terça-feira, 13 de março de 2012

Uma refeição minimalista para um convidado especial

Abri o Diário Insular. Encontro Internacional de Gastronomia, no Centro Cultural e de Congressos de Angra do Heroísmo. Comecei a ler a notícia. Entre chefs e críticos nacionais e internacionais, li o nome dele. E, qual adolescente que sabe que vem à terra a sua banda preferida, pensei: Tenho de o conhecer
Confesso que estava nervosa. Não é todos os dias que convidamos um autor e food writer do New York Times para almoçar. Porém, os nervos dissiparam-se mal abri a porta. Sorriu-me de forma simpática e afetuosa. Chegou cedo, vestido de forma informal. Cumprimentou-me com tamanho à-vontade que tive a sensação de já nos conhecermos.
Seguiu-me até à cozinha, onde lhe servi um vinho do Pico e queijo de S. Jorge. Elogiou ambos. E repetiu. A conversa foi fluindo. Elogiou as paisagens açorianas e falou-me da sua vida em Nova Iorque. Saltámos de assunto em assunto. Acabámos a falar de comida. Falei-lhe das açordas da minha mãe e de como me faziam lembrar o seu Boiled Water. E ficou feliz por saber que o seu Meatloaf é muito apreciado cá em casa.
Finalmente, o peixe ficou pronto. Fomos para a mesa. Servi-lhe um Caldo de peixe à moda do Pico. Afinal, o prato não podia ser muito complicado. Tinha de ser minimalista. Não é essa a imagem de marca do senhor Mark Bittman?
Esta receita foi trazida do Pico, nos anos 40 do século passado, pelo meu avô paterno, natural da ilha-montanha. Comi muitos, feitos por ele, que, apesar de ter nascido numa época em que os homens raramente se aproximavam da cozinha, cozinhava. E bem. A receita de caldo de peixe tem sofrido muitas alterações ao longo dos anos. Já comi várias versões, muitas delas, com polpa de tomate. Esta é uma versão muito depurada, pois o meu avô fê-la sempre como aprendeu, no "seu" Pico. Segundo ele, os "jovens" estavam a adulterá-la, incluindo ingredientes novos. Ele sempre fez como a mãe lhe ensinara. E nós, sempre gostámos. E continuamos a fazê-la assim, como ele fazia.
O meu convidado achou curioso o facto de se beber o caldo em que o peixe é cozido, numa tigela. E deliciou-se com o peixe fresco do nosso mar, regado com o molho cru.
A sobremesa foi ananás de São Miguel. Também minimalista.

Caldo de peixe à moda do Pico
Ingredientes para o caldo:
1 cabeça de alho grande
2 cebolas, cortadas em meias luas
1 folha de louro
4 bolinhas de pimenta da Jamaica
4 colheres de sopa de azeite
1 ramo de salsa
1 colher de sopa de sal
2,5 l de água
6 peixes, de preferência variados (ex: cântaro, boca-negra, garoupa, goraz, bodião vermelho...)

Ingredientes para o molho cru:
1 ramo de salsa (grande)
3 colheres de sopa de vinagre branco
5 colheres de sopa de água (se necessário, acrescentar mais um pouco)
1 cabeça de alho
1 colher de café de sal

Preparação:
Tempere o peixe com sal e reserve.


Numa panela grande, coloquei todos os ingredientes para o caldo, exceto os peixes. Deixei ferver mais ou menos 1/2 hora. Juntei o peixe e deixei cozer.
Entretanto, fiz o molho cru: Coloquei todos os ingredientes num robot de cozinha ou na Bimby e triturei, até obter um molho fluído. Se o achar muito espesso, acrescente água. Tradicionalmente, o molho era feito num almofariz. Tentei fazer segundo este método, mas é, realmente, um processo difícil. Pus tudo na Bimby e em segundos estava o molho pronto :)

Numa travessa, dispus o peixe. Sobre este, o meu avô costumava pôr a cebola e a salsa cozidas e eu imitei-o (esta receita, por ser do meu avô por ser um pouco a história dele, é quase sagrada. Não consigo fazer nenhum tipo de alteração. Faço-a religiosamente, tal como ele a fazia.). Acompanhei com batatas cozidas. Reguei ambos com o molho cru. Coei o caldo de cozer o peixe, coloquei numa tigela e servi, a acompanhar a refeição. Tradicionalmente, bebia-se apenas o caldo, no entanto, acompanho também com  vinho branco. Servi Frei Gigante, também da ilha do Pico.

Com esta receita participo no passatempo "Convidei para jantar...", promovido pela Ana e acolhido, este mês, pela Suzana.

30 comentários:

  1. É de facto um jantar minimalista, no melhor sentido da palavra. No sentido de que menos é mais...muito mais, mesmo.
    Beijinhos

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigada, Carla. É, realmente, uma refeição que me enche as medidas. Saborosa e saudável.

      Eliminar
  2. Ilidia
    Com esse caldinho e o requinte com que o serviste o teu convidado só podia render-se.
    Parabéns
    Bjs

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Mané, obrigada. Agora posso concentrar-me no teu desafio ;) Já escolhi a receita. E vem associada a uma memória, como sei que gostas :)

      Eliminar
  3. Que sopa original, nunca tinha ouvida falar. Já esse bodião está a olhar para mim, gosto tanto!!
    Um beijinho e boa semana

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Gisela, não é uma sopa. O caldo apenas é bebido como acompanhamento do peixe. Também gosto de bodião. O meu avô (materno) costumava pescá-los. Saudades...

      Eliminar
  4. Hum...aqui está uma refeição que adoro, já provei feito por uma amiga daí e adorei...o aspecto ficou excelente!

    Beijinhos

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Narwen, obrigada. E é daquelas que se podem comer sem culpas. Muito saudável e pouco calórica :)

      Eliminar
  5. Que saudades de um caldo de peixe da minha terra. Tem um aspeto ótimo! Beijinhos

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Denise, lembrei-me de ti enquanto o preparava. Perguntei-me se a tua versão seria como esta. E voltei a lembrar-me de ti quando escrevi o texto. Principalmente quando falei do Pico. O "teu" Pico.

      Eliminar
  6. ó que delicía....o jantar "fit for a King".. ou entáo o senhor Bittmen..sem duvida, peixinho fresco, um caldinho quente...e uma receita do teu avô...que maravilha.....engraçado, que quando faço Alcatra, a receita, da minha avó, não mudo nada...nem uma folha de louro a menos...faço exatamente como ela me ensinou...jinhos~Diana

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Pois, é quase uma heresia, não é? Como se lhes estivéssemos a faltar ao respeito :)

      Eliminar
  7. Que bonito peixe! Que bonita mesa! Que bonitas flores! Que bela receita para o senhor Bittmen ☺ Ficou de certeza rendido!
    Bjinhos

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigada, Vera. Penso que o senhor Bittman gostou, sim. Pelo menos, não se queixou :D

      Eliminar
  8. Adorei esse peixinho e as imagens. bom demais!

    ResponderEliminar
  9. Que sortudo o Mr. Bittman!
    Gostei muito da receita do teu avô, pois deve ser bem mais leve do que o caldo de peixe que costumo fazer cá em casa, mais condimentado e... com polpa de tomate.
    Também é bom, mas é diferente. Não o costumamos beber, comêmo-lo à colher, pois opto por desfiar o peixe para dentro do caldo.
    Um dia faço para vocês ;)
    Beijito.
    Maria

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Também gosto dessas sopas com o peixe desfiado. Comi muitas na Graciosa. Fico à espera de provar o teu :)

      Eliminar
  10. E quem me dera a mim ser um Chef famoso para ser também eu convidada para um jantar assim :D:D Simplesmente fantástico Ilidia :D

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Su, se vieres aos Açores, avisa. Não precisas de ser um chef famoso para comer um peixe destes cá em casa :)
      Beijinhos

      Eliminar
  11. Ilídia,

    Um excelente prato para o mais minimalista dos cozinheiros! Há-de ter sido um enorme sucesso e uma refeição para relembrar com estes lindo peixes. Gosto muito da abordagem do senhor Mark Bittman mas cá em casa ainda há um apreciador mais convicto que eu: o meu marido adora o Minimalista. :)

    Obrigada pela tua inspirada participação!

    Um beijo*

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Suzana, não tens nada que agradecer. Foi um prazer ter em casa tão ilustre convidado ;)

      Eliminar
  12. Ilídia,
    que encontro perfeito! Um sortudo o sr. Bittman!
    Comer um caldo de peixe, receita do teu avô, inalterada, e com o nosso peixe fresco e delicioso, são motivos para celebrar.
    Um jantar minimalista, em que menos é mais.
    Um abraço.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Pois, muitas vezes, menos é mesmo mais. E na cozinha, essa máxima aplica-se muitas vezes.

      Eliminar
  13. Esse peixinho à moda do Pico deve ser delicioso. Eu que gosto imenso de peixe decerto que iria gostar de estar nessa mesa, e ainda por cima na companhia desse fabuloso chef. Excelente participação.

    Beijinhos

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigada, Susaninha. A tua pizza "maluca" também está de se lhe tirar o chapéu :)
      Beijo

      Eliminar
  14. Ilidia, esse teu peixinho ficou com um ar super saudavel e apetitoso! Nunca tinha visto esta receita em lado algum :) Tania *

    ResponderEliminar
  15. Tânia, é natural. É uma receita pouco conhecida, creio. Só mesmo por quem, de alguma forma, esteja ligado ao Pico ou por quem tenha visitado esta ilha. Mas vale a pena.
    Um beijinho

    ResponderEliminar
  16. Ilidia,
    Obrigada por teres tomado um pouco do teu pouco tempo para participares! E que convidado! Sei como te sentes pq eu tb sou fan estilo teenager doida pelo Mr Bitty. Li os livros, vejo os programas dele por Espanha, sempre com seu ar tão dece e de bem com a vida.
    Adorei esta refeição, leve e cuidada, cheia de sabor, mesmo como ele gosta.
    Um beijinho e até breve

    ResponderEliminar
  17. Ilídia, ando como tu:sem tempo. Esta semana tem sido desgastante, mas quis vir aqui dizer-te que achei o teu caldo de peixe uma escolha muito apropriada por ser algo nosso, açoriano. Eu como tenho uma costela picoense senti o cheiro do caldo ao mesmo tempo que lia o teu texto. Apreciei a forma como enalteceste a açorianidade através do peixe, do vinho e do nosso Diário Insular.
    Beijinhos
    Patrícia

    ResponderEliminar

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Acerca de mim

A minha foto
O Acre e Doce é um blogue que celebra a vida de casa, principalmente os momentos passados à volta da mesa. É um blogue de coisas que nos fazem felizes, sejam uma refeição, um filme, um livro ou um ramo de flores frescas.