segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Segunda-feira. E uma entrada preciosa.

Hoje é segunda-feira. Aquele dia mal amado. E com vento e chuva, mais ainda. Hoje, na ilha, o tempo esteve mau. Triste, mesmo. A pedir manta, sofá e lareira acesa. Num dia como o de hoje, de trabalho, mesmo que grande parte em casa, não houve tempo para refeições elaboradas. Comida reconfortante era o que apetecia. Caldo verde e um gratinado. Tudo feito depressa, com a Bimby a ajudar. Enquanto preparava o jantar, a chuva parou, o ventou acalmou, o céu encheu-se de cores. Como se, depois de um dia demasiado sisudo, alguém se lembrasse de dar uma festa lá em cima. Lindo, o meu Pico do Capitão em tons de púrpura e laranja. Seja com nevoeiro, com ou sem vacas, com terrenos verdes ou lavrados de fresco, o Pico do Capitão, visto do meu escritório, nunca deixa de me deslumbrar.

A receita que trago não é de hoje. Não é receita de dias apressados. É daquelas que, não sendo difíceis, requerem alguma paciência. Vontade de estar na cozinha, pelo menos. No dia em que a fiz, o prato principal era simples. Um daqueles assados que se fazem sozinhos. A sobremesa estava no frigorífico, pronta a desenformar. Servi o meu vinho, pus a minha música e pus mãos à obra. Sentada na ilha da cozinha, sozinha, fui cravando as pedras da romã, uma a uma, até cobrir toda a base. Não há como olharmos para os grãos deste fruto sem deixarmos de pensar na metáfora, já tão gasta, dos rubis. Ao colar os bagos, um por um, senti-me o ourives que cria uma jóia preciosa. Quando os meus convidados chegaram, exibi, cheia de orgulho, a peça que acabara de fazer. 

Ficam as imagens do céu de hoje. E das flores que estão na jarra. E da receita da entrada de há uns dias. Uma boa semana!






Paté de queijo com romã
(Adaptado de Bimby - Momentos de Partilha, Dezembro de 2016)


Ingredientes:
15 g de sementes de sésamo
10 g de manjericão (usei salsa)
150 g de queijo cheddar, cortado em pedaços
100 g de queijo mascarpone
200 g de queijo-creme
1 pitada de pimenta
1 romã
Preparação tradicional:
Forrar uma taça, com aproximadamente 14 cm de diâmetro, com película aderente.
Numa frigideira, tostar ligeiramente as sementes de sésamo. Colocá-las num almofariz e esmagá-las, juntamente com a salsa. Juntar o queijo cheddar, ralado, o mascarpone e o queijo-creme e amassar tudo muito bem, até obter uma pasta. 
Colocar a mistura na taça e levar ao frigorífico cerca de 1 hora, ou até ganhar consistência.
Desenformar, cobrir com a romã e servir com tostas.
Preparação na Bimby:
Forrar uma taça, com aproximadamente 14 cm de diâmetro, com película aderente.
Colocar as sementes no copo e aquecer 3 minutos/ varoma/ velocidade colher. Adicionar a salsa e triturar 2 minutos/ velocidade 7. Baixar com a ajuda da espátula o que ficou na parede do copo.
Adicionar o queijo cheddar e triturar 10 segundos/ velocidade 7. Juntar o mascarpone, o queijo-creme e a pimenta e envolver 15 segundos/ velocidade 4. 
Colocar a mistura na taça e levar ao frigorífico cerca de 1 hora, ou até ganhar consistência.
Desenformar, cobrir com a romã e servir com tostas.


domingo, 8 de janeiro de 2017

Uma receita de bolo. E um 2017 colorido.

Para começar o ano, cor. Muita cor. Muitas cores. O verde das nossas paisagens, o azul do céu de janeiro, o rosa e o laranja e o amarelo das flores que se vão sucedendo na jarra. É assim que quero começar. Foi assim que começámos 2017. Os dias bonitos ajudam, chamam-nos lá para fora. Passeios em janeiro a lugares que conhecemos do verão. Passear pelo interior da ilha, de câmara na mão, é um exercício bom. Tem uma leveza que nos deixa felizes e otimistas. Sair à procura de beleza é algo bem mais importante do que julgamos. Passamos muito tempo (demasiado) entregues a tarefas pesadas.  E não nos podemos esquecer das outras, das leves, consideradas menores. Não são menores. São bem grandes. São elas que nos permitem suportar as outras. Um equilíbrio que se não for mantido pode pôr tudo em perigo. E às vezes, tendemos a esquecer-nos disso.
Por isso, o meu primeiro post de 2017 está cheio de cor. Verde, sobretudo. O verde dos nossos campos. As flores que me alegram os dias. Os animais. A Amélia, com aquela doçura felina que não me canso de fotografar. E os outros, que povoam a ilha. Ficam imagens das minhas cores. Algumas ainda de 2016. Outras, deste fim de semana de sol. É bom quando há sol em janeiro. Enche-nos de esperança e deixa-nos mais felizes. 


















