro-ondas). Depois de derretida, verter a mistura para uma taça grande, adicionar o açúcar e bater, com a batedeira, cerca de 3-4 minutos. Juntar os ovos e a baunilha e continuar a bater, até estar tudo bem misturado. Com a batedeira em funcionamento, misturar, alternadamente, o leite e a mistura de farinha e cacau.
Polvilhar o fundo da(s) forma(s) com açúcar e, sobre este, colocar a pera. Cobrir com a massa e levar ao forno, aquecido a 180 graus, durante cerca de 25 minutos (se optarem por fazer um único bolo, maior, deverão aumentar o tempo de cozedura para cerca de 45 minutos - para verificar se está cozido, a melhor forma é fazer o teste do palito).
Desenformar o bolo, com cuidado, e polvilhar com açúcar confeiteiro.

*240 ml




domingo, 2 de dezembro de 2018

O poder de um verbo. E uma tarte de maçã.

Nestes domingos de quase inverno, há uma melancolia que paira. Apesar das luzes, que já são de festa, e das músicas de Natal. O cinzento do dia e o trabalho que tem de ser esticado para o fim de semana não ajudam. Tento contrariá-la com coisas que confortam. Os meus gatos, mantas fofas, velas perfumadas e lareira acesa. E comida de forno. Falta em português um verbo equivalente a baking, com todo o conforto que esta palavra encerra. Estive a fazer coisas no forno ou Adoro fazer comida no forno não é bem o mesmo que I was baking ou I love baking. Esta tarde, enquanto fazia uma tarte de maçã, perfumada com canela, pensava nisto, em como a língua portuguesa precisa de um verbo recheado de significado, que só de o pronunciar nos sintamos envolvidos em sensações quentes e reconfortantes.
Mas, linguística à parte, a tarte que fiz esta tarde cumpriu o seu propósito: aqueceu e perfumou a casa e soube muito bem a acompanhar um café ao lanche.






Tarte de maçã
(Adaptada de Nigellissima, de Nigella Lawson)


Ingredientes:
100 de manteiga sem sal, amolecida
250 g de farinha sem fermento
2 colheres de chá de fermento
uma pitada de sal
150 g de açúcar amarelo + 1 colher de chá para polvilhar
2 ovos
raspa de 1 limão
75 ml de leite (usei magro), à temperatura ambiente
3 maçãs vermelhas
1 colher de chá de canela em pó + 1/2 para polvilhar

Preparação:
Forrar o fundo de uma forma de tarte (usei um tabuleiro retangular) com papel vegetal.
Num robot de cozinha, colocar a farinha, a canela, o fermento, o sal, a manteiga, o açúcar, os ovos e a raspa de limão. Bater até obter uma consistência espessa e suave. Com a máquina ainda em funcionamento, juntar o leite, para tornar a massa mais leve.
Para executar o processo manualmente, bater a manteiga com o açúcar até obter uma mistura pálida e cremosa. Depois, juntar os ovos, seguidos da farinha, da canela, do fermento, do sal, da raspa de limão e do leite, até ter uma massa de consistência suave e mole. 
Cortar uma das maçãs ao meio, descascá-la, descaroçá-la e cortá-la em cubos com cerca de 1 cm. Juntá-los à massa e envolvê-los bem.
Deitar a massa na forma e, sobre esta, dispor as maçãs, preparadas da seguinte forma: cortá-las em quartos e descaroçá-las, sem as descascar. Cortá-las em fatias fininhas e dispô-las em camadas harmoniosas por cima da massa (em filas, caso se esteja a usar um tabuleiro, ou em círculos concêntricos, caso se tenha optado por uma forma redonda).
Misturar o açúcar com a canela e polvilhar as maçãs com esta mistura.
Levar ao forno, aquecido a 200 graus, durante 40 a 45 minutos (testar a cozedura com um palito - quando este sair seco, apenas com algumas migalhas, o bolo está pronto).
Servir morno ou frio.

Uma boa semana!



sábado, 17 de novembro de 2018

Problemas técnicos. E uma receita rápida.

Um dos aspetos mais gratificantes para quem tem um espaço destes é a interação com as pessoas que nos leem. Não acredito que haja alguém que tenha um blogue aberto que não goste de ser lido. Ou teria um diário fechado à chave, como aqueles tínhamos quando éramos crianças. Saber que, de alguma forma, tocámos alguém, seja com uma frase, uma fotografia, uma reflexão ou uma receita nossa que passou a fazer parte do repertório de outra família é bastante gratificante para quem alimenta um lugar como este. E o feedback que nos dão é importante, ajudando-nos a não desistir mesmo quando o cansaço se instalou e a inspiração parece ter-nos virado costas. 
Como já se devem ter apercebido (ou lido, que já falei do problema neste post), este blogue anda com problemas técnicos. A tecnologia tem os seus caprichos e eu não sou a pessoa mais habilidosa e paciente a lidar com eles. Não sei o que se passou, mas há já algum tempo que não consigo responder aos comentários que me deixam. Já andei a mexer nos bastidores, a tentar resolver o problema sozinha, mas não fui bem sucedida. E a verdade é que não tenho tido muito tempo para me dedicar a pesquisas, tutoriais e afins. Por isso, agradeço que, pelo menos enquanto o problema não estiver solucionado, deixem os vossos comentários na página de Facebook do blogue ou através do e-mail. Terei muito gosto em responder a todos.
Não queria correr o risco de esta explicação ficar perdida em notas de rodapé, como creio que aconteceu da outra vez, por isso, apresento-a como preâmbulo à receita de hoje. 

Salsichas à Brás 



Ingredientes:
(Para 3 pessoas) 
4 salsichas frescas (usei alemãs, maiores, por isso, dependendo do tamanho, poderão necessitar de mais)
600 g de batatas, cortadas aos cubinhos
1 cebola grande, cortada em rodelas finas
2 dentes de alho, picados
3 colheres de azeite + 1 para fritar as batatas
3 ovos
sal e pimenta a gosto
salsa a gosto

Fritar as batatas (usei a Actifry, apenas com 1 colher de azeite).
Entretanto, numa frigigeira grande ou wok, fazer um refogado com a cebola, os alhos e o azeite. 
Cortar as salsichas em rodelas não muito finas e juntá-las à cebola, quando esta estiver translúcida. Temperar com sal e pimenta e deixar cozinhar. 
Bater os ovos e juntá-los ao preparado, envolvendo bem (costumo desligar o fogão nesta fase para que os ovos não fiquem demasiado passados).
Polvilhar com salsa picada e servir.

Continuação de um bom fim de semana! 


 


domingo, 4 de novembro de 2018

A Galiza. Os furanchos. E uma receita grega.

Para um açoriano, a fronteira é o mar. Só o mar. Falamos de fronteiras terrestres na escola, tal como falamos de rios e de outras coisas que nunca vimos. Para uma criança açoriana que nunca saiu da ilha, as fronteiras terrestres são uma abstração difícil de imaginar. Pelo menos eram, que hoje em dia, felizmente, muitas das nossas crianças já sairam de território português. 
Para um continental, atravessar a fronteira não traz grande novidade. Já para um ilhéu traz um bocadinho de impossível. Para quem vive rodeado de mar, visitar outro país de carro tem sempre um sabor a magia. Nas ilhas, não há autoestradas com placas a anunciar São Miguel ou Graciosa ou Flores. Por mais perto que estejamos, há uma barreira enorme que nos separa. Uma fronteira intransponível. Para a passarmos precisamos de planeamento, de ajuda, de transportes que não são os de todos os dias. Por isso, ainda hoje, quando vejo uma placa a anunciar PORTUGAL ou ESPANHA todo o meu ser ilhéu emerge. Sinto que atravessei um bocadinho de globo. Acho que é daquelas coisas que um continental jamais compreenderá. É estranha, a sensação de estarmos em território português, com gente portuguesa, que fala português, passar um rio e ver gente parecida, mas ler placas em galego e ver pessoas, que podiam ser portuguesas, a falar uma língua que parece a nossa mas não é bem.
Passei uma semana em Pontevedra. E conheci melhor esta região de gente calorosa, que tem muito em comum connosco. Muito mais do que a língua e a literatura que nos unem. Olhamos para as pessoas na rua e julgamos estar em Portugal. 
Pontevedra é uma cidade fresca, com uma atmosfera feliz. Muita água e muita gente. Muitas pessoas a pé, que no centro histórico os carros não são bem-vindos. O meio de transporte é as nossas pernas. E há até mapas que nos indicam quanto tempo levamos para chegar aos lugares. As casas de granito não diferem muito das do nosso Norte. Em Pontevedra (e noutros lugares da Galiza, como Santiago ou Cambados, por exemplo) são adornadas com galerias (marquises?) lindíssimas. Aquilo que normalmente associamos a algo sem graça, meramente utilitário, na Galiza tem um estatuto próprio que, ao invés de desfear, acrescenta beleza.

O gosto dos galegos pela comida é semelhante ao nosso, apesar de muitas das iguarias serem impossíveis de encontrar por cá. As vieiras,  por exemplo, símbolo das peregrinações a Santiago de Compostela. As melhores foram-me servidas num furancho, um conceito que desconhecia, mas que achei absolutamente delicioso. Na Galiza, terra de vinho Albariño, há pessoas que, aos fins de semana, abrem as portas das suas casas e vendem o excedente do vinho que produzem, acompanhado por tapas que elas próprias preparam. Comida caseira, autêntica, regada por vinho sem rótulo, feito com as uvas das redondezas. No furancho que visitei, serviram-nos vieiras, polvo, mexilhões, tortilla, cabrito assado e vinho Albariño, como não podia deixar de ser. Cantaram-se músicas tradicionais e as pessoas das mesas do lado juntaram-se a nós, curiosas com a nossa diversidade. Daquelas experiências que só se têm mesmo pela mão dos locais, parece-me. 


Da Galiza trouxe também livros, como não podia deixar de ser. Estou a ler Que me queres, amor? de Manuel Rivas, um dos escritores maiores daquela região. Comprei-o atraída por um excerto que vi do filme A Língua das Mariposas, adaptado do conto "A lingua das bolboretas", que conta a história de amizade entre um discípulo e o seu mestre, abalada pela guerra civil. Recomendo, ainda que não haja tradução para português. Todos os contos que já li são belíssimos e não é difícil ler em galego. Dá um bocadinho mais de trabalho, mas o esforço vale a pena.
Deixo o trailer do filme, que pretendo ver muito em breve.




A receita que vos trago não é galega (qualquer dia há de aparecer alguma), pois pouco cozinhei desde o meu regresso. É uma receita grega, que já fiz inúmeras vezes. Publicá-la nesta altura pode ser considerado uma heresia. Pimentos e tomates são frutos estivais. E, não obstante o nosso outono estar bem mais ameno do que o normal, há muito que o calendário anunciou o fim da estação do sol e dos banhos de mar. 
Na Galiza, entrei em várias frutarias, à procura dos característicos pimentos padrón (os tais que unos pican y outros non). Nenhuma tinha. Não é a época, diziam-me invariavelmente. Há um respeito muito grande pelas estações. E saquinhos de pimentos com ar artificial como os que vemos nas nossas grandes superfícies não se encontram na Galiza. Tampouco os encontramos em restaurantes nesta altura. Tal como na Grécia não encontramos a típica salada grega a não ser no verão. Se os tomates não estiverem no ponto, doces e vermelhos e sumarentos, mais vale não os usar. 
Ainda assim, arrisco a partilhar esta receita. Uma vez que os tomates e os pimentos são usados mais como recipiente, não creio que a receita perca muito por a fazermos na estação errada. Ainda assim, caso queiram respeitar este preceito, podem guardá-la e testá-la no próximo verão. A minha versão mistura diferentes aspetos das várias receitas que vi. Encontrei versões vegetarianas, com e sem queijo, com carne de vaca, de borrego e com atum. Preferi uma versão sem carne, com feta e passas. Podem ser utilizadas várias ervas diferentes. Usei endro seco, uma erva de que gosto muito e que acho que fica especialmente bem aqui. 

        Pimentos e tomates recheados
(Gemista)


Ingredientes para duas pessoas:
2 tomates grandes 
2 pimentos (evito os verdes, por serem mais difíceis de digerir)
1 cebola média
2 batatas grandes
1 batata doce (opcional - nunca vi na Grécia, mas gosto muito)
2 dentes de alho
3 colheres de sopa de azeite
150 g de arroz
1 dl de vinho branco
1 colher de chá de endro seco (ou orégãos, na falta deste) + um pouco para polvilhar as batatas 
2 dl de água
sal e pimenta a gosto
passas (ou pinhões) e queijo feta (opcional)

Preparação:
Arranjar os tomates e os pimentos: cortar uma tampa em cada um e remover o interior; reservar o interior do tomate e descartar o do pimento. 
Fazer um refogado com a cebola, o alho e o azeite. Juntar a polpa do tomate e o vinho branco. Deixar apurar 5 minutos, em lume brando. Acrescentar o arroz, o endro e 2 dl de água. Deixar cozinhar 10 minutos, em lume brando (o arroz não ficará totalmente cozinhado, mas não há problema, pois o processo de cozedura terminará no forno). Retificar os temperos e juntar o queijo feta e as passas. Rechear os tomates e os pimentos com esta mistura (não deverão ficar totalmente cheios, pois o arroz incha no forno) e colocar a tampa.
Regar uma assadeira com um fio de azeite, colocar os tomates e os pimentos e, à volta destes, dispor as batatas e as batatas doces. Temperar as batatas com sal, pimenta e endro e regar tudo com um fio de azeite. Levar ao forno a 200 graus durante 35 a 40 minutos.


Desejo-vos uma boa semana!


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O Acre e Doce é um blogue que celebra a vida de casa, principalmente os momentos passados à volta da mesa. É um blogue de coisas que nos fazem felizes, sejam uma refeição, um filme, um livro ou um ramo de flores frescas.