sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Mais uma entrada de verão: bruschettas de figos, queijo da ilha e nozes


Todos os anos, a mesma alegria quando chegam os figos. O primeiro foi mesmo ao pé da figueira, descascado à mão. Não há nenhum que saiba como aquele primeiro figo do ano. Talvez seja a sazonalidade deste fruto que o torna tão especial. Maçãs, peras, bananas, há-as todo o ano. Figos, não. Só mesmo nestes dias quentes do fim do verão.
Depois de um dia de trabalho, não apetece muito ir aos figos, confesso. Mas quando penso na figueira carregadinha de bonitos exemplares pingo de mel, a preguiça dá lugar ao entusiasmo. É muito bom chegar a casa e dispô-los num prato, prontos a serem consumidos quando nos apetecer. E ver as caras de felicidade dos amigos quando lhos oferecemos. 
Quando a abundância é muita, faço umas experiências. Estas bruschettas foram feitas num dia em que fui aos figos, com o meu pai, depois do trabalho. A seguir, passei no talho de sempre e comprei carne e ovos frescos. Mais um daqueles jantares simples, de verão, em que os ingredientes fazem tudo. Sobre a ilha da cozinha, havia pão caseiro e queijo de S. Jorge, daquele bem picante. Achei que ficaria bem com o doce dos figos. 

Juntei os ingredientes do seguinte modo:
Num tabuleiro, dispus fatias de pão e levei-as ao forno, a tostar ligeiramente.  Retirei-as do forno, e perfumei-as com um dente de alho (é só cortar o dente ao meio e esfregá-lo contra o pão). Cobri cada fatia com queijo da ilha, cortado fino e, sobre este, fatias de figo. Juntei umas nozes, picadas de forma grosseira, e temperei com flor de sal. Levei ao forno até o queijo derreter e servi. Simples, não?



terça-feira, 25 de agosto de 2015

Notting Hill. Um mercado. Uma livraria. Um restaurante. E um encontro improvável.

A manhã que passámos em Notting Hill merecia um post. Foi dos meus programas preferidos em Londres. Gosto muito de feiras e mercados. Sempre gostei. Gosto do colorido das pessoas, das vozes dos vendedores, dos cheiros, das bancadas cheias. O mercado de Portobello Road tem um charme especial por se situar num bairro com casinhas às cores, com portas que ora combinam, ora contrastam com as cores das paredes, dependendo da vontade dos donos. Depois, o que lá se vende é mesmo apetecível. Pratas, louças, jóias e outros objetos vintage, peças no típico tweed britânico, flores, comida. Um pouco de tudo. Por nós, passa um adolescente, a cantar Grândola, Vila Morena. A mãe, embaraçada, pede-lhe que se cale. Respondemos-lhe, em português. E rimos todos, cúmplices por nos reconhecermos naquela terra estranha. Nesta feira, não me parece que se regateie. Pelo menos, não vi nada que se parecesse. E os vendedores são mais silenciosos do que os outros com quem me cruzei. E não impingem. Respondem às nossas perguntas, tranquilos, e não tentam persuadir-nos a  levar nada. Há anos, visitei o mercado do Cairo, onde me fartei de regatear. Saí de lá com mais compras do que deste, mas bem mais cansada. Cada objeto era uma luta. E agora, em Portobello, não pude deixar de pensar no quanto os dois são diferentes. Até as nossas feiras portuguesas são muito diferentes deste mercado inglês. Os nossos feirantes ficam algures entre os do Cairo e os de Notting Hill :)















Já com o shopping bag ao ombro, convenci os meus rapazes a procurarem comigo a livraria Books for Cooks, só com livros de cozinha. Não foi difícil. Mesmo à saída do mercado, dei de caras com o letreiro. Entrei, comprei alguns livros, enquanto eles se dirigiam ao fundo da livraria (tinha lido antes que, para além de livraria, também se realizam no local workshops de culinária e servem refeições à hora de almoço), depois de lermos que naquele dia o almoço era Mac and Cheese with veggies. Sorry, we sold the last one, disse-nos a empregada. Famintos e desiludidos, saímos à procura de um lugar onde almoçar. Não é fácil, num sábado, encontrar um lugar com mesas livres na zona.




Depois de algumas buscas,  e de nos afastarmos um pouco de Portobello Road, encontrámos este restaurante (comemos muita comida italiana em Londres), com uma mesa à nossa espera, que nos fez agradecer o facto de o macarrão com queijo da livraria ter esgotado. Uma refeição deliciosa, com ingredientes fresquíssimos, cozinhada e servida por italianos de gema (o que nos serviu mal falava inglês).








No regresso, deparei-me com esta loja. Linda, linda, com um cheiro a especiarias inebriante, arrumadas em latinhas amarelas a condizer com a porta de entrada. Uma versão britânica do nosso Basílio Simões*. Quando estava a pagar, a vendedora perguntou-me a nacionalidade. Assim que lhe disse que era portuguesa, quase deu saltinhos de felicidade. Estive em maio nos Açores, contou-me. Quando eu lhe disse que era dos Açores, ela deu mesmo saltinhos de felicidade :) Entusiasmada, contou-me que tinha visitado S. Miguel e começou a falar na Caldeira Velha, nas Sete Cidades, no Parque Terra Nostra e noutras atrações daquela ilha. E disse-me, com a mão no peito, que adorava os Açores. E eu, com um entusiasmo semelhante ao dela, disse-lhe que estava a adorar Londres. E ela, incrédula: A sério? Eu acho os Açores tão mais interessantes. Tirei umas fotos à loja, despedimo-nos e saí para o bulício de Notting Hill a pensar no encontro improvável que acabara de ter. E a pensar que era capaz de viver ali algum tempo, naquele bairro charmoso. Pelo menos até ter saudades do mar e do verde da minha ilha.

*Loja tradicional em Angra do Heroísmo, onde se vendem especiarias a granel. 






domingo, 23 de agosto de 2015

Dois petiscos de verão

É muito bom, o verão nesta terra. Mesmo quando as férias acabaram e se regressou ao trabalho. Nos dias grandes, parece caber tudo o que lhes quisermos juntar. Não perdemos horas no trânsito caótico e não chegamos a casa irritados, a pensar que o tempo se esgotou. Mesmo que nos acompanhe alguma irritação, é mais fácil afugentá-la em dias de sol. Aqui, aproveitamos o verão. Cada um à sua maneira. Há os que saem do trabalho e correm para as touradas. Há os outros, para quem o verão é praia e esplanadas. E há quem prefira vir para casa já a pensar na preparação do jantar.  Flores do jardim, guardanapos e louça colorida. Não é preciso muito, no verão. Uns petiscos, uns grelhados e uma salada. Vinho branco fresquinho e o festim está completo. O resultado é quase sempre o mesmo: jantares que se prolongam pelo serão, entre gargalhadas e os cânticos dos grilos, que este ano perderam a timidez e resolveram cantar mesmo ao pé de nós. No dia seguinte, custa um bocadinho acordar, mas vale a pena.





Azeitonas temperadas
com alho, tomilho e louro

Num saco de plástico, coloca-se 200 g de azeitonas pretas, de boa qualidade, 1 folha de louro, cortada em pedacinhos, 6 dentes de alho, fatiados, tomilho fresco, a gosto, e 5 colheres (de sopa) de azeite. Tempera-se com sal e pimenta, agita-se o saco e deixa-se marinar algumas horas (fiz as minhas na véspera).




A receita das lapas está aqui, escrita pela minha amiga Maria. Costumo servir as minhas regadas com umas gotinhas de sumo de limão, pão de trigo e vinho branco.



quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Uma espécie de mexilhões à Bulhão Pato

Há poucas coisas que evoquem o verão como o cheiro do marisco fresco e o barulho de conchas a cair no metal. É daqueles sons que me alegram, enquanto faço o jantar, com a porta escancarada para o jardim, já com a mesa posta para receber amigos. 
Às vezes, enquanto cozinho, dou por mim a pensar que será o prazer nestes detalhes que nos distinguem, nós, os que gostamos de cozinhar, das outras pessoas, as que o fazem sem gosto, por obrigação. Quem gosta de fazer comida tem os sentidos alerta e consegue tirar prazer de todos os pequenos detalhes que envolvem a preparação de uma refeição. O paladar é apenas o fim. Pelo meio, todos participam. O colorido dos legumes, o barulho da faca na madeira da tábua, os aromas que nos chegam das ervas aromáticas pousadas na bancada, o frigir do alho no azeite e o cheiro que começa a tomar conta da cozinha e que atrai o Manel a esta divisão, curioso sobre o que será o jantar.
Neste dia, tudo começou na bancada da peixaria. Ao olhar para o saquinho de mexilhões a cheirar a mar, lembrei-me que seriam a entrada perfeita daquele jantar de domingo. Uma espécie de mexilhões à Bulhão Pato, pensei, mas sem coentros, para que não haja narizes torcidos. Já em casa, entreguei-me à tarefa (a menos prazerosa, confesso) de os limpar, puxando, com uma faca pequena, as barbas, antes de os mergulhar em água fresca, temperada com sal. A seguir, foi só abrir o armário, tirar alho, azeite e vinho branco. Depois, sal e pimenta e umas folhinhas de salsa. Não tardou nada, estávamos à mesa, a sorvê-los das conchas, que depois eram usadas como colher para beber o resto do molho. Tão bom!



Ingredientes:
1,5 kg de mexilhões
1,5 dl de azeite
6 dentes de alho, fatiados
salsa, picada grosseiramente
sal, pimenta preta e sumo de limão q.b.
vinho branco q.b. (cerca de 1/2 dl)

Limpam-se os mexilhões, retirando-lhes todas as barbas, com a ajuda de uma faca pequena, e colocam-se de molho, em água temperada com sal.
Numa frigideira grande, leva-se ao lume o azeite e os alhos, até estes começarem a ganhar cor. Junta-se a salsa e os mexilhões. Refresca-se com o vinho branco, tempera-se com sal e pimenta e tapa-se. Quando  os mexilhões estiverem abertos, polvilham-se com mais salsa e regam-se com sumo de limão. O resto é fácil: servir os mexilhões, com uma fatia de pão fresco e um copo de vinho branco.


quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Londres

"Quem está cansado de Londres está cansado da vida." Mesmo que as palavras de Samuel Johnson possam parecer excessivas, Londres é, de facto, uma cidade muito especial, com muito para oferecer. Sabia que não queria estar em Londres a correr, a entrar e sair de monumentos, a posar para fotografias em frente aos pontos turísticos. Queria usufruir um bocadinho das várias facetas desta cidade cheia de contrastes, com tempo, sem pressas.
Em Londres, há um tom pictórico de outros tempos, presente nos táxis pretos com ar antiquado, nas cabines telefónicas e nos típicos autocarros vermelhos. E é admirável a forma como tradição e modernidade se entrelaçam. Entramos num jardim real, com o dourado ostensivo dos seus portões, e deparamos-nos com uma galeria de arte contemporânea. Passam por nós polícias a cavalo, com trajes nobres, e grupos de pessoas vestidas de forma alternativa. No metro, vemos uma amálgama de gente de várias raças. 
Em Londres, há Arte por todo o lado. E nunca vi acesso tão fácil aos museus como nesta cidade.  Peças icónicas à disposição de todos, de forma gratuita. Não fosse o Manel a queixar-se de cansaço ou a pedir para ir tratar dos esquilos, teria sido fácil perder-me dias inteiros no Museu Britânico ou no Victoria and Albert ou no Tate Modern.










Londres foi andar de táxi preto e de autocarro vermelho de dois andares. Londres foi ouvir os Uaus do Manel ao ver as múmias do Museu Britânico e os esqueletos de dinossauros no Museu de História Natural. E foi passear entre as obras de Rodin, de Picasso e Salvador Dalí. E foi visitar túmulos de reis e rainhas. E outros, não menos belos, de gente incógnita. Londres foi andar de metro, no meio dos londrinos, e sorrir com os piropos que lançavam ao Manel, com o seu chapéu de explorador.  Londres foi comer em pubs com móveis de madeira escura e cadeiras de pele gasta pelo tempo. E foi fazer compras no mercado de Portobello Road e fotografar as casas coloridas de Notting Hill. E tirar fotografias a gente e carros e mais casas em tons pastel, que, segundo o meu filho, pareciam bolos. Londres foi dar longos passeios pelos parques. E foi ver um piquenique de postal, para os lados do The Albert Memorial, enquanto o Manel se entretinha a dar uma bolacha Maria a um esquilo. Londres foi a agitação da Soho Square na hora de almoço. E de Chinatown à hora do jantar. Londres foi observar, em momentos um tanto ou quanto voyeuristas, modos de vida, alguns tão diferentes dos nossos. E foi explicar ao Manel por que razão aquelas senhoras, mesmo em dias de tanto calor, só mostravam os olhos. Londres foi mostrar um bocadinho do mundo ao meu filho. Mais do que o Palácio de Buckingham e guardas com chapéus peludos, Londres foi isso. Foi uma amostra do mundo.














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Acerca de mim

A minha fotografia
Na casa dos trinta. Casada. Professora. Um filho. Dois gatos. Dois cães.