A receita ainda é festiva. Um bolo bem aromático, que esteve na nossa mesa de Natal. Espero que gostem.


Bolo de cenoura e pistácio
(Receita da revista Elle à Table, novembro-dezembro de 2016)


Ingredientes:
250 g de manteiga amolecida
250 g de açúcar mascavado
5 ovos à temperatura ambiente
sumo e raspa de uma laranja
170 g de farinha com fermento
100 g de amêndoa em pó
100 g de pistácio em pó + 20 g de pistácios picados para decorar
1 colher de café de canela moída
250 g de cenouras raladas

Para a cobertura:
100 g de queijo mascarpone
200 g de queijo-creme
80 g de açúcar confeiteiro
sumo e raspa de uma laranja 

Preparação:
Aquecer o forno a 180 graus.
Untar e enfarinhar uma forma de mola com 22 a 24 cm de diâmetro (a minha era ligeiramente maior, por isso o bolo ficou baixo). 
Bater bem a manteiga com o açúcar mascavado até obter uma massa esbranquiçada. Juntar os ovos, um a um, batendo entre cada adição. Acrescentar o sumo e a raspa de laranja, a farinha, a farinha de amêndoa, a farinha de pistácio, a canela e as cenouras raladas e misturar bem. 
Verter a mistura para a forma e levar ao forno, cerca de 50 minutos (para verificar a cozedura, fazer o teste do palito). Deixar arrefecer e desenformar.
Entretanto, preparar a cobertura: misturar todos os ingredientes (bati-os, com a batedeira) e verter a mistura sobre o bolo. Decorar com pistácios picados.




quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

O nosso presépio. E uma receita de um livro especial.

Aos poucos, a casa vai-se enchendo de Natal. Depois da árvore, as decorações foram alastrando a outras divisões. Este ano, mais exuberantes do que o costume. 
Esperei pelas férias para o presépio. O presépio requer tempo, dedicação. Não basta ir ao sótão buscar as caixas com as figuras. É preciso mais. Todos os elementos naturais que é preciso recolher. As pedras do tamanho certo para a gruta. Outras, mais pequenas, para os muros. Farelo para a estrada. Os meus pais participaram. E o Manel estava com aquele entusiasmo próprio da infância. Tem oito anos, o meu menino. Ainda acredita no Pai Natal. E tem aquela inocência que eu quero prolongar o mais possível. Estava tão feliz, no jardim, a apanhar leivas com o avô. Aquela felicidade ruidosa que eu me lembro de sentir quando fazia o mesmo, com a minha avó. O Natal também é isto. É um construir de memórias que nos acompanharão para o resto da vida. Acredito que sim. Acredito que o meu filho não se esquecerá dos presépios da sua infância,  que recordará sempre aquele frio bom que sentimos enquanto descolamos as leivas bonitas que farão os nossos cerrados. E que não se esquecerá das gargalhadas da avó, nem das histórias que esta lhe contava de Natais passados, enquanto ele ia construindo o presépio, com a mãe e o avô. 
O mundo anda insano, as notícias dilaceram-nos. A maldade anda por aí. Tememos pelo futuro. Aquilo que tínhamos como certo deixou de o ser. Por isso, cada vez mais, é obrigatório aproveitarmos muito bem o nosso presente, valorizarmos o que temos, momento a momento. Enquanto fazemos o presépio, não posso deixar de pensar nisto. Tento concentrar-me na tarefa e arredar pensamentos sombrios. Fazemos planos para estas férias de Natal. Apetece-nos casa, lareira e pijamas em tons de verde e vermelho. No Natal, quero todos os clichés. Quero todas aquelas coisas que causam irritação aos Scrooges deste mundo. Desde as músicas aos filmes. Um destes dias, revi o E.T. com o Manel. E, não tarda nada, estaremos a cantar Do-Re-Mi com a Julie Andrews. Entretanto, a Amélia já foi ao presépio. Gatos a remexerem nas areias de Belém também fazem parte dos nossos Natais. Por isso, lembrei-me com ternura de alguns dos gatos da minha infância e não me zanguei muito. Levantei os reis magos, compus o farelo e está como novo. Pena não ser assim, fácil, nos lugares a sério. 













A cozinha ainda está calma. Sabores mais natalícios, só um licor de leite, feito há duas semanas. E o chutney do Cinco Séculos à Mesa, da minha amiga Guida. Muito mais do que um livro de receitas, este é um livro que junta a História à gastronomia, escrito por quem percebe de ambas. E um livro bonito, que sabe bem folhear e apreciar. Tenho-o saboreado devagarinho e já selecionei umas quantas receitas a experimentar. Esta foi a primeira. Um chutney bem aromático, cheio de sabores de Natal.

Chutney
(Receita adaptada do livro Cinco Séculos à Mesa, de Guida Cândido)


Ingredientes (para 1/4 da receita original - rende 4 frascos de 250 ml):
500 g de alperces secos
1 maçã reineta
200 g de passas
90 g de alhos, picados
150 g de cenouras, aos cubos
150 g de açúcar amarelo 
10 g de gengibre em pó 
3 cravinhos
1 pitada de pimenta da Caiena
375 ml de vinagre
sumo de 1 limão
sal a gosto


Preparação:
Cortar os alperces, as maçãs e as cenouras em cubos. Picar os alhos. Pisar os cravinhos num almofariz. Misturar todos os ingredientes e deixar macerar de um dia para o outro. No dia seguinte, levar a mistura ao lume muito brando, mexendo pouco, para não partir demasiado. Colocar em frascos esterilizados e guardar em lugar fresco e seco.

Pode ser usado para acompanhar pratos de carne ou em entradas diversas. Gosto a acompanhar queijo.



A todos os que me leem, desejo um Natal muito feliz. E que 2017 seja um ano bom. Um ano de Paz!


domingo, 4 de dezembro de 2016

Uma receita de panna cotta

Há algum tempo que não aparece por aqui uma receita. Não é que não se cozinhe por estes dias. Simplesmente, com os afazeres de final de período, não há tempo para grandes experiências com comida. Faço os pratos conhecidos, que sei que que não desiludem. Ou passo no talho de sempre e compro carne para grelhar. As sobremesas andam esquecidas. Nesta altura, em que se avizinham muitos jantares e alguns excessos, em casa, tentamos ser regrados. 
A sobremesa de hoje foi feita há muito tempo e estava guardada, à espera do seu dia. Uma panna cotta para adultos, com uma pontinha de Baileys. Deixo agora a receita por me parecer que se adequa a esta época festiva. Ainda não perdi a esperança de fazer as minhas panna cottas em formas e de as desenformar com aquela dose de dramatismo que fica sempre bem, de preferência em frente aos convidados. Mas ainda não me atrevi. Para já, sigo o caminho mais simples: faço-as em copos de cocktail e não corro riscos.

Panna Cotta de chocolate e baileys
(Ligeiramente adaptado de Chocolate... simplesmente irresistível, Vorwerk.)


Ingredientes:
4 folhas de gelatina neutra, cortadas em pedaços
Água q.b. para hidratar a gelatina
320 g de natas
50 g de açúcar
80 g de chocolate para culinária, partido em pedaços
100 g de queijo-creme
120 g de requeijão
80 g de licor de creme irlandês (Baileys)
Amêndoa tostada, picada, para servir

Preparação tradicional:
Colocar as folhas de gelatina num recipiente com água fria para hidratar durante 5 minutos. Retirar, espremer e reservar.
Levar ao lume, em banho-maria, o chocolate, 120 g de natas e 20 g de açúcar até obter um creme. Retirar do lume, adicionar metade das folhas de gelatina, bem espremidas, e misturar bem, com a batedeira. Adicionar 50 g de queijo-creme e 50 g de requeijão e continuar a bater, até estar tudo bem incorporado. Distribuir por taças individuais ou copos e levar ao frigorífico cerca de 1 hora, ou até ganhar consistência.
Aquecer, também em banho-maria, 200 g de natas e 30 g de açúcar, mexendo sempre, até o açúcar estar derretido. Adicionar a restante gelatina bem espremida e bater, até esta estar bem incorporada. Juntar 50 g de queijo-creme, 70 g de requeijão e o licor e misturar, com a batedeira. 
Distribuir pelas taças, sobre o creme de chocolate, e levar ao frigorífico cerca de 2 horas. 
Servir com amêndoa granulada, previamente tostada.

Preparação na Bimby:
Colocar as folhas de gelatina num recipiente com água fria para hidratar durante 5 minutos. Retirar, espremer e reservar.
Colocar no copo 120 g de natas, 20 g de açúcar e o chocolate e programar 2 minutos e meio, 60 graus, velocidade 2.
Adicionar metade das folhas de gelatina bem espremidas e misturar 30 segundos, 60 graus, velocidade 3.
Adicionar 50 g de queijo-creme e 50 g de requeijão e misturar 30 g, velocidade 4. Distribuir por taças individuais ou copos e levar ao frigorífico cerca de 1 hora, ou até ganhar consistência.
No copo limpo, colocar 200 g de natas e 30 g de açúcar e programar 2 minutos e meio, 60 graus, velocidade 2.
Adicionar a restante gelatina bem espremida e misturar 30 segundos, 60 graus, velocidade 3. Juntar 50 g de queijo-creme, 70 g de requeijão e o licor e misturar 30 segundos, velocidade 4. 
Distribuir pelas taças, sobre o creme de chocolate, e levar ao frigorífico cerca de 2 horas. 
Servir com amêndoa granulada, previamente tostada.



Boa semana para todos!

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Bretanha

A Bretanha era um sonho antigo. Na minha imaginação, esta região sempre esteve envolta numa aura misteriosa e fascinante. O nome Bretagne e o adjetivo breton sempre me despertaram aquela vontade de ir, de mergulhar numa região singular, com costumes e tradições muito próprios. Queria muito que estas palavras deixassem de significar utopias e passassem a ter rostos, cores,  cheiros, sabores.
Nestes dias em Rennes, quis encher-me de tudo. Conheci muitos bretons, todos hospitaleiros, bem dispostos, divertidos. Provei pratos deliciosos, preparados com manteiga, a gordura da cozinha bretã. E crepes, doces e salgados, acompanhados por cidra, servida em chávenas lascadas, numa maison à colombages curvada pelos séculos. E passeei por uma cidade linda, cheia de História, onde as igrejas e edifícios belíssimos se misturam com as ruas a fervilhar de estudantes que bebem cerveja ao anoitecer.  E cantei canções bretãs, guiada pelos meus amigos franceses
























Na Bretanha, deixei-me deslumbrar com a paisagem singular e pitoresca de Cancale. Vi pessoas a apanhar ostras, acompanhadas pela silhueta do Mont Saint-Michel, que parecia observá-las, ao fundo. Fotografei como uma louca, na tentativa de não deixar escapar nada, de trazer tudo comigo. Sentei-me numa brasserie e comi ostras. Bebi vinho branco e diverti-me muito, com as piadas dos meus colegas franceses, gregos e polacos. This place is so beautiful. It's metaphysical., dizia a Eleni. Todos rimos com o ar maravilhado com que ela disse aquelas palavras. Mas estava certíssima. Talvez seja o adjetivo mais adequado àquele lugar, à experiência que estávamos a viver, ali, todos juntos, naquela tarde de novembro. Comer ostras em Cancale, com aquele cenário à frente foi, realmente, uma experiência muito especial. 







                                                                                                 Kouign-amann, sobremesa típica

Atravessámos campos salpicados de casas lindas, daquelas em que nem parece habitar gente de verdade, de tão pitorescas. Fotografei muito, mais uma vez. E imaginei quem habitaria aquelas casas, quem andaria a construir aquela cerca de madeira, ainda por concluir. 




Um dos momentos altos desta viagem foi a visita ao Mont Saint-Michel. Num dia nublado, pontuado por alguns chuviscos. Até o tempo ajudou. Acho que o sol declarativo tiraria parte do mistério a esta abadia escura e pesada. Pelo menos no meu imaginário, o Mont Saint-Michel sempre esteve associado a tempo sombrio. Enquanto atravessávamos ruelas, visitávamos capelas, enquanto subíamos e descíamos escadas, fomo-nos separando. Cada um visitou aquele lugar à sua maneira. E em silêncio, sobretudo. Os pássaros acompanharam-nos sempre, pousando perto de nós, sem medo. As vistas deslumbram, pela paz. Um dos lugares mais especiais em que já estive. 
À saída, comemos bolinhos e bebemos café quente, oferecidos pela Hélène e pelo Hervé, que nos guiaram neste dia. Enquanto saboreava aquele lanche reconfortante, olhei para a abadia e tive a noção de que, mais uma vez, estava a viver um momento especial. Daqueles que recordarei com gratidão até ao fim dos meus dias.














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O Acre e Doce é um blogue que celebra a vida de casa, principalmente os momentos passados à volta da mesa. É um blogue de coisas que nos fazem felizes, sejam uma refeição, um filme, um livro ou um ramo de flores frescas